QUEM MANDA NO MUNDO HOJE?
Reprodução: DW.com

QUEM MANDA NO MUNDO HOJE?

Imperialismos, crise e os desafios da esquerda no século XXI

Guilherme Amorim e Pedro Chiquitti 30 jan 2026, 19:20

Vivemos em um mundo cada vez mais marcado pela crise e pela polarização. A
chamada policrise avança a passos largos, combinando dimensões econômicas, sociais, geopolíticas e ambientais. Nesse contexto, o avanço global da extrema direita e do neofascismo encontra terreno fértil, alimentado pelo esgotamento das respostas oferecidas pela política que se conformou até os dias de hoje e pela insegurança generalizada que atravessa amplos setores da sociedade.

Nesse cenário, o reformismo e o liberalismo revelam seus limites: oscilam entre uma contenção imediata e frágil do fascismo e uma orientação estratégica incapaz de enfrentar, de fato, o crescimento da extrema direita em escala global. Já a esquerda anticapitalista independente, ainda sem peso de massas, se vê diante de um desafio complexo: precisa, ao mesmo tempo, construir uma alternativa estrutural à crise capitalista e ao reformismo, e desenvolver a inteligência tática necessária para forjar unidades amplas que permitam barrar o avanço do neofascismo, que já bate às portas do poder.

A ascensão do neofascismo norte-americano aparece como uma expressão da decadência do império estadunidense. Esse processo se insere na conformação de uma nova ordem mundial, cada vez mais marcada pela disputa entre potências e pela centralidade de autocratas de plantão, que buscam reorganizar o sistema internacional a partir de seus próprios interesses e projetos de poder. Ao mesmo tempo, a competição por influência política, militar e econômica se intensifica e se articula a uma corrida pelos recursos naturais estratégicos. Esses recursos tornam-se fundamentais para sustentar uma nova etapa da corrida tecnológica, na qual está em jogo a hegemonia científica e produtiva da próxima superpotência mundial.

De forma geral, o mundo caminha para uma divisão em grandes zonas de influência, com a China e os Estados Unidos exercendo papéis centrais e de maior alcance, ao lado da projeção de potências de menor escala, mas com significativa influência regional, como a Rússia e a Índia. Essa configuração aponta para um sistema internacional cada vez mais marcado pela competição entre blocos e esferas de poder. O multilateralismo perde espaço de maneira acelerada, sendo substituído pela lógica do realismo político. As relações internacionais passam a se organizar sobretudo a partir da capacidade de intervenção militar e econômica das grandes potências sobre seus vizinhos e áreas de interesse estratégico.

As principais questões para os revolucionários do século XXI estão em como se posicionar frente a essa reconfiguração internacional. Há algum “campo progressivo” nessa disputa? China ou Rússia representam uma alternativa emancipadora frente a fascistização do liberalismo norte americano? A multipolaridade global deve ser defendida pelos revolucionários? Em suma, qual política deve ser adotada frente a esse novo cenário mundial?

O decadente imperialismo estadunidense

Principal potência global após o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos viveram cerca de 17 anos como os supostos vencedores do “fim da história”. Nesse período, atuaram como polícia do mundo, intervindo tanto em conflitos regionais, como na Bósnia, quanto em guerras fabricadas, como a invasão do Iraque, sempre sob o discurso da ordem internacional e da democracia. Esse ciclo começou a se esgotar com a crise das subprimes de 2008, que revelou os limites estruturais do capitalismo neoliberal. A dificuldade de sustentar crescimento econômico permanente levou a uma política externa mais agressiva, como no bombardeio da Líbia, combinada a uma exploração ambiental intensificada, exemplificada pela expansão do óleo de xisto.

