Conferência Antifascista: a juventude tem seu papel
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Conferência Antifascista: a juventude tem seu papel

Reflexões sobre a atuação antifascista e ecossocialista depois de Porto Alegre

João Pedro de Paula 30 mar 2026, 12:16

Nós últimos dias, fomos parte da I Conferência Internacional pela Soberania dos Povos que ocorreu em Porto Alegre. O espaço tentou retomar a tradição dos Fóruns Sociais Mundiais (FSM) que apontavam que outro mundo era possível. A organização dos FSM se dava logo após a derrocada das experiências do socialismo real, dirigidas pelo stalinismo, quando setores da burguesia afirmavam o “fim da história” com a “vitória” do capitalismo. Agora, o momento é outro.

Se antes nosso desafio era tentar disputar que a história continua, e em disputa, agora é combater o fascismo enquanto uma corrente política que retomou peso social diante da crise do capitalismo e das esquerdas. O PSOL e o próprio Juntos surgiram como uma forma de organizar aqueles que estavam insatisfeitos com a condição do mundo e de uma esquerda que se acostumava à ordem burguesa. Sabíamos que a crise poderia levar a outro cenário, que abriria uma situação de instabilidade política. As mobilizações que eclodiram pelo mundo com a Primavera Árabe, chegando ao Brasil em Junho de 2013, provaram essa tese. A dominação da fração hegemônica da burguesia passou a depender menos do consenso, fortalecendo a violência como instrumento prioritário na luta de classes.

Acontece que a fragilidade da esquerda radical, campo no qual nos identificamos e que ainda tem pouca expressão social para altura dos nossos desafios, e da velha esquerda com sua adaptação aos regimes, deixou a insatisfação ser acumulada por um setor da direita que se radicalizava. No Brasil, nomeamos esse setor como bolsonarismo, mas que possui diversas frações internas. De um ponto de vista histórico, foi o fascismo retomando um peso social pela insatisfação popular com uma expectativa de melhoria de vida que não se realizou.

O mundo virou às avessas. O que parecia sólido se desmanchou. A Conferência surge como uma forma de retomar o internacionalismo. Os últimos anos facilitaram essa retomada, mas não por um bom motivo. Foram nas resistências ao imperialismo que bandeiras como a da Palestina se levantaram em lutas globais. Se Trump simbolizou o imperialismo que precisa de guerras para continuar a reprodução do capital, o povo palestino inspirou sua antítese.

Em Porto Alegre, a principal tarefa estava na construção de uma frente única antifascista e anti-imperialista como forma de construir uma unidade em pontos comuns para avançar na defesa da classe da trabalhadora sob ataque. O espaço reuniu milhares de militantes e arivistas de todo o canto do globo. Para a maioria, este foi o primeiro espaço desta perspectiva de suas vidas. Mesmo pequeno para o tamanho dos desafios, abriu-se uma oportunidade para desenvolvê-lo em formas superiores.

As insuficiências: da unidade à alternativa

Para nós que somos trotskistas, sabemos que a derrota do fascismo é uma tarefa central, a tarefa das nossas vidas. Mas ela não se realiza sem sua outra parte: a construção de uma alternativa para responder à crise. O enterro da extrema-direita depende que seu espaço social seja reduzido. Para isso, é preciso construir um programa para disputar aqueles que estão insatisfeitos com a vida, em suas múltiplas expressões. Hoje, estes são levados em maioria ao fascismo, senão pela letargia de “fazer o seu corre”, buscar uma solução própria para a vida em um tom individualista. Acreditamos que essa situação pode ser revertida, tanto pelo combate direto às ideias fascistas, como pelo incentivo a um caminho coletivo para aqueles que sequer tem esperanças.

A Conferência foi um salto importante para contribuir com o sentido da urgência de nossa tarefa. Mas ela e suas edições futuras dependem do fortalecimento de uma organização ou mesmo um polo que busque defender uma esquerda que não tenha medo de dizer o seu nome, que nomeie o fascismo mas também uma revolução como seu contraponto.

Inclusive, acreditamos que as novas edições precisam estar mais conectadas com a juventude, que é um dos setores mais dinâmicos das lutas das últimas décadas. Além de ser o local de onde partem lutas que apenas uma nova geração tem condições de dar centralidade a elas. É a partir da juventude que a esquerda também pode mudar a sua “cara”, sendo mais conectada com os fenômenos de um novo tempo, mais feminista, enegrecido e trans.

