Aparência e essência: sobre Alckmin, branquitude e governabilidade 
Foto: Ricardo Stuckert/PT

Aparência e essência: sobre Alckmin, branquitude e governabilidade 

Reflexões sobre as últimas polêmicas da candidatura de Lula

João Pedro de Paula 13 abr 2022, 11:06

A cereja do bolo da candidatura de Lula à presidência foi colocada. Tal como a Carta ao Povo Brasileiro, a chapa com Alckmin expressa um recado, cujo o povo (entenda-se a classe trabalhadora) não é o seu destinatário. Significa uma sinalização à burguesia (entenda-se os ricaços daqui e de fora) que seu governo não irá colidir com seus interesses. Poderá dar um pouco ao povo, que em condições de crise e pobreza de fato pode representar muito – ainda mais tendo Bolsonaro como seu antecessor, mas isso sem promover enfrentamentos aos ricaços para de fato transformar as questões estruturais que nos interessam, como a taxação de grandes fortunas, por exemplo. 

Com o histórico que os governos do PT tiveram no sentido de cumprir esse acordo, talvez se poderia argumentar que tal composição não seria necessária. O que é verdade em certa perspectiva, mas algo que não cabe aqueles que de fato buscam a plena transformação. O papel para esse tipo de crítica pode caber aqueles que ainda veem (de forma incorreta, digo eu) uma possível saída programática através do PT.

O que de fato cabe a nós argumentar é que com ou sem Alckmin a natureza de um futuro governo Lula será a mesma: a famosa busca pela conciliação de classes, na qual a corda sempre estoura para o lado de cá. Às vezes mais rápido, às vezes mais devagar. Mas a conta, quando a corda estoura, é sempre paga por nós. Tal como fez o governo Dilma com a política de ajuste fiscal, que foi exponenciada por Temer e por Bolsonaro nem preciso dizer muito. 

Assim, Alckmin é uma expressão do conteúdo da política que o PT quer aplicar. Ainda que a aparência e essência não se confundam, aquela diz muito sobre um fenômeno. Puxando a bola para esse lado, ficou nítido os cinquenta tons de branco nas fotos em que foi oficializada a chapa Lula-Alckmin. Não ter pessoas negras lá diz muito.  

Mas ainda assim, se lá estivessem, estariam construindo um projeto que não servirá a maioria do povo negro desse país, por mais legítimas que possam ser suas intenções. Não é o nosso papel fazer a disputa para que futuras reuniões como essa tenham pessoas negras. Não queremos representatividade na mesa que vai construir um governo com aqueles que retiraram e ainda vão retirar nossos direitos. A representatividade que queremos é nos projetos que de fato vão romper com essa lógica de conciliação. E como a história já mostrou, não será através do PT. 

Para a forma que o PT pretende governar, o partido faz uma escolha muito boa na aparência. Não quer deixar nenhuma dúvida do que quer. Faz uma clara sinalização aos ricaços para angariar o máximo de apoio. Poderia ter optado por não ter Alckmin ou por ter quadros negros na dita reunião, mas isso não mudaria a essência de sua política.  

E sobre a tal de governabilidade, um dos argumentos que Haddad usou para justificar a composição com Alckmin, é preciso dizer que ela não é algo em abstrato. Não se constrói governabilidade sem uma política ou um conjunto de políticas (um programa) em disputa. Se querem buscar a tal da governabilidade com a direita, é porque querem construir um projeto em comum. O discurso da governabilidade representa um projeto de esquerda que coloca a institucionalidade como prioridade, em detrimento das necessidades concretas e urgentes do povo. Almejando a “capacidade de governar” na lógica da conciliação, podem estar em negociação os nossos direitos em outro momento (como já vivemos em outros governo do PT).

Para nós, a lógica é a da disputa política, na busca por ter correlação de forças, ou seja, conseguir impor através da força da mobilização que temos enquanto maioria social a nossa vontade. Nossas vitórias não sairão através de acordos com aqueles que retiram nossos direitos. Aliás, podem até sair. Mas só sairão se tiver mobilização, povo na rua que os faça ceder. É isso que a luta pelo aborto legal na América Latina nos ensinou. É isso que o povo chileno nos ensinou com o enterro da Constituição ultraliberal da Ditadura de Pinochet.  

É claro, não vou deixar dúvidas. Com ou sem Lula no segundo turno (cuja segunda opção é muito remota), temos que votar e fazer campanha na rua para não só derrotar eleitoralmente Bolsonaro, de forma expressiva, como enterrar a extrema-direita no Brasil. Mas não tenhamos ilusões, usar Lula para derrotar Bolsonaro e ter mais condições de construir um projeto próprio, não significa se diluir em um projeto que não é nosso.

Por mais que pelas condições imediatas alguns possam querer disputar os rumos do PT, não é assim que iremos construir um projeto próprio, de fato consequente com a busca de superar todas as condições injustas que estão colocadas sobre nós. As tendências sobre como será um possível governo Lula já estão colocadas na mesa, não há um elemento de novidade que nos faça mudar essa caracterização que não vem de hoje. O PSOL, partido que construo, está aí desde o início do governo Lula, compreendendo os limites da política petista e a necessidade de sua superação.

Ainda que seja lento e difícil de construir, o novo sempre vem. Pois, como lecionou Belchior, não tenho apego ao passado, o meu compromisso é com o futuro e com uma organização comprometida com a superação do capitalismo e suas contradições.


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