A eleição de Donald Trump, em 2016, foi expressão desse esgotamento. Sua vitória canalizou um profundo mal-estar social por meio de um discurso nacionalista e reacionário, alimentado tanto pela perda de posição internacional dos EUA quanto pelas contradições do chamado neoliberalismo progressista, incapaz de responder aos conflitos distributivos que ajudava a aprofundar. No plano externo, Trump escalou a guerra comercial com a China, tentou desestabilizar regimes como Irã e Venezuela e promoveu um negacionismo climático que visava combater qualquer sensibilidade ambiental ou questionamento ao produtivismo capitalista.

Após a gestão desastrosa da pandemia e os protestos de massas desencadeados pelo assassinato de George Floyd, Trump foi derrotado em 2020 por Joe Biden. A invasão do Capitólio, em janeiro de 2021, evidenciou a crise institucional norte-americana. O governo Biden representou o canto do cisne do atlantismo neoliberal, tentando articular uma transição limitada ao capitalismo verde e reafirmar alianças tradicionais via OTAN, sobretudo com o apoio militar à Ucrânia após a invasão russa. Ainda assim, a retirada caótica do Afeganistão, o crescimento econômico fraco e o aumento do custo de vida aprofundaram o desgaste interno e externo dos EUA.

Esse cenário abriu caminho para a volta de Trump à presidência em 2024, mobilizando novamente um discurso anti-sistema baseado no ressentimento. Em 2025, já empossado, Trump aprofundou seu projeto autoritário e imperial, negociando com autocratas uma nova divisão de esferas de influência. Nesse rearranjo, Rússia, China e Estados Unidos buscariam consolidar seus espaços estratégicos, com a América Latina sendo reafirmada como zona de domínio norte-americana. Essa inflexão se materializou em ações agressivas, como a abdução de Nicolás Maduro, ameaças a Gustavo Petro, o tarifaço contra o Brasil e o cerco ao governo cubano, deixando claro que não haverá tolerância, no hemisfério ocidental, sequer para projetos não alinhados aos interesses dos EUA

Do ponto de vista dos revolucionários, os Estados Unidos não podem ser vistos como portadores de qualquer horizonte progressivo nesse novo cenário internacional. A crise de sua hegemonia tem sido respondida não com concessões democráticas ou redistributivas, mas com militarização, autoritarismo interno, ofensiva imperial renovada e aprofundamento de um modelo econômico predatório, fortemente ancorado nos combustíveis fósseis e na violência estatal. A fascistização do liberalismo norte-americano, visível tanto na política externa quanto na gestão dos conflitos sociais internos, indica que Washington busca administrar seu declínio ampliando a coerção sobre povos periféricos e sobre sua própria classe trabalhadora. Para os revolucionários, isso impõe uma posição de oposição frontal ao imperialismo estadunidense, sem qualquer ilusão de que suas disputas com outras potências expressem algo além de uma concorrência entre projetos de dominação.

O novíssimo império chinês

Desde a restauração capitalista conduzida por Deng Xiaoping, a partir de 1978, a China se tornou a principal beneficiária da globalização e da transferência de cadeias industriais para a Ásia. Com taxas de crescimento próximas a 10% ao ano até meados da década de 2010, o país deixou, em pouco mais de uma geração, a condição periférica e se consolidou como uma das maiores economias do mundo. Esse salto foi sustentado por uma combinação entre planejamento estatal e abertura controlada ao capital estrangeiro, por meio das Zonas Econômicas Especiais, permitindo uma rápida modernização industrial baseada em mão de obra barata e na exportação massiva de manufaturados.

A partir de 2012, com a ascensão de Xi Jinping, esse modelo entrou em uma nova fase. O fortalecimento do poder presidencial veio acompanhado da centralização interna no PCCh, com a eliminação de rivais e a imposição de uma disciplina política rígida. Esse processo coincidiu com a desaceleração do crescimento econômico e com uma ampliação da projeção externa chinesa, expressa no aumento dos investimentos militares, na postura mais assertiva em relação a Taiwan e na intensificação da presença diplomática e cultural no cenário internacional. No plano econômico, o governo passou a apostar de forma mais sistemática na transição energética e no chamado capitalismo verde, sem romper com a dependência do carvão e do petróleo.

