Marxismo no século XXI: o que temos a ver com isso?

18/out/2015, 15h04

Nathi Bittencurt

Iniciamos há algumas semanas a jornada de formação política Marxismo & Século XXI, junto aos ativistas do Juntos Porto Alegre. O primeiro encontro pautou o histórico Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, e a cartilha de Introdução ao Marxismo a partir da Leitura do Manifesto Comunista, de Israel Dutra.

Fizemos este curso num grupo diverso, heterogêneo, com pessoas que não estão no cotidiano da militância, outras que constroem nosso coletivo em seus bairros, escolas e universidades. Iniciamos afirmando que certamente há um elemento que nos unia ali: a experiência que cada um teve em Junho de 2013.

Aquele período mudou, de alguma forma, nossas vidas. Para quem participou de algum ato, quem ainda não conhecia o Juntos!, quem já era organizado em nosso coletivo, foi uma vivência única em que se rompeu o status quo que existia até então. Dizíamos que não era só por 0,20 centavos, questionávamos o transporte público – que não era tão público assim – , o por quê de o serviço de ônibus era prestado por apenas duas ou três empresas, por quê a prefeitura aumentava todos os anos a passagem. Nossa juventude viu seus direitos sendo ameaçados, como a meia-entrada estudantil e as isenções.

Se pudermos definir marxismo numa frase, na cartilha de Introdução ao Marxismo encontramos o trecho que diz “O marxismo é a ruptura profunda com as antigas visões de mundo, a partir da crítica a sociedade burguesa”. Diante de Junho, nós vimos aquele momento com bastante entusiasmo e esperança na mobilização coletiva que se espalhou pelo país. O que começou em Porto Alegre, passando por Goiânia, acabou fomentando um grande questionamento ao regime em dezenas de cidades, principalmente quando se espalhou por São Paulo e Rio de Janeiro. As mobilizações que tinham até então as bandeiras do transporte, saúde e educação de qualidade, agregaram a contestação de temas importantes como a atuação da polícia militar, a atuação da mídia hegemônica na cobertura dos acontecimentos, marcando também uma grande aversão ao regime, aos governos e às antigas “direções” do movimento social que estavam colocadas. Os ares deste tempo ainda estão latentes e suas lições seguem em disputa por diversos setores da sociedade.

Através do marxismo nós podemos tanto interpretar a realidade quanto colaborar na expressão dos interesses da classe trabalhadora. A intenção desta jornada de formação política é pensar coletivamente a forma como nos relacionamos com a sociedade, seus fenômenos sociais, e também como nos encaixamos nessa engrenagem.

Nós já temos uma maneira cotidiana própria de nos relacionarmos com os fenômenos da natureza. Para nos proteger da chuva, temos como antever um dia chuvoso. Para não passar frio ao sair de casa, temos como prever a temperatura ao longo do dia. Recebemos esse conhecimento através da internet, da TV, do rádio. Isso porque em algum momento pessoas se debruçaram sobre estes temas e estudaram estes fenômenos naturais. Marx, em algum momento também começou estudar os fenômenos sociais, e elaborou uma teoria geral sobre o desenvolvimento de nossa história até aqui, o materialismo histórico.

Hoje vivemos um período histórico efêmero, marcado pelo imprevisível, pela aceleração dos processos. Momentos de estudo como esse são cada vez mais necessários, para que a gente traga as situações para a concretude, e colabore coletivamente no estudo e elaboração política para o nosso tempo.

Em outra passagem da cartilha recuperamos a ideia de que marxismo é luta, é questionamento, é movimento. A sociedade capitalista nos empurra pra manutenção do sistema como ele está, na forma como conhecemos. Mas há momentos de ruptura com a ordem “normal” dos fatos em nossa história, inclusive a história recente.

Um momento local que nos serve de exemplo aqui é a radicalizada greve dos rodoviários de Porto Alegre no verão de 2014, certamente inspirada pelas grandes mobilizações de 2013. Esta greve foi muito forte, pois paralisou a capital por 15 dias e acendeu o debate sobre a relação dos trabalhadores e a população com os grandes patrões. Muitos de nós participamos de alguma forma daquele período. Após a leitura do Manifesto Comunista e da cartilha podemos refletir juntos quais foram os papéis que cada um cumpriu naquele momento na sociedade.

Qual foi o papel da mídia hegemônica ao cobrir os piquetes da greve nas garagens? Qual o papel dos proprietários das garagens de ônibus ao defender seus lucros e assediando moralmente os trabalhadores? Qual a postura da prefeitura, sendo demandada pela população e pelos grandes empresários? Qual o papel dos partidos da ordem e dos partidos de esquerda? Quem estava nos piquetes junto aos trabalhadores? De que lado nós estávamos? A partir de episódios como esse podemos entender na prática a lógica da disputa de interesses que vamos aprofundar na teoria política.

Outro elemento que enriquece nossa discussão teórica é o avanço das lutas democráticas. Quanto mais se fortalece a luta pela empancipação das mulheres, a luta pelos direitos LGBTs, das negras e negros, mais se fortalace nossa convicção de que um novo mundo, um mundo socialista, é indissociável da democracia e da liberdade. Um exemplo é a lógica patriarcal de nossa sociedade, que serve tanto para dar continuidade a submissão das mulheres, quanto para continuar o sistema consolidado de heranças, acumulação de geração após geração.

As bandeiras lançadas ao final do Manifesto Comunista, como a necessidade de tomada do poder pelos trabalhadores, a abolição dos meios de produção privados, imposto taxado de forma progressiva, são bandeiras de um programa escrito em 1848, porém extremamente atuais.

Em nosso primeiro encontro de formação, fomos mais de 50 pessoas compartilhando conhecimentos e aprendendo com o marxismo, em quatro grupos de discussão. Saímos mais convictos e fortalecidos, nos identificando enquanto jovens estudantes e trabalhadores fundamentais para a luta diária por um novo e igualitário mundo. Para seguir inspirados, nosso próximo passo será estudar a Revolução Russa. Só a luta muda a vida!

Nathi Bittencurt é membro do Grupo de Trabalho Nacional do Juntos, Diretora de mulheres pelo Juntos na Oposição de Esquerda da UNE, e Coordenadora de Finanças do DCE UFRGS.