É preciso conhecer o inimigo. Afinal, o que é o imperialismo?
Para entender o nosso tempo histórico, entender o funcionamento do imperialismo é fundamental. Para derrotá-lo, precisamos puxar o freio de emergência e construir o ecossocialismo!
As últimas invasões e interferências norte-americanas em diversos países do globo, colocaram novamente o debate sobre “imperialismo” na pauta do dia-a-dia. Não mais como algo distante ou do passado, mas uma ameaça mais atual do que nunca. Qual condição histórica fez com que fosse possível um único país/presidente sequestrar e assassinar o líder de outros países, se portando como dono do mundo? Quem define e por que define o papel de cada país na economia mundial? Quem define qual povo merece viver e qual merece morrer? De onde surgiu e o que há por trás dessa disputa imperialista? Diante das tantas incertezas em que vive nossa geração, é necessário voltar ao começo, retomar conceitos, nos localizar na história.
A condição fundante do capitalismo, e especialmente, o que deu condições para sua expansão mundial foi o que Marx chamou de “acumulação primitiva”, que por sua vez está intimamente ligada com o que foi o colonialismo clássico. A relação de espoliação, seja de mão-de-obra escravizada ou de recursos naturais, construiu durante séculos um sistema colonial entre Europa-África-América, que permitiu o surgimento do capitalismo moderno. A separação violenta entre os produtores e seu meio de vida é de onde nasce o capital, ou seja, da expropriação das terras, das “conquistas” dos territórios coloniais, do genocídio e da escravização, elementos decisivos para que as sociedades monopolistas acelerassem o desenvolvimento das sociedades industriais. Não é à toa que, em um conhecido trecho d’As veias abertas da América Latina, Eduardo Galeano diz:
“Se toda prata retirada de Potosí fosse empilhada, daria para construir uma ponte até a Europa – e com os ossos dos indígenas e africanos mortos na exploração, daria para fazer outra ponte de volta”
É justamente a partir de pontes, ferrovias, máquinas e, sobretudo, da exploração do trabalho que a revolução industrial se instaura trazendo a “esperança no desenvolvimento”. Contudo, para além de sua condição fundante que permitiu a acumulação primitiva para a expansão do capitalismo, o imperialismo, mesmo com as inúmeras transformações políticas dos Estados, se tornou condicionante para a sobrevivência desse sistema. Em primeiro lugar, para a conquista de novos territórios não capitalistas. Mas também, além da relação direta desenvolvida pela partilha do espaço mundial, a partir da dominação dos recursos e da distribuição das matérias-primas. E, posteriormente, por meio das dívidas e da pilhagem financeira.
Em Imperialismo, fase superior do capitalismo (1917), Lênin identifica cinco características fundamentais do imperialismo, momento mais recente do capitalismo, no qual ainda vivemos:
- Concentração da produção em monopólios;
- Fusão do capital bancário com o capital industrial, surgindo o capital financeiro, onde os bancos tornam-se o centro da economia e influenciam diretamente Estados, governos e guerras;
- Predomínio da exportação de capitais em busca de mão de obra barata e recursos abundantes para elevação da taxa de lucro;
- Formação de associações monopolistas internacionais para repartir mercados, matérias-primas e zonas de influência;
- Partilha territorial do mundo entre as grandes potências.
Por que é importante observar essas características e como a partir delas podemos tirar conclusões sobre o mundo que vivemos hoje? Além de fazer paralelos para identificar a permanência dessas características na atualidade, é necessário resgatar a polêmica também trazida por Lênin em Imperialismo, fase superior do capitalismo (1917) com Kautsky e os reformistas, que romantizam a possibilidade de existência de um “imperialismo do bem”, que pudesse aumentar a oferta de matérias-primas sem uma política colonial, e que a melhoria dessas condições pudesse guiar o “desenvolvimento dos países mais atrasados”. Para Lênin, essa visão não passa de uma apologia do imperialismo, pois sua tendência nessa fase não é o livre mercado, mas justamente o monopólio. O capital financeiro é utilizado como instrumento direto de acumulação, com a tendência inevitável de ampliação do seu território econômico. E é então que a guerra se torna parte da disputa inter-imperialista pela partilha do mundo. A disjuntiva “socialismo ou barbárie” apresentada por Rosa Luxemburgo, também se referindo ao imperialismo, não é nem nunca foi um exagero. Essa é a fase parasitária, decadente e cada vez mais destrutiva do capitalismo.
Não é por acaso, portanto, que estejamos vivendo um momento de ascensão das guerras, onde os Estados passam a investir cada vez mais em armamentos. Que estejamos assistindo não apenas a disputas geopolíticas por influência imperialista, mas sobretudo à corrida pelo domínio dos recursos naturais, seja por petróleo, urânio ou terras raras. É ainda mais nítido também a influência política e econômica dos bancos e do capital financeiro, de onde explode a crise mais aguda que estamos vivendo desde 2008. Mas há uma contradição que se agudiza. A crise ambiental nos demonstra que as próprias forças produtivas do capitalismo se tornaram destrutivas. A finitude dos recursos naturais nos põe em risco de sobrevivência no planeta. Sua espoliação e extração altera o metabolismo da natureza e tem levado a grandes desastres ambientais e previsões do futuro próximo cada vez piores.
Diante da complexidade dessa crise e da força do imperialismo, impulsionado pela organização mundial da extrema-direita, qual saída podemos ter? Quando trazemos aqui conceitos e caracterizações históricas, são justamente para que tenhamos ferramentas para essa reflexão. Com a ascensão do imperialismo norte-americano liderado por Trump, muitas pessoas acabam por chegar à conclusão de que seria melhor sermos liderados por um imperialismo chinês, pois a China seria então um capitalismo mais “humanizado e coletivo”, menos violento e agressivo. Mas como bem nos demonstrou Lênin, o imperialismo não é puramente uma posição política, mas uma etapa e característica econômica e histórica necessária para a manutenção desse sistema em crise. Ainda assim, poderíamos também criticar o posicionamento político da China de total ausência de liderança e enfrentamento aos EUA em relação às agressões à Venezuela, ao Irã e de Israel à Palestina. O que nos importa observar aqui, é que para sermos consequentes na luta anti-imperialista, é necessário combater na raiz o sistema capitalista e seu modo de produção e dominação, apontando não somente para a necessidade de redistribuição, mas de reconstrução das bases que estruturam a reprodução da sociedade.
É o que exige o nosso tempo. Se o freio de emergência não for puxado, o imperialismo e o capitalismo nos levarão a conviver com muitos “fins do mundo” daqui para frente. Devemos caminhar na corda-bamba sem que signifique ausência de firmeza: saber quando fazer a mais ampla unidade, sobretudo para defender a soberania dos povos, mas também saber construir um polo crítico e anticapitalista na sociedade, que compreenda que utopia não é falar de ecossocialismo e libertação dos povos. Utopia hoje é achar que poderemos, dentro desse sistema, enfrentar a ameaça imperialista e construir um mundo onde caibam todas as vidas.