Fazer da Primavera Feminista uma construção de um novo projeto de cidade das mulheres!

Tássia LopesMarcela Pellin 18/dez/2015, 14h25

Terça-feira, dia 15 de dezembro, ocorreu na Praça da Matriz em Porto Alegre o evento “Cidade Das Mulheres” proposto por Luciana Genro. Um espaço que contou também com a presença da filósofa e escritora feminista Marcia Tiburi, a vereadora Fernanda Melchionna, a antropóloga e professora Rosana Pinheiro Machado, a militante do movimento negro e feminista Winnie Bueno e a militante do movimento Juntas! Marcela Pellin.

Com muitas mulheres ocupando a praça, foi um momento de pensarmos o que é uma Cidade Das Mulheres? É necessário que as cidades se apoiem na luta por emancipação feminina para que elas mesmas construam uma plataforma de cidade.

O direito à cidade é negado para as mulheres. Hoje em Porto Alegre temos um grande déficit de creches públicas que é um fator que afasta as mulheres do acesso à educação e mercado de trabalho. O cuidado dos filhos historicamente recai sobre as mães que sem condições para deixar seus filhos gratuitamente, muitas delas abandonam as escolas, universidades e empregos.

Para avançar ainda mais na luta por uma cidade que seja nossa, é fundamental combater os assédios que sofremos. Milhares de nós já sofreu algum tipo de violência sexual dentro dos transportes e vias públicas e fora destes também. O machismo na nossa sociedade nunca foi velado, mas as denuncias, inclusive de estupro, crescem à cada ano mesmo sob a luz do dia, e para florescer a primavera das mulheres também em Porto Alegre não podemos nos calar diante destes casos. É necessario denunciar e combater a naturalização da violência contra a mulher. A saída para construir uma alternativa em que as mulheres se apropriem da cidade é coletiva, só assim vamos conseguir chegar na raíz do problema para assegurar direitos e conquistar esse espaço que também é nosso.

A falta de Delegacias Especializadas ao Atendimento à Mulher (DEAM) e Casas Abrigo é evidente. Somos um país governado por uma mulher onde existe um orçamento medíocre para o combate a violência doméstica. O Brasil está em 5º lugar no ranking dos países que mais matam mulheres, onde 5,5 mulheres são vítimas de feminicídio à cada 100 mil habitantes e em Porto Alegre são 4,2. As DEAMs são longe das populações mais periféricas e temos pouquíssimas casas abrigo. Em Porto Alegre temos apenas uma e o prefeito fecha os olhos para a construção de novas casas, temos apenas uma DEAM extremamente sucateada pelo governo do estado.

Num momento de crise econômica, retira-se investimentos das áreas sociais e quem está pagando com a vida são as mulheres vítimas de violência doméstica que necessitam de atendimento de qualidade.

Nesse contexto, as mulheres negras são as mais sofrem com a falta de políticas públicas, o que as torna ainda mais vulneráveis à todo tipo de violência. Nós precisamos de uma cidade que empodere e contemple suas demandas. Que as insira de forma categórica no projeto de cidade que queremos construir. O povo negro corresponde a maioria da população brasileira, no entanto devido à fatores históricos foram empurrados para as margens das grandes cidades que hoje chamamos de favelas. Segundo pesquisa, Porto Alegre é a capital que mais segrega a população negra nos país. E a realidade é que, além da falta de saúde pública, de segurança e até de saneamento básico nesses espaços, há também um fator social preocupante, são nas periferias onde se contabilizam os maiores índices de violência doméstica. Pra além disso, precisamos nos apropriar das pautas e lutar ainda mais pela desmilitarização da Policia Militar, e pensar em um outro projeto de segurança pública que não esteja à serviço de uma pequena parcela da nossa sociedade e muito menos para a manutenção de uma política de extermínio da juventude negra que são também responsabilidade dos Governos.

A pauta da educação também nos é cara, pois sentimos na pele o descaso dos Governos em todas as suas esferas que atinge também o município onde a educação básica deve tratar o tema das opressões que a sociedade reproduz. Tivemos uma dura disputa no início desse ano nos Planos Nacional, Estadual e Municipal de educação. Por todo o país foi retirado os termos “gênero”, “identidade de gênero” e “sexualidade” dos PMEs, fortalecendo a lógica conservadora e mercadológica da educação e ignorando o papel da escola na desconstrução do machismo, racismo e LGBTfobia. Queremos inverter essa lógica e assegurar um futuro diferente para todas nós.

A Primavera das Mulheres foi um grande exemplo no Brasil. Emparedando Eduardo Cunha e trazendo um debate importante para a sociedade: as desigualdades entre homens e mulheres. Nas eleições de 2016, ficará evidente a disputa em torno de projetos de cidade. Nós, feministas, também precisamos lutar por uma cidade para todos, não excludente, mas que também seja uma cidade para as mulheres. Não temos investimento, creches, segurança, acesso à um modelo de educação sem opressões e morremos vítimas de feminicídios. Não queremos nenhuma a menos e para isso a construção de um projeto feminista e que enfrente os mais ricos é necessário. Para o coletivo Juntas, construir a primavera nas cidades é urgente, pois não nos silenciaremos mais diante do machismo: nós queremos tomar a cidade nas nossas próprias mãos.

Fontes:

http://www.sul21.com.br/jornal/sem-condicoes-de-cumprir-mandados-reuniao-aponta-falhas-em-rede-de-atendimento-a-mulheres/

http://www.sul21.com.br/jornal/com-marcia-tiburi-e-luciana-genro-mulheres-debatem-feminismo-e-direito-a-cidade/

https://www.nexojornal.com.br/especial/2015/12/16/O-que-o-mapa-racial-do-Brasil-revela-sobre-a-segrega%C3%A7%C3%A3o-no-pa%C3%ADs

http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf

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Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017