A conquista de um terceiro mandato por Xi, em 2022, aprofundou essa orientação estratégica, sinalizando a disposição do regime em ampliar sua ambição geopolítica diante da decadência dos Estados Unidos. Para além da expansão de sua influência na América Latina e na África, a China investiu na construção de um bloco alternativo à ordem liderada pelos EUA, tendo os BRICS como eixo, e acelerou projetos como a Nova Rota da Seda, que ampliaram sua presença no Sul Global após a pandemia.

Nesse contexto, a articulação de alianças com a Rússia e a Coreia do Norte e a disputa aberta com o bloco atlântico colocam a questão de Taiwan no centro da estratégia chinesa. A incorporação da ilha é vista por Pequim tanto como parte da reunificação nacional quanto como um movimento decisivo na corrida tecnológica com os Estados Unidos, dado o papel estratégico de Taiwan na produção global de semicondutores. O controle dessa cadeia produtiva, somado ao domínio chinês sobre o refino de terras raras, poderia representar um ganho econômico e geopolítico de alcance mundial.

No caso chinês, também não há base para enxergar um campo progressivo ou uma alternativa emancipadora ao imperialismo em crise dos Estados Unidos. A ascensão da China se apoia na combinação entre capitalismo de Estado, exploração intensiva do trabalho, autoritarismo político e ambições geopolíticas próprias, expressas na disputa por zonas de influência, no cerco a Taiwan e na projeção econômica sobre o Sul Global. Embora entre em choque com a hegemonia norte-americana, esse conflito não rompe com a lógica de concorrência interestatal e de acumulação de capital, mas a reproduz sob novas formas. Para os revolucionários, isso exige uma posição independente, que rejeite tanto o alinhamento ao imperialismo estadunidense quanto qualquer ilusão de que a expansão chinesa represente, em si, um avanço para a emancipação dos trabalhadores e dos povos oprimidos.

O não-tão-novo império russo

Desde o colapso da URSS, em 1991, a Rússia passou por uma reconfiguração profunda de sua economia e de sua estrutura social. Nos anos 1990, sob o governo de Boris Yeltsin, a restauração capitalista foi conduzida de forma acelerada e subordinada às diretrizes neoliberais do Ocidente, resultando em privatizações predatórias e forte deterioração das condições de vida. Esse período foi marcado pela formação de uma oligarquia oriunda em grande medida da antiga burocracia soviética, pela perda de capacidade estatal e por conflitos armados internos, como a Guerra da Chechênia, que evidenciaram o enfraquecimento do Estado russo.

A chegada de Vladimir Putin ao poder, no início dos anos 2000, representou uma tentativa de recomposição da autoridade estatal e de recuperação da posição internacional da Rússia. A centralização do poder político, combinada a um pacto com os oligarcas, permitiu ao Estado retomar o controle estratégico sobre as rendas do petróleo e do gás, que passaram a financiar a reconstrução das capacidades militares e uma política externa mais agressiva. Ao longo dessa década, Moscou recuperou parte de seu prestígio internacional e voltou a atuar como um ator relevante, apoiando-se em um discurso de soberania nacional e de restauração do orgulho russo.

Esse reposicionamento esteve diretamente associado ao uso da força militar como instrumento de política externa. A Segunda Guerra da Chechênia consolidou a autoridade do Estado central, enquanto a guerra contra a Geórgia, em 2008, sinalizou que a Rússia não aceitaria a expansão da OTAN em seu entorno estratégico. Em paralelo, avançou o autoritarismo interno o controle dos meios de comunicação e a repressão à oposição, apresentados como condições para a estabilidade e a projeção internacional do país.

