PT usa saúde do povo como moeda e compra apoio do PMDB

Marcelo Rocha Garcia 06/out/2015, 15h17

Se alguém tinha alguma dúvida de que o governo Dilma e o PT abandonaram completamente seus ideais para manter o poder, essa dúvida acabou na última semana. As pressões políticas pela queda de Dilma, a diminuição do controle sobre a base aliada e o escândalo da Lava-Jato são as situações adversas que revelam o verdadeiro caráter do PT atual. Em mais uma manobra desesperada para se manter no cargo e evitar um possível impeachment, Dilma negociou mais ministérios, dando mais poder ao PMDB em troca de seu apoio e de sua fidelidade. Desta vez, chegou ao fundo do poço em seu próprio balcão de negócios: transformou um dos principais ministérios e um dos principais orçamentos federais em moeda de troca de suas barganhas políticas – o Ministério da Saúde.

Verdade seja dita: a gestão do ex-ministro, Arthur Chioro (PT), não merecia defesa. Chioro, outrora militante da Reforma Sanitária, foi um ferrenho opositor da diminuição da jornada de trabalho de 40 para 30 horas para a psicologia, para a enfermagem e para outras categorias da saúde. Engoliu o corte de mais de 12 bilhões da pasta sem demonstrar qualquer resistência. Teve seu nome citado por Alberto Youssef, com quem teria mantido encontros, na contratação de um laboratório chamado Labogen, o qual Youssef teria utilizado em seus esquemas, pelo Ministério da Saúde.

O novo ministro, Marcelo Castro (PMDB/PI), já chega sob denúncia de que teria utilizado 80 mil reais em aluguel de uma caminhonete Amarok para percorrer o interior do Piauí (6,5 mil reais por mês). Castro ampliou seu patrimônio em 117% entre 2010 e 2014, período em que foi deputado federal: passou de 629 mil para mais de 1,3 milhão de reais. Como se não bastasse, ainda é um ferrenho opositor de grandes avanços na saúde pública, como a Reforma Psiquiátrica. Seu discurso no debate sobre a Redução da Maioridade Penal, dizendo que “o delinquente é assim porque ele quis e procurou esse caminho”, arrancaria suspiros de neofascistas. Outras opções não eram melhores, como Manoel Jr. (PMDB/PB), pai da PEC que possibilita que o capital estrangeiro venha transformar a saúde no Brasil em negócio, ou Daniel Soranz (PMDB/RJ), que transformou o SUS do Rio em pura privatização e desrespeito aos direitos trabalhistas.

Para além de nomes, a questão mais importante aqui é a maneira como os direitos sociais vêm sendo tratados pelo governo “popular” do PT. Enquanto 57% dos brasileiros acreditam que a saúde deve ser a prioridade do governo, o PT a transformou em mera negociata. Fez tantos acordos com o PMDB que aprendeu com ele a ser completamente fisiológico e agarrado ao poder, aceitando rifar todos os direitos sociais – os nossos direitos! – para se manter em seus cargos.

O PT não é mais uma ferramenta viável para a esquerda, já que responde muito mais às pressões da direita e se comporta de maneira muito semelhante a ela. E todos sabemos que a direita, que governou o Brasil por 500 anos, deixando o povo com fome e na miséria, não é opção. Por isso, é urgente o estabelecimento de uma nova opção, uma terceira via que faça a esquerda voltar a defender os trabalhadores de verdade.

Com a reforma ministerial, o PMDB controlará, em termos de orçamento, ministérios mais fortes que o próprio PT. Em outras palavras, o PMDB hoje tem mais poder na Esplanada que o PT. O PMDB governa de fato. Mas isso já não faz mais tanta diferença. O PT tornou-se tão fisiológico que já não se sabe mais onde ele termina e onde começa o PMDB. São, como diz a companheira Luciana Genro, irmãos siameses. Não existe mais ilusão: o PT é um enfermo em estado terminal. E, depois de tantas negociatas e tantos cortes, não haverá remédio nenhum para salvá-lo.

Marcelo Rocha é médico da Estratégia Saúde da Família de Porto Alegre/RS, mestrando em Saúde Coletiva e acadêmico de Ciências Jurídicas e Sociais pela UFRGS e militante do Juntos! RS