15 anos da juventude indignada

O Juntos!, que foi “parido” por lutas internacionais, foi a principal juventude em Porto Alegre. Lamentamos que as demais organizações, tanto do nosso campo como especialmente da velha esquerda, que assina a convocação da Conferência e teve representações em todos os painéis, não tenham buscado construir o espaço da mesma forma. Ainda que com todas as dificuldades de se deslocar pelo país, com a precarização da vida, conseguimos reunir mais de 200 jovens na capital mais ao sul do Brasil.

Em meio a Conferência, construimos com outras juventudes ecossocialistas do mundo um espaço de encontro. Nossa militância saiu fortalecida ao entender que há muitos outros como nós ao redor do mundo. Mesmo que não tenhamos acordo em todas as táticas, há um acordo na estratégia: o ecossocialismo como projeto revolucionário. E é isso que estamos mais interessados, nos caminhos em comuns que podem retomar pontes necessárias para responder aos ataques coordenados por “Internacional Fascista”, que tem nos EUA sua capital do Trump. Mas para além da solidariedade, pelo fortalecimento de uma organização internacional que seja um verdadeiro fórum de encontro para os revolucionários, como é a IV Internacional.

No dia 15 de julho deste ano, completaremos 15 anos da juventude que levou em suas camisas motes como “por um outro futuro”, “antifascista e anticapitalista” e agora, “por uma revolução ecossocialista”. E para fortalecer a nossa organização, lançamos uma campanha de construção afirmando a necessidade de “organizar sua indignação”.

De Porto Alegre, saímos e também ficamos, para o caso da regional que nos sediou e recebeu com muito esforço, com a tarefa de expandir nossa organização. O ecossocialismo sai compreendido como uma ideia, mas cujo principal desafio é ir além da ideia e se transformar em ação. Queremos fortalecer nossos núcleos, captar militantes, retomar a centralidade do Jornal Juntos – nosso instrumento de propaganda e captação, e se enraizar nos espaços em que atuamos, erguendo fortalezas através das entidades estudantis que sejam propulsoras da nossa política.

É um choque de construção que queremos. Se uma vez Nahuel Moreno fortaleceu uma tradição trotskista na Argentina com a ideia de tirar o marxismo das discussões que aconteciam com intelectuais em cafés de Buenos Aires, levando ele às fábricas, na época em que o movimento operário pulsava forte. Agora, queremos fazer do ecossocialismo uma alternativa concreta. Nosso projeto não se realizará apenas pela agitação do “ecossocialismo”, que precisa existir. Afirmar que se o planeta tá no abismo, a solução é o ecossocialismo é apenas parte. Nomear é certo, mas se combinado com a construção de uma compreensão a partir da disputa da ruas de que só o imediato não basta, ainda que seja essencial. É retomar o Programa de Transição que fundou a IV Internacional, mas balizado pela urgência do colapso climático e da ascensão do fascismo no mundo. Para que as lutas que construimos tenham a capacidade de caminhar para uma síntese pela revolução, é preciso ter militantes que tenham condições de disputá-las. Fortalecer o Juntos! nesse campanha de 15 anos é contribuir para uma tarefa urgente. Onde combinaremos a urgência que nos move para mudar o mundo com a paciência de que para essa mudança acontecer, é preciso que sejam formados militantes que venham a ser captados e organizados pelas lutas. E depois, sejam aqueles que as impulsionem, incentivem, em um patamar superior. Daqui, faremos um chamado, com exagero, a juventude organizar sua indignação. Não vamos deixar que apenas os redpills disputem as mentes e corações dos jovens. Contra o fascismo, o Juntos! completará 15 anos com a energia que pulsou e seguirá pulsando nos jovens que fazem a nossa história, que certamente ajudou, ao menos um pouco, nas lutas que vivemos nos últimos anos. De junho de 2013, à primavera feminista, secundarista, ao Tsunami da Educação, o levante antirracista, ao Fora Bolsonaro, à ocupação da COP-30 e às lutas de amanhã: houve e haverá uma bandeira amarela balançando.


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