A exploração de petróleo e gás foi o principal suporte material desse processo. O controle estatal dos recursos energéticos garantiu meios financeiros para sustentar a política externa e permitiu à Rússia utilizar a energia como instrumento de pressão geopolítica, especialmente em relação à Europa. Internamente, esse ciclo esteve associado a uma melhora relativa das condições de vida nos anos 2000, com recomposição de salários e redução da pobreza extrema, em comparação com o colapso da década anterior, ainda que sobre bases econômicas frágeis e desiguais.

A invasão da Ucrânia insere-se em um projeto mais amplo de recomposição de uma esfera de influência de caráter imperial, no qual Moscou reivindica um direito histórico de intervenção sobre seu entorno imediato. O Euromaidan, em 2013 e 2014, foi interpretado pelo Kremlin como resultado da ingerência ocidental e como uma ameaça estratégica direta, levando à anexação da Crimeia e ao apoio às forças separatistas no Donbass. A ofensiva em larga escala de 2022 representou um salto qualitativo nessa política, expressando a tentativa de reverter à força o afastamento da Ucrânia da órbita russa e reafirmar a Rússia como potência capaz de impor sua vontade no espaço pós soviético.

No caso da Rússia, é central afirmar que o regime de Putin não tem qualquer continuidade emancipadora com a antiga União Soviética. Trata-se de um Estado capitalista, oligárquico e autoritário, cuja política externa busca recompor uma esfera de influência perdida após 1991, recorrendo à guerra e à coerção para afirmar interesses próprios. A oposição russa aos EUA e à OTAN não expressa um projeto anti-imperialista, mas a disputa entre potências por território, mercados e recursos. A invasão da Ucrânia, nesse sentido, não representa resistência ao imperialismo, mas a tentativa de restaurar uma forma de imperialismo grão-russo. Para os revolucionários, isso impõe uma posição independente, que rejeite tanto o atlantismo liberal quanto qualquer apoio político ao putinismo, afirmando a solidariedade internacionalista aos povos explorados e oprimidos, inclusive dentro da própria Rússia.

Os assim chamados “países independentes”

Desde a década de 1990, alguns países passaram a ser apresentados como alternativas à ordem proclamada após o fim da União Soviética. A Venezuela ocupou lugar central nesse processo com a ascensão de Hugo Chávez e a chamada Revolução Bolivariana. O chavismo e a noção de um “socialismo do século XXI” ganharam projeção internacional, apoiados no discurso anti imperialista, nas missões sociais e na tentativa de articular uma integração latino-americana por meio da ALBA, buscando maior soberania regional frente aos Estados Unidos

Esse processo, porém, encontrou limites importantes. O isolamento internacional, agravado pelo bloqueio econômico liderado pelos EUA e pelo fracasso de projetos progressistas na região, combinou-se a problemas internos. O caudilhismo e o bloqueio à auto-organização popular favoreceram a burocratização do Estado e o surgimento de grupos ligados ao aparato governamental que passaram a se apropriar das rendas do petróleo. Essa degeneração antecedeu as sanções de 2014, mas se aprofundou após elas, resultando em colapso econômico, perda de legitimidade política e crescente autoritarismo, que alcançou novo patamar com as eleições de 2024, marcadas por indícios consistentes de fraude.

Nesse contexto, os Estados Unidos, sob Donald Trump, avançaram para uma intervenção aberta, expressa no sequestro de Nicolás Maduro e de Cilia Flores. A operação explicitou o objetivo de subordinar diretamente o petróleo venezuelano aos interesses do capital internacional, legitimada por um discurso racista, xenófobo e colonial. Longe de representar qualquer saída para os trabalhadores venezuelanos, essa intervenção tende a aprofundar a pilhagem dos recursos naturais, o autoritarismo político e a crise social e ecológica no país.

O imperialismo fóssil

Não custa lembrar, rapidamente, o imperativo auto-expansivo da dinâmica de acumulação do capitalismo. Combinando o impulso por produtividade, intensidade da extração de trabalho e eficiência no uso de recursos, o capital impõe uma lógica predatória à relação entre sociedade e natureza que combina a generalização da exploração do trabalho, a tomada de meios de vida de populações não imediatamente inseridas na dinâmica do sistema capitalista e a transformação de múltiplas naturezas em recursos que são apropriados e destruídos.

