A herança da Primavera feminista e as perspectivas para o 8 de março

Juntas 08/mar/2016, 10h36

2015 terminou diferente: com a luta contra o Eduardo Cunha fortalecida e com um novo momento para a luta das mulheres. Em 2016 não aceitamos mais nos silenciar e denunciamos o machismo e assédios, assim como, não nos silenciamos com direitos retirados, um bom exemplo disso foi a gigantesca manifestação das secundaristas de Porto Alegre contra a proibição do shortinho.

Em 2016 a crise econômica se agrava, juntamente com a crise política e social. Será um ano difícil para a população e para as mulheres. O aumento do desemprego, a manutenção dos lucros dos mais ricos, o pacote de ajustes nos direitos trabalhistas ano passado (MP do seguro desemprego), a proposta de Reforma da Previdência que aumentará nosso tempo para poder enfim se aposentar, o aumento da violência e cortes em pastas voltadas para áreas sociais. As mulheres, e principalmente mulheres negras e mulheres jovens, são maioria entre os setores desempregados. Isso tudo corrobora com um descrédito com a política.

Esse será o primeiro 8 de março após a Primavera das Mulheres. E assim como os rumos do movimento feminista, está em disputa. Setores do governo encabeçados pela CUT disputam para que o caráter do dia internacional da mulher seja das “Mulheres em defesa do Lula”, também pela defesa do mandato da Dilma e secundarizando o Fora Cunha. Nossa defesa é do 8 de março que seja a expressão da primavera que construímos ano passado: das mulheres contra Cunha, das Minas de Luta que foram e são linha de frente das ocupações de escola, de nenhum passo atrás direitos das mulheres e do empoderamento das mulheres negras.

Nesse sentido, o 8 de março deve servir para fortalecer a luta das mulheres em um contexto de crise nas costas da classe trabalhadora. Não há como defender o governo que aplica os ajustes contra o povo, que construiu apenas uma em cada três creches prometidas¹ e segue cortando dinheiro da educação infantil² ou que destina cada vez menos recursos para combate à violência. Apesar de já ter declarado ser a favor da legalização do aborto, Dilma recuou nos debates presidenciais e nunca moveu um dedo para garantir este direito que é tão caro e fundamental para as mulheres. No meio da epidemia de zika virus e da microcefalia, volta-se a tona (inclusive sob orientação da ONU que os países com surto de zika legalizem o aborto) esse debate, num país em que a cada 2 dias uma mulher morre por aborto inseguro por ano (Dado da Organização Mundial da Saúde). Não podemos recuar. É hora de arrancar conquistas.

Vamos sair às ruas contra o ajuste fiscal e a reforma da Previdência, por um combate sério contra violência de gênero e pela legalização do aborto. O movimento feminista está vivendo outro momento, as mulheres que nos últimos períodos se movimentam e saem às ruas, já não toleram mais um movimento institucionalizado e que rifa nossas pautas. Precisamos aprender e ser parte dessa nova geração, carregando a combatividade e a história das que tombaram por nós. O 8 de março é das mulheres, para as mulheres e pela nossas vidas.

¹Em relação ao mandato 2010-2014

²Dos quase 10 bilhões cortados da educação no ano passado, 37% foi na educação infantil