OS ESTADOS UNIDOS EM TENSÃO MÁXIMA
Nenhum passo atrás contra a barbárie trumpista! Que os ventos de Minneapolis soprem tempestades de lutas pelo mundo.
Em meio à escalada intervencionista imperialista dos EUA de Trump, na qual o sequestro de Maduro e a invasão da Venezuela representam um novo marco de agressão direta até então inédito em nosso continente, os rumos da luta de classe no país norte-americano se tornam especialmente importantes para o desenvolvimento da conjuntura global. Reproduzimos o texto da coluna “Estados Unidos Hoje” da FLCMF como parte do esforço internacionalista de elaboração e intervenção na atual fase da conjuntura, uma vez que os rumos do movimento de massas contra o ICE podem ter impactos fundamentais para frear a sanha imperialista de Trump.
Via Fundação Lauro Campos e Marielle Franco
Os Estados Unidos atravessam um momento de intensificação dos conflitos internos, na esteira dos acontecimentos em Minneapolis.
Entre a sexta-feira (23) e agora, enquanto uma frente fria atingia o país, houve uma sucessão de fatos políticos.
Em 23 de janeiro, foram convocadas manifestações em rechaço ao assassinato de Renee Good e ao terrorismo praticado pelo ICE em Minneapolis. O dia apresentou diferenças qualitativas em relação a outras datas de mobilização. Primeiramente, os protestos ocorreram em um dia de semana, a sexta-feira. Também se concentraram nas pautas específicas de justiça para Renee Good, saída do ICE de Minneapolis e abolição do órgão, que hoje atua como polícia política de Trump. Finalmente, o evento trouxe à tona a ideia de “greve geral” como resposta ao avanço autoritário no país.
A convocação do dia 23 de janeiro partiu de sindicatos, líderes comunitários e movimentos de Minneapolis. A palavra de ordem para mobilização era “No work, no school, no shopping” [“Sem trabalho, sem escola, sem compras”], ou seja, um amplo dia de paralisações, boicotes e protestos. Em outras palavras, uma greve geral, uma experiência que os Estados Unidos não têm desde os anos 1930.
Relatos apontam que a adesão foi massiva. Cerca de 100 mil pessoas marcharam na cidade sob um frio de -23 graus Celsius. 700 pequenos negócios não abriram as portas. Protestos se espalharam ao longo do dia por locais estratégicos de transporte e comércio, denunciando grandes corporações que colaboram financeiramente com o ICE.100 líderes religiosos foram presos enquanto praticavam desobediência civil no aeroporto da cidade.
A data se nacionalizou, com 250 protestos no país. Em Nova York, as ruas foram tomadas por mais de dez mil manifestantes, com forte presença de sindicatos e trabalhadores organizados, como professores de ensino escolar e universitário, trabalhadores do setor de serviços, logística e saúde, além da juventude.
Portanto, a greve geral de Minneapolis, com solidariedade nacional, marcou a conjuntura. Mas um novo fato político ocorreria no dia seguinte (24), logo de manhã.
Indiferentes aos protestos e à fúria social, agentes do ICE assassinaram outro ativista nas ruas de Minneapolis. Seu nome era Alex Pretti, cidadão americano de 37 anos, enfermeiro em uma unidade de atendimento a veteranos das forças armadas dos Estados Unidos. O novo assassinato seguiu roteiro semelhante ao de Renee Good. Pretti, assim como Good, era um ativista anti-ICE que agia pacificamente para defender as comunidades atingidas pela repressão e para denunciar as práticas da polícia política de Trump. O assassinato aconteceu de forma covarde. E mais uma vez, contrariando os vídeos do crime que circulavam nas redes sociais e na grande mídia, autoridades federais e Trump se apressaram para caluniar a vítima e absolver os assassinos. Outra vez, impediram acesso das autoridades locais (municipais e estaduais) às investigações.
No próprio dia 24, protestos de emergência aconteceram em Minneapolis e nacionalmente. Já no domingo (25), a maior nevasca dos últimos 10 anos atingiu 2/3 do país e dificultou a continuidade das mobilizações. Mas o escândalo gerado pelo assassinato de Pretti pautou a mídia tanto quanto o evento climático. Diferentemente do momento após o assassinato de Good, agora uma maior mobilização na superestrutura parece querer parar a barbárie, temendo que ela se torne incontrolável. Nisso, incluem-se alguns políticos republicanos, pesos-pesados democratas, como o ex-presidente Barack Obama, a mídia e alas do setor privado assustadas pela experiência da greve geral e pela expansão das campanhas de boicote.
Na justiça federal, corre uma ação para obrigar Trump a retirar o ICE da cidade, assim como, semanas atrás, o governo federal foi obrigado a retirar a Guarda Nacional de Chicago. Por outro lado, Trump não sinaliza recuo. Além de continuar caluniando as vítimas e impedindo investigações, na segunda-feira (26), ele anunciou o envio de Tom Homan, conhecido como o “czar das fronteiras”, para Minneapolis. A Casa Branca segue confrontando e determinando investigações contra o prefeito, o governador e outras autoridades locais do município.
As reações na superestrutura nada mais são do que um reflexo da força demonstrada pela sociedade a partir de baixo. O nível de organização social em Minneapolis, combinando mobilizações amplas com ações diretas nas localidades, é um exemplo para todo o país. O dia 23 de janeiro deu materialidade à ideia de “greve geral”, antes apenas uma agitação abstrata. Ao mesmo tempo, as saídas negociadas e o apelo ao bom-senso têm cada vez menos espaço na política estadunidense.
Por essas razões, mais lutas e ações serão necessárias e devem ocorrer nos próximos dias.