Esse imperativo exige uma permanente busca por novas populações a serem exploradas e também para serem vítimas do consumo capitalista; por novas naturezas que podem ser pilhadas através do extrativismo ou transformadas em meios de produção para tornar os custos reprodutivos da classe trabalhadora mais baratos. Foi ele que determinou e condicionou múltiplos processos históricos ao longo da história, ao menos desde os processos colonizadores na América, demonstrando como os fenômenos coloniais ou imperiais não podem ser entendidos sem levar em conta a centralidade da ecologia. Nesse sentido, a orientação do imperialismo que vivenciamos na atualidade para a apropriação de recursos naturais não é algo novo, pelo contrário, esse ímpeto é de longa duração nas sociedades dominadas pelo capital.

No entanto, é inegável que esse elemento basilar dos processos coloniais e imperiais passa por mudanças de qualidade em uma conjuntura em que 1) a eco-crise global se concretiza através de colapsos ecológicos cada vez mais abrangentes e frequentes; 2) diferentes impérios, com desenvolvimentos tecnológicos sem precedentes, começam a se chocar na disputa por recursos naturais; 3) os combustíveis fósseis se firmam como necessidade imperativa no processo permanente de auto-expansão como fontes de energia concentrada. Essas mudanças podem ser visualizadas no avanço de Trump na Venezuela e na Groenlândia; na previsível e lógica falência de iniciativas multilaterais submetidas pela lógica do capitalismo que tentam lidar de alguma forma com os desastres ambientais; na nova tentativa de loteamento do globo pautado nos minérios necessários para reproduzir inovações tecnológicas.

Uma aposta nas lutas internacionalistas

A ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos não acontece sem romper contradições expressivas. Em 18 de outubro de 2025, aconteceu o No Kings Day, o maior dia isolado de manifestações na história dos Estados Unidos, levando setores das classes mais pauperizadas e também de classes médias influenciadas pelo Partido Democrata às ruas. Nas eleições de 4 de novembro, Zohran Mamdani, membro do Democratic Socialists of America e imigrante de origem muçulmana, foi eleito prefeito da cidade de Nova York, cidade onde Donald Trump ascendeu com especulação imobiliária nas últimas décadas do século XX, a partir de uma campanha crítica ao bipartidarismo e com um programa radicalizado. Em Seattle, uma das mais importantes cidades da Costa, Katie Wilson foi eleita prefeita, ela também membro do DSA.

Em Minneapolis, cidade em que George Floyd foi assassinado e que viu irromper protestos multitudinários contra o racismo, o candidato do DSA, Omar Fateh, um jovem negro de 35 anos de origem somali e muçulmana, alcançou surpreendentes 44% dos votos, ficando em segundo lugar na disputa. Mais recentemente, no dia 7 de janeiro deste novo ano, na mesma Minneapolis, Renee Good, uma cidadã americana de 37 anos e mãe de três filhos, foi assassinada pelo ICE, o órgão do governo federal dos Estados Unidos responsável pelo controle de imigração e que assume o papel de reprimir e deportar imigrantes. Esse evento gerou revolta e indignação, expressas nas mais de mil manifestações espalhadas por todos os estados do país, e culminou em uma greve geral contra o ICE em Minneapolis, algo sem precedentes na história recente dos Estados Unidos.

É claro que para nós, marxistas, a disputa eleitoral não é o terreno onde resolveremos as contradições do sistema político-econômico que vivemos; além disso, pesquisas eleitorais sempre retratam um recorte da realidade, que é muito mais complexa que enquetes hipotéticas. No entanto, ao serem levadas em conta junto aos resultados eleitorais surpreendentes do DSA em 2025, elas podem apontar para algo – ao menos, retratam a abertura de determinados setores da sociedade para ideias alternativas e radicais, de questionamento do bipartidarismo e de aposta em saídas antissistêmicas à esquerda para a crise. Se acrescentarmos as manifestações ocorridas em oposição a Trump nesse cenário, podemos vislumbrar uma oportunidade para uma vanguarda conectada com ideias socialistas intervir em um movimento de massas ainda limitado, mas que demonstra a vitalidade das lutas sociais.

