Por mais direitos para a juventude negra. O inimigo é outro

10/nov/2015, 19h10

Os rastros de uma sociedade pós colonizada deixam marcas e cicatrizes na população negra do Brasil desde o início dos tempos. Desde o “lugar de preto” que sempre foi muito bem definido, quando construímos prédios que jamais poderemos entrar ou quando somos estudados por universidades nas quais não estamos.

O Brasil, mesmo sendo o país com a maior população negra fora da África (atrás apenas da Nigéria), ainda está muito aquém quando se trata de garantia de direitos. De fato, a carne mais barata do mercado é a carne negra.

A mesma parcela da populaçõ que foi escravizada, tem sido marginalizada desde o fim do regime escravocrata. Os negros ainda acumulam os piores indices de alfabetização, acesso ao ensino, saúde, saneamento básico e recebem os piores salários.

O fim da escravidão libertou os negros da correntes dos chicotes, mas o processo de embranquecimento da população somado a ausência de direitos fizeram das grades dos presídios e da violência policial as sinas da população negra no Brasil. Dados da Anistia Internacional revelaram que dos 30 mil mortos no ano passado, 77% eram corpos negros. Nos presídios a população negra representa 70% do total de presos do país. Duas consequências diretas da marginalização e da guerra às drogas que, na verdade, é uma guerra ao pretos e pobres.

Diante deste projeto genocida, o filme Tropa de Elite 2 vem a calhar. O inimigo, que no primeiro filme foi pintado de preto e favelado na figura dos traficantes do Rio de Janeiro, se revela ser outro. Nesta guerra em que a juventude se encontra na luta por mais direitos, quem é o verdadeiro inimigo?

Acham que ‘nós’ é ladrão só porque ‘nós’ é preto”. Jovem retirado de ônibus da linha 474

(Jacaré – Leblon)

Seguindo a linha de raciocínio do filme de José Padilha, o inimigo está sentado nas cadeiras do congresso nacional, o tal malandro profissional que Chico Buarque anunciava. Inimigo é quem mata e adoece o povo preto, é quem fecha escolas públicas nos mantendo à margem da sociedade, quem impede jovens de ir à praia definindo, assim, quais lugares podemos ou não ocupar na cidade, quem aprova a redução da maioridade penal e quem corrobora para o crescimento da desigualdade social, cuja base é, mais uma vez, o povo preto.

Enquanto o Estado nos mantém à margem da sociedade e criminaliza nossos corpos, um verdadeiro levante tem surgindo. Jovens do Brasil, dos EUA e da África do Sul dão o exemplo ao sair às ruas, principalmente conra o abuso policial, a gente da poítica de genocídio da população negra. No Brasil o movimento negro viu o Congresso Nacional aprovar a redução da maioridade, o que ataca diretamente os jovens negros. Esse mesmo congresso é responsavel pela lei de terceirização e pelos ataques nos direitos das mulheres, medidas que tem como principais vitimas as mulheres negras. A PEC215 que passa a decisão sobre demarcação de terras para o Congresso Nacional, coloca o direito de Quilombolas na mão dos ruralistas.

Nesse sentido, acreditamos que a luta da negritude também passa por enfrentar os responsáveis por esses ataques e mostrar que o inimigo é outro. Entre eles está o Presidente da Câmara Eduardo Cunha. O #FORACUNHA deve se tornar numa bandeira de enfrentamento a esse sistema racista que ataca diariamente as vidas negras. A juventude negra deve ocupar as ruas e as redes contra todos aqueles que tentarem limar os seus direitos e construir as lutas em torno do dia 20 de novembro.

ZUMBI VIVE. DANDARA VIVE!

POR MAIS DIREITOS PARA A JUVENTUDE NEGRA, O INIMIGO É OUTRO!

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017