Doutor, eu não me engano: o ladrão da merenda tem bico de tucano!

Charles Rosa 15/fev/2016, 03h20

A Fiel está inquieta. É dia de clássico Majestoso contra o São Paulo. Gritos atravessam o Itaquerão.

Gol do Coringão? Não, revolta. Os corintianos estão revoltados.

Quatro faixas destacam-se na multidão alvinegra. Técnico burro? Time sem vergonha? Ou joga por amor ou joga por terror?

Não, desta vez o buraco é bem mais em cima. As frases contidas nas faixas miram os podres poderes.

A Fiel aponta “CBF e FPF, vergonha do futebol”. Na terra do 7×1, dos Teixeiras, Marco Polos e Marins , quem ousará discordar dessa verdade ululante? O FBI?

A Fiel pede “Ingresso mais barato”. Na bilheteria, é preço de ópera para assistir o time dos operários. E assim as novas arenas estão cheias de bolsos cada vez mais vazios. Na verdade, o que vemos Brasil afora é o povão sendo escorraçado dos campos para deleite dos chatos sócio-torcedores plus platinados. O que antes eram mastros tremulando nas mãos de maloqueiros e sofredores, agora são paus de selfie nas mãos de playboys e da “classe média sofre”. Resistir à elitização e ao “acoxinhamento” dos estádios é preciso.

A Fiel faz a denúncia “Futebol refém da Rede Globo”. Em rede nacional, a Fiel faz saber que o povo não é bobo. O monopólio televisivo impõe o horário esdrúxulo. Jogos às 22h no meio da semana não são tranquilos nem favoráveis para o trabalhador! As frias madrugadas paulistanas desalentam os corações fanáticos que ficam sem condução para voltar pra casa. Definitivamente, os interesses da Vênus Prateada atrapalham o rolê da geral.

A Fiel quer saber “Quem vai prender o ladrão da merenda?”. Os Gaviões arremetem contra os tucanos. O promotor que ganhou fama criminalizando as torcidas organizadas agora é deputado, presidente da ALESP e investigado por cobrar propina em contratos de fornecimento de merenda escolar. Quem será capaz de deter Fernando Capez e os quadros do PSDB que transformaram o alimento das crianças em zeros nas suas contas bancárias? No Tucanistão, Alckmin e seu governo tentam fechar escolas, enquanto fazem escola de fraudes escandalosas. (ver: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/01/29/politica/1454092666_925274.html )

Sim, a Fiel está revoltada. Impedida de entrar uniformizada nos estádios por dois meses após acender um sinalizador de fumaça numa partida de juniores, a maior torcida do clube mais popular de São Paulo volta suas baterias estridentes na direção dos engravatados responsáveis por surrupiar o futebol nosso de cada dia, por surrupiar aquilo que nos é de direito: seja pão, seja circo, seja merenda, seja futebol.

O bando de loucos recupera o papel de vanguarda da luta popular que por vezes na história coube ao Corinthians. A Fiel volta a ser exemplo para outras torcidas. O que a paixão clubística separou, o interesse público deve unir. Volta a ser exemplo para nós, ativistas. Não faz pouco tempo que a Gaviões manifestou apoio à luta dos secundaristas? Não faz pouco tempo que a Gaviões se posicionou contrariamente ao aumento da tarifa dos transportes? Imagino que a nossa retribuição neste momento seria tão útil quanto muito bem-vinda.

O genial Sócrates estaria sorrindo em 2016. A Fiel cerrou os punhos, as massas estão quebrando o silêncio. Não por causa de um brilhante gol de calcanhar no final de uma partida renhida. Mas para reivindicar o direito de torcer e para expressar uma indignação popular. O básico do básico numa Democracia (corintiana, ao menos).

Charles Rosa é estudante de História da USP e, por razões que a própria razão desconhece, torcedor do Palmeiras

 

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