Na Bolívia, o presidente Rodrigo Paz tentou impor o Decreto Supremo 5503, um
pacote de medidas neoliberais que desmontava subsídios aos combustíveis e facilitava a exploração privada dos recursos naturais do país. Essas medidas causaram o aumento de 86% no preço da gasolina e concentravam no poder executivo as decisões sobre empreendimentos estratégicos ligados à mineração, ao gás e ao petróleo, setores centrais na economia boliviana. A resposta popular foi imediata: a Central Operária Boliviana, uma das principais centrais sindicais da América Latina, convocou duas greves gerais em dezembro que tiveram rápida adesão, com manifestações de massas nas ruas e com o fortalecimento dessa luta a partir de organizações camponesas e indígenas. O presidente boliviano precisou voltar atrás e suspender o decreto, demonstrando a capacidade da classe trabalhadora boliviana de se mobilizar e dar respostas ao projeto neoliberal mesmo com a crise no seio do principal partido de esquerda do país, o Movimento ao Socialismo (MAS), que foi derrotado por larga vantagem pelos candidatos da direita nas eleições de agosto de 2025.

As chamadas “revoltas da geração Z”, que estouraram ao longo de 2025 em diferentes países, expressaram a indignação e a rebeldia da juventude. No Nepal, um caso exemplar, os jovens instauraram uma revolta generalizada após a proibição do uso de redes sociais por parte do governo; no entanto, essa medida foi apenas uma faísca necessária para se iniciar um incêndio nas ruas com pautas ligadas à crítica ao sistema político, aos abusos de poder e nepotismo, à falta de direitos sociais e ao desemprego. Essas grandes manifestações demonstram a indignação de uma juventude com seus sistemas políticos e condições de vida. Suas pautas ainda se expressam de forma difusa e muitas vezes confusa, mas revelam aberturas de oportunidades para canalizar a rebeldia da juventude em um programa político de questionamento do sistema.

As múltiplas lutas ao redor do mundo evidenciam a existência de espaços e possibilidades para a apresentação de uma alternativa que seja radical, anti sistema e anticapitalista. Elas demonstram também a relevância de se apostar em uma perspectiva internacionalista que permite forjarmos novas imaginações políticas e novos horizontes de expectativa, mas que também nos orienta a pensar o capitalismo como um sistema que é inerentemente global e que se desenvolve desigual e combinadamente através dos Estados nacionais, mas também apesar deles.

Outro elemento que demonstra a vitalidade do internacionalismo é a eco-crise global em que estamos inseridos. A crise ecológica global reforça a necessidade do internacionalismo, e a luta anti-imperialista exige a ecologização das nossas lutas. Por um lado, a dinâmica forçosamente global da crise ecológica se expressa por dois fatores: 1) os seres humanos de todo o globo partilham de uma só atmosfera, de um só planeta – isso não quer dizer que os colapsos ambientais afetam todos de maneiras iguais ou democráticas, mas que uma ação de um governo ou de uma grande empresa, como a autorização da perfuração de novos poços de petróleo ou a flexibilização de leis ambientais, pode ter consequências a nível global, afetando populações de localidades diversas e distantes; 2) como o marxismo nos ensina, não existe capital imobilizado – um capital liberado de um determinado ponto do sistema, por exemplo através de uma restrição ambiental ou de uma vitória de uma luta ambientalista em uma localidade, necessariamente busca achar algum outro ponto para se localizar e se auto-expandir, ou seja, mesmo que lutas ambientais avancem em determinada localidade ao ponto de restringir práticas anti ecológicas de certas empresas, o capital envolvido antes mobilizado nessas atividades vão ser transferidos para outras atividades econômicas predatórias que causarão efeitos, como colocamos antes, necessariamente globais.

