Como a majoritária da UNE vem manipulando a pauta antirracista para servir aos interesses de uma direção antidemocrática
Reprodução Site da UNE

Como a majoritária da UNE vem manipulando a pauta antirracista para servir aos interesses de uma direção antidemocrática

No último domingo, a Federação Nacional dos Estudantes de Direito (FENED) publicou uma nota acusando organizações da oposição de esquerda, entre elas o Coletivo Juntos, de terem sido racistas durante o 69º Conselho Nacional de Entidades Gerais (CONEG), espaço que reúne diretórios estudantis de todo o país para debater política e decidir quais serão as […]

Letícia Chagas 17 abr 2023, 20:09

No último domingo, a Federação Nacional dos Estudantes de Direito (FENED) publicou uma nota acusando organizações da oposição de esquerda, entre elas o Coletivo Juntos, de terem sido racistas durante o 69º Conselho Nacional de Entidades Gerais (CONEG), espaço que reúne diretórios estudantis de todo o país para debater política e decidir quais serão as regras vigentes para o Congresso da União Nacional dos Estudantes, que ocorrerá em julho deste ano. 

Neste texto, busco demonstrar não apenas o quão falaciosa e oportunista é essa acusação, mas também refletir que ela demonstra o profundo descaso dos grupos majoritários da União Nacional dos Estudantes (UNE) – como a UJS, as juventudes do PT e o Levante Popular da Juventude – com a pauta racial, bem como o fato de que eles vêm se utilizando da luta antirracista, uma das mais importantes da atualidade, para se eximir das críticas a respeito da falta de democracia com que vem conduzindo a entidade. 

Tanto o CONEG quanto o CONUNE são espaços únicos e fundamentais, na medida em que são uma das poucas oportunidades em unir estudantes de todo o Brasil para debater os rumos do nosso país e a luta por um futuro digno. O CONUNE deste ano será ainda mais importante, já que é o primeiro após a pandemia e o início do governo Lula. Nós do Juntos participamos apresentando a importância de um movimento estudantil independente e combativo, considerando que apesar da vitória da eleição de Lula, este é um governo repleto de contradições.

Todavia, a atual majoritária da UNE – composta, entre outros grupos, pela UJS e por juventudes do PT – se mantém há décadas dirigindo a entidade não apenas porque representa uma maioria real, mas especialmente porque realiza uma série de fraudes e distorções antidemocráticas para garantir sua maioria, diminuindo o espaço para a participação da oposição e construindo uma UNE que, apesar de ter ganhado protagonismo nos últimos anos, ainda tem pouca presença na base das universidades.

É nesse contexto que se insere a acusação apresentada pela FENED. Um dos momentos do CONEG é quando diferentes grupos políticos podem apresentar suas resoluções sobre a conjuntura do país, o movimento estudantil e a educação. Cada um dos grupos podem apresentar suas resoluções em até 7 minutos e, após esse período, elas são votadas. Quando o grupo majoritário da UNE foi realizar a apresentação de uma de suas resoluções, fez isso em MUITOS minutos a mais do que o pré-estabelecido, como se as regras do espaço nem mesmo valessem para eles. Com isso, foram amplamente criticados pela oposição. 

A tese da majoritária foi apresentada mais 20 minutos. Os primeiros minutos de fala – que estavam dentro do tempo pré-estabelecido – foram apresentados por pessoas brancas, homens e mulheres. Uma das últimas pessoas a apresentar a resolução foi uma mulher negra, em um momento em que a oposição já criticava o desrespeito com o tempo. 

O episódio demonstra não apenas o quanto o grupo majoritário pouco se importa com as regras do espaço, fazendo do CONEG e do CONUNE o que bem entende, mas também um desrespeito desses grupos com sua militância negra. É, no mínimo, uma  irresponsabilidade submeter uma mulher negra a uma plateia que já estava tomada pelo caos dos protestos diante do desrespeito com o tempo, enquanto brancos puderam falar por minutos tranquilamente. E é oportunismo utilizar-se da pauta racial para justificar o autoritarismo com que conduzem a UNE. 

Mulheres negras vêm se levantando como importantes lideranças políticas dentro e fora do movimento estudantil. Nos últimos anos, diversas mulheres negras foram eleitas nos parlamentos brasileiros. Em 2018, me tornei a primeira presidente negra do Centro Acadêmico XI de Agosto, o primeiro CA do Brasil, em mais de 100 anos de história. Em 2021, a UNE elegeu também sua primeira presidente negra. É essencial que possamos apresentar as dificuldades que fazem da luta política um lugar ainda mais hostil para pessoas como nós. Mas é inadmissível que nossas pautas sejam manipuladas para servir aos interesses de uma direção fraudulenta e antidemocrática, e que nossos corpos sejam utilizados para que se eximam de críticas. 

Poderia aqui dizer que a UJS e as juventudes do PT desconhecem o que é o racismo e como ele se manifesta no movimento estudantil. Mas, na verdade, eles sabem muito bem. E se utilizam dele para defender seus próprios interesses. 


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