Gregório Duvivier: Do que e que se tem saudade

Gregorio Duvivier 14/mar/2016, 15h00

Artigo originalmente publicado na coluna semanal da Folha de São Paulo

“O mundo tá chato”. Você já deve ter ouvido essa frase, geralmente vinda de gente chata. Em geral, serve para justificar o fracasso de alguma piada -claro, a culpa é do mundo, não da piada. Se sua piada não teve graça é porque “o pessoal hoje em dia se ofende com qualquer coisa”, afinal “você não pode mais brincar com nada” desde que “o politicamente correto venceu”. O que aconteceu? “O mundo perdeu a graça”.

 

Vale lembrar o óbvio: o fato de os ofendidos estarem manifestando somente agora sua indignação não significa que não se ofendessem antes. O que chamam de “politicamente correto” também pode atender pelo nome de “processo civilizatório”: o mundo definitivamente tá mais chato -se você for racista, machista ou homofóbico.

 

Nunca vi um negro com saudades das boas e velhas “piadas de crioulo”. O saudosismo, assim como o mocassim e a camisa polo com um cavalo enorme, é doença de branco. Se ninguém ri de uma piada machista, não significa que o mundo perdeu a graça, significa que o machismo perdeu a graça. Ou seja: cuidado. Quando você diz que o mundo tá chato, você pode estar se entregando.

 

“Quero meu Brasil de volta” -gritam atores em vídeo-manifesto e dançarinos em coreografia ensaiada. Não contem comigo para nenhuma manifestação que peça o Brasil de volta -são grandes as chances desse Brasil ser a encarnação das trevas.

 

Imagina que você tivesse uma máquina do tempo. Pode escolher uma época. Se eu fosse você, não colocaria no “shuffle”. Especialmente se você for negro, gay, mulher ou travesti. As chances de você ser espancado, escravizado, preso ou estuprado são altíssimas. Se você for pobre também não vai ser muito divertido. Viagem no tempo não é para esse povo diferenciado. A não ser que esteja procurando emoções fortes. Nesse caso, boa viagem.

 

Da minha parte, acho que prefiro ficar por aqui mesmo. Ainda não inventaram nada melhor do que o presente. Talvez abrisse uma exceção para o Brasil pré-colonial. Imaginem a Baía de Guanabara antes de Cabral -tanto o Sérgio quanto o Pedro Álvares- ou São Paulo antes de Borba Gato -tanto o bandeirante quanto a estátua. Aí sim. Por esse Brasil eu iria pra rua. No entanto, tendo em vista a profusão de hinos, bandeiras, camisetas da CBF, não acho que o Brasil das manifestações fale tupi-guarani. As selfies com a PM indicam que o Brasil saudoso é mais recente.

 

Se você quer algum Brasil de volta -levando em conta nossa história-, cuidado: você pode estar se entregando.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017