Por outro lado, o imperialismo, como colocamos anteriormente, tem como um dos seus pilares a apropriação de naturezas para alimentar a acumulação capitalista. Um exemplo disso é o golpe na Venezuela articulado por Trump para entregar seu petróleo para as grandes corporações petroquímicas ligadas aos capitais estadunidenses; outro, menos óbvio mas tão importante quanto, é o largo aumento da fronteiras do agronegócio rumo à Amazônia, ao Cerrado e ao Pantanal no Brasil com capitais chineses para alavancar a produção de soja e de carne que eventualmente são comercializadas a partir de trocas desiguais com a própria China. Tudo isso se conecta com a ascensão de ideias neofascistas (como aquelas mobilizadas por Trump) ou de outras formas de autoritarismo (que tem a China como expressão) que passam a ser articuladas na formação impositiva de zonas de influência que são também zonas de extração de recursos naturais.

A existência das disputas interimperialistas e multipolares para expansão da capacidade de extração de trabalho e de recursos naturais através de formas de se gerir o sistema cada vez mais autoritárias demonstram a necessidade de reforçarmos o método marxista de se analisar a realidade e orientar nossas lutas. Quando nos deparamos com toda a complexidade da conjuntura internacional, não podemos ter como ponto de partida a disputa entre Estados nacionais como algo abstrato, como se existissem campos políticos no globo autônomos. Nós, enquanto revolucionários, precisamos partir da lutas de classes e de uma análise que busca os fundamentos econômicos das disputas entre Estados que só se sustentam a partir da exploração e expropriação da classe trabalhadora global. Se partirmos dessa forma de compreender a realidade, as interpretações vulgares que celebram os “regimes políticos alternativos” aos Estados Unidos, como os regimes do Irã, China, Rússia e Venezuela, caem por terra, até porque a realidade demonstra que esses regimes alternativos não superaram as contradições entre explorados e exploradores, entre sociedade e natureza, não à toa as classes trabalhadores de seus territórios demonstram disposição de luta e questionamento. Em alguns casos, esses regimes aprofundaram essas contradições e passaram a sustentar isso com a conformação de novos imperialismos, como colocado acima, ou pela adesão a formas autoritárias de Estado que afetam o conjunto da classe trabalhadora, mas em especial certos setores como populações racializadas, meninas e mulheres e pessoas LGBTQIAPN+. A esquerda, nesse sentido, não pode cair em uma “política campista”, que separa os Estados nacionais entre “ruins” (os Estados Unidos e seus aliados) e “bons” (aqueles que estão contra os Estados Unidos); países como a China e a Rússia reivindicarem alguma autonomia dos EUA não significa que são menos capitalistas, menos imperialistas, menos autoritários ou que são devem ser uma alternativa para a classe trabalhadora global – até porque esses países não se pretendem ser uma alternativa, suas posições a nível internacional não são reflexo de um “anti imperialismo”, mas sim de interesses privados de suas burocracias estatais e de setores da burguesia internacional.

Para concluir, diante da complexidade do cenário em que estamos inseridos, a esquerda independente e socialista que se pretende enfrentar os sistemas políticos, os imperialismos, os autoritarismos e o sistema capitalista como um todo precisa se colocar em marcha para construir uma alternativa que dialogue com a revolta com os sistemas políticos, sejam lá quais eles forem dentro do sistema capitalista; que aposte nas lutas internacionalistas da classe trabalhadora, sem ilusões com qualquer tipo de “regime alternativo”; que encare a luta ecológica como uma luta total, levando em conta como o elemento ecológico é central, estrutural e estruturante, das disputas interimperiais e das formas de exploração dentro e fora das fronteiras nacionais.


Imagem O Futuro se Conquista

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