Surto de Zika vírus e microcefalia: as mulheres não devem ser responsabilizadas!

Sâmia BomfimSofia YonetaAna Karla 10/dez/2015, 08h17

Desde outubro de 2015, o Brasil tem registrado um alarmante número de casos do nascimento de bebês com microcefalia, principalmente mulheres pobres e de cidades pequenas no Nordeste, com difícil acesso aos hospitais. Segundo dados do Ministério da Saúde, já são pelo menos 1761 casos em cerca de 311 munícipios de 14 estados do Brasil. O surto está relacionado ao zika vírus, doença transmitida pelo Aedes aegypti, mesmo mosquito transmissor da dengue.

A maioria da população brasileira nunca tinha ouvido falar sobre Zika antes de serem divulgados os recentes casos de nascimento de microcéfalos. E agora muitas mulheres convivem com o medo da doença e as consequências para a vida e criação de seus filhos.

Mesmo em uma situação de grande desamparo e insegurança para as mulheres, a sociedade médica e as ditas autoridades de saúde tratam a questão do mesmo modo que vemos todos os anos com a dengue: culpabilizando o indivíduo. De forma praticamente ultrajante para ser considerada uma medida de prevenção em Saúde Pública, do mesmo jeito que responsabilizam os indivíduos pelas caixas d’água, pelos pratos de plantas e pelos baldes para controle da dengue, direcionam mensagens à nós para uso de repelentes, roupas compridas e, como se a realidade fosse tão simples, que as mulheres evitem engravidar.

Isso levanta uma questão de gênero no meio dessa epidemia. Recomendar que as mulheres não engravidem é uma mensagem totalmente incoerente, mesmo que “emergencialmente”, para uma sociedade que historicamente não provê condições suficientes de saneamento básico, educação e saúde. Há uma forte relação entre a doença e a pobreza, e não à toa o zika vírus tem abatido mais as cidades pobres, com péssimas condições de saneamento, pouco acesso à informação e condições precárias de saúde.

As recomendações vindas do diretor de vigilância de doenças transmissíveis do Ministério da Saúde de que as mulheres precisam “pensar duas vezes (sobre a decisão de engravidar)” ignora as baixas condições de escolhas para milhares de mulheres que não têm acesso a planejamento familiar e educação sexual, que estão sujeitas à violência e que não podem optar pelo aborto legal. Medidas essas que são bandeiras históricas dos movimentos feministas, e de total responsabilidade mas também baixo investimento e debate pelo Estado. A grande maiorida das mulheres, nessas condições, não tem a maternidade como uma escolha, mas sim uma imposição. Não permitiremos que o governo se isente e dissemine um discurso que nos responsabiliza pelas medidas de prevenção da doença!

A microcefalia decorrente da zika é consequência do modelo de sociedade que os governos brasileiros implementaram no Brasil e que o PT também deu continuidade: ampla desigualdade social e cidades segregadoras e doentes sob a lógica do lucro.

Neste momento, todas nós mulheres, mães, feministas, militantes e sociedade civil, manifestamos total solidariedade às mães que perderam suas crianças e às que estão nos hospitais com seus filhos e filhas!

Temos também que nos organizar para contribuir com a circulação de informações relacionados à doença e exigir amparo com creche, auxílio financeiro, social e de saúde para a criação especial desses filhos e filhas. A culpa não é nossa!

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017