Bolsonaro pode ser preso?
EVARISTO SA / AFP

Bolsonaro pode ser preso?

Os bolsonaristas vão às ruas no dia 25, e o que nós faremos?

João Pedro de Paula 15 fev 2024, 13:00

Nas últimas semanas vimos operações policias que novamente colocaram o bolsonarismo contra a parede. E até mesmo a correr, ao supostamente terem saído pra pescar momentos antes de uma operação da PF no caso da “ABIN Paralela”, que investiga a instrumentalização do aparato estatal da inteligência a serviço da família Bolsonaro.

E nas vésperas do carnaval, uma grande operação que foi um novo marco na ofensiva institucional a extrema-direita, levando a prisão do presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Se somando a própria inelegibilidade de Bolsonaro e a CPMI do 8 de Janeiro, os fatos recentes trazem o questionamento sobre a possibilidade de prisão de Bolsonaro, já que literalmente todos ao seu redor estão sendo investigados e/ou punidos por conta de comporem uma organização golpista aos olhos do Estado.

Até o momento, apesar das investidas policiais, não temos um desenvolvimento de um processo de lutas que tenha como eixo a prisão dos golpistas. O ano começou com um novo 8 de Janeiro, pautado pelo governo, com um teor de celebrações abstratas em defesa da democracia burguesia. A palavra de ordem Sem Anistia, que ecoou na posse de Lula, vem sendo colocada debaixo do tapete desde o início do governo.

Afinal, a essência de governar do lulismo sustenta-se na lógica da conciliação de classes, como bem sintetiza o lema União e Reconstrução. A mesma lógica que possibilita a continuidade da política neoliberal, com o arcabouço fiscal como novo teto de gastos, a ausência do reajuste salarial de servidores que não compõem a elite do serviço público, a tabela do imposto de renda que faz com que alguém que ganhe mais de 5 mil reais pagar o mesmo percentual que um bilionário e sufoca os recursos de ministérios ocupados por Silvio Almeida e Sonia Guajajara. E também a própria ausência de um tom altivo pela prisão de Bolsonaro, ao ponto de Washington Quaquá, vice-presidente nacional do PT, afirmar que há excessos nas operações da PF contra a extrema-direita.

Enquanto as ruas não são ocupadas por nós, Bolsonaro arma sua resposta para o dia 25 de fevereiro, convocando ele próprio por vídeo um “ato pacífico em defesa do nosso estado democrático de direito”. A extrema-direita busca se recompor, apesar de seguir acuada ao pedir pra ninguém levar faixas golpistas ou “cartaz contra quem quer que seja”. Fazendo o caminho correto, o bolsonarismo quer fazer uma demonstração de forças, trazer em uma fotografia que não está derrotado.

Não sabemos qual será sua capacidade de mobilização, mas o que sabemos é que não podemos deixar Bolsonaro e sua turma se fortalecerem novamente. Como nos mostra as idas e vindas da extrema-direita no mundo, nos casos da Argentina com Milei, Estados Unidos com a possibilidade do retorno de Trump e até mesmo na própria Alemanha, fica a lição de que a realidade é muito mais contraditória e complexa do que parece ser. Não é uma vitória eleitoral que marcará a derrota desse setor político que é fruto do próprio capitalismo em crise, que se desenvolve a partir da latente contradição entre a ausência de uma alternativa radical à esquerda e as frustrações com a casta política tradicional, que não tem nem terá condições para resolver a crise multidimensional que vivemos.

Para superar esse estado de conforto que busca defender o lulismo, é preciso construir um polo com independência política para tanto enfrentar as medidas neoliberais do governo, que podem fortalecer nossos inimigos com as insatisfações que elas causam, como apontar a urgência da prisão de Bolsonaro, tarefas essas que se combinam para enterrar a extrema-direita em suas raízes e através de quem a representa. Para isso, temos um primeiro passo de aproveitar a opinião pública favorável as operações acontecem para retomar agendas de luta que hierarquizem que os bolsonaristas paguem pelo que devem.

Se Bolsonaro será preso, com certeza dependerá um pouco de nós. E até mesmo se isso acontecer sem qualquer mobilização popular, estaremos perdendo uma oportunidade de fortalecer uma alternativa à esquerda, com o acúmulo de consciência e organização que pode vir desse processo. De qualquer forma, os últimos fatos não podem passar sem ter a nossa resposta, nas ruas, como devem ser.


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