Paraguai: Entrevista com estudantes do #UNANoTeCalles

Nathi Bittencurt 01/out/2015, 12h54

UNA

A Universidade Nacional do Paraguai tem sido palco de intensas mobilizações estudantis na última semana. Após um escândalo de corrupção na reitoria de Froilán Peralta, o movimento estudantil protagoniza ocupações e protestos em defesa da educação gratuita e de qualidade. O movimento #UNANoTeCalles tem tomado repercussão internacional. O Juntos! entrevistou os estudantes Nícolas Iranzo e Lucas Cogliolo, que nos trazem um pouco dos ventos indignados do Paraguai.

Nicolás, o que despertou o movimento estudantil no Paraguai a mobilizar-se contra a reitoria de Froilán Peralta? Nos conte um pouco sobre as denúncias de corrupção em torno da administração da UNA.

O conflito começou quando um jornal de circulação nacional (Ultima Hora) publicou uma investigação sobre nepotismo na Universidade Nacional de Assunção, onde o reitor Froilán Peralta tinha mais de 12 parentes recebendo salários altíssimos de 1000 U$$ a 2000 U$$ sem trabalhar de fato dentro da universidade. Depois desta denúncia, o Reitor Froilan Peralta emitiu um comunicado de que não renunciaria ao cargo, somente apresentaria uma “licença” ao Conselho Diretivo da Universidade que iria se reunir na terça-feira, 22 de setembro, para aceitar ou rechaçar o pedido.

Esta reação do reitor desatou a manifestação. Desde a segunda-feira, 21 de setembro, ocorreram manifestações e vigílias em frente a reitoria da Universidade, que é o lugar onde seria realizada a reunião do Conselho Diretivo. Na reunião de 22 de setembro, o Conselho aceitou o pedido de licença do Reitor, o que motivou manter reféns dentro da reitoria por 18 horas, e a vigília permanente e a paralisação de atividades dentro do Câmpus.

Há muitos cartazes que pedem educação gratuita e de qualidade para a UNA. Como é a realidade dos estudantes de escolas e universidades do Paraguai? Quais são suas pautas?

As bandeiras estudantis dentro desta mobilização são, em sua maioria, evidenciadas como circunstanciais: “Fora Froilán”, “Cadeia para Froilán”, etc. As bandeiras sobre educação pública, gratuita e de qualidade passaram para um segundo plano, mas sempre estiveram presentes.

A realidade dos estudantes no Paraguai é a seguinte: Paraguai destina apenas 3,5% do seu orçamento para a Educação (sendo que o recomendado pela ONU é 7%). Nas escolas não há infraestrutura suficiente, faltam salas, carteiras, merenda escolar, kit escolar, assim como o salário dos professores é bastante baixo e a capacitação é nula.

A Universidade Nacional de Assunção, a maior universidade pública do país, está tomada pelo Partido Colorado, o qual compra os representantes docentes e discentes para manter seu poder dentro da instituição. A universidade está cheia de funcionários e docentes irregulares (recebem salários altíssimos sem prestar serviços). Vieram a luz casos de garçons, motoristas, jovens em idade escolar, representantes discentes recebiam salários de professores em toda a universidade.

A militância política no interior da Universidade é majoritariamente do Partido Colorado, desde as bases (alunos) até os professores e decanos. A única consigna comum entre os estudantes universitários e os secundaristas é o aumento do orçamento para a educação.

O movimento UNANoTeCalles já completa 5 dias. Como vocês têm se organizado coletivamente para construir esta forte mobilização?

A organização UNAnotecalles recebe doações de alimentos, barracas, cobertores, água, de toda a sociedade, sendo este o fator-chave para que a ocupação da universidade se prolongue até hoje.

A organização está dividida em: Organização-geral, Logística e Segurança. A organização-geral é composta por: presidentes de centros estudantis e um movimento independente que se chama Frente Estudantil pela Educação. A Logística e a Segurança foram formadas espontaneamente dentro dos dias de vigília. O grupo de Logística se encarrega de distribuir doações, preparar a comida, distribuir água. O grupo de Segurança se encarrega da segurança constante em todas as faculdades, vigiando para que não se roubem documentos, assim como também o acesso e a inspeção dos veículos e pessoas que ingressam no Campus, que foi tomado pelos estudantes desde terça, 22 de setembro.

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O impacto dos protestos chegou até os campos de futebol, como vimos em várias manifestações de apoio no campeonato Clausura e a declaração do goleiro da Seleção paraguaia Justo Villar. Como vocês receberam estes apoios?

O impacto dos protestos chegou a todo o país, não só no futebol. Muitas centenas de empresas privadas e cidadãos enviaram apoio, comida e água para os manifestantes. Muitos cidadãos não-estudantes da universidade se aproximaram para ajudar e se somar à marcha. Assim como muitos estudantes de universidades privadas estiveram presentes. Este apoio das empresas privadas não passa de ação de marketing, mas o apoio dos cidadãos é muito forte!