Onde estão os motivos para trabalharmos seis dias por semana?
Crédito: Foto: Sindifes

Onde estão os motivos para trabalharmos seis dias por semana?

Enquanto há razões de sobra para abandonarmos a escala 6×1, o velho argumento de que isso iria “quebrar a economia” não se sustenta.

Yuriy Budzynski 15 mar 2026, 15:41

Cerca de 45% dos trabalhadores celetistas trabalham na chamada escala 6×11, em que atuam seis dias na semana (muitas vezes sendo 7 horas e 20 minutos por dia) e descansam em apenas um, isso sem considerar horas extras. Se formos considerar os que trabalham mais de 40 horas, esse número sobe para 61%2.

Considerando o tempo de deslocamento, muitos trabalhadores não conseguem ter tempo nem para tarefas domésticas e pendências do dia a dia, muito menos para o lazer e tempo em família, ou para simplesmente viver.

Entretanto, nos últimos anos, vem ganhando força no Brasil a discussão sobre o fim da escala 6×1 a partir da criação e crescimento do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que surgiu depois que Rick Azevedo, então balconista de farmácia, publicou um vídeo nas redes sociais criticando a escala 6×1 e conseguiu ser eleito vereador no Rio de Janeiro pelo PSOL em 2024. Dentro desta articulação, a deputada federal Erika Hilton protocolou a PEC 8/2025, que propõe mudança na jornada de trabalho para um modelo 4×3 de 36 horas semanais, acabando com a escala 6×1, mas mantendo o salário, o que gerou uma grande movimentação na base da esquerda e de setores sindicais para a aprovação desta PEC. A opressão vivida sob essa escala ajudou a alavancar essa pauta em pouco mais de dois anos, havendo uma grande possibilidade do texto desta PEC ser aprovado até ano que vem.

Do ponto de vista social, os benefícios intrínsecos ao fim da escala 6×1 para a qualidade de vida do trabalhador, sua saúde física e mental e a retomada de um tempo para organizar sua vida são evidentes. Por isso, quem se opõe ao fim da escala 6×1 geralmente precisa recorrer a um argumento de natureza econômica. Argumentos como o de que mesmo uma jornada de 40h semanais (em uma escala 5×2), ou a ampla implementação desta jornada, causaria um desequilíbrio na economia e um aumento de custos para as empresas (especialmente as pequenas e médias) em tal grau que elas não conseguiriam absorver a mudança, com o resultado sendo um aumento significativo no desemprego e milhares de empresas quebradas. Certamente devemos considerar os impactos econômicos de qualquer política ou medida legislativa, mas muitas vezes esse argumento é usado como se fosse um dado óbvio e comprovado de que o fim da escala 6×1 provavelmente traria consequências sérias ou mesmo catastróficas para o Brasil. Por isso, é importante trazer para a discussão alguns contra-argumentos importantes que não vão aparecer na grande mídia e no discurso hegemônico.

Primeiramente, para além da redução poder se tornar um atrativo para empregos formais e aquecer a economia3, podemos voltar à história das lutas trabalhistas. Desde o século XIX o movimento operário luta pela redução da jornada de trabalho no mundo inteiro, e no Brasil isto se soma ao movimento abolicionista. Historicamente, cada conquista trabalhista foi apontada pela mídia (inclusive na abolição da escravatura) como sendo algo que iria ter consequências desastrosas para a economia (como aparecem nas imagens abaixo que circulam bastante pelas redes sociais), o que não se concretizou em nenhum dos casos.

Fonte: https://pensarpiaui.com/noticias/acabou-a-escravidao-criou-se-o-13o-salario-mercado-reage-mal/18215

Em relação a essa redução específica, o que temos de exemplos fora do Brasil? Não apenas países ricos como França4, Alemanha5, Japão6, Canadá7 e Itália8 têm como limite de jornada de trabalho (fora casos excepcionais) 40 horas semanais ou a escala 5×2, mas também alguns países em desenvolvimento como Equador9, Argélia10 e Senegal11, assim como China12 (desde 199513) e Rússia14. Destes países, Equador15 e Senegal16 têm um percentual de informalidade e de emprego no meio rural significativamente maior que o do Brasil, o que aumenta o número médio de horas trabalhadas.

Se o argumento de que um país precisa ser rico para que seus trabalhadores tenham pelo menos dois dias de descanso não cola, ainda sobra o argumento de que é a implementação deste que seria a raiz do problema. Mas também temos precursores e exemplos entre nossos vizinhos para a implementação gradual da redução da jornada de trabalho.

No Chile17, uma lei aprovada em 2023 iniciou um processo de redução gradual da jornada semanal de 45 para 40 horas, que está sendo implementado ao longo de alguns anos. Já na Colômbia18, uma legislação aprovada em 2021 também estabeleceu uma redução progressiva da jornada semanal, passando de 48 para 42 horas. Essas mudanças já estão em curso e até agora não há qualquer evidência de que elas estejam “quebrando” as economias desses países ou provocando uma explosão do desemprego.

Também vale citar aqui os vários experimentos com jornadas de trabalho menores. Nos últimos anos, vários testes com semana de trabalho de quatro dias ou cerca de 36 horas semanais foram realizados em larga escala por empresas e municípios no Reino Unido, na Espanha e em outros países19.

Esses experimentos apontam para um aumento da produtividade com a redução da jornada. Além disso, há exemplos consolidados há décadas; a França, por exemplo, tem uma jornada padrão de 35 horas semanais desde o final dos anos 1990.

Por fim, mas não menos importante, uma nota técnica feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) conclui que o custo da redução da jornada para 40 horas seria, em termos agregados, similar ao efeito de reajustes históricos do salário-mínimo, com impacto inferior a 1% em setores como indústria e comércio; com certos segmentos, como vigilância, limpeza e pequenas empresas precisando de medidas de apoio específicas para não sofrerem impacto negativo significativo20.

Diante de tudo isso (e esses foram somente alguns pontos que poderiam ser levantados a favor do fim da escala 6×1), o debate sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil não deveria partir da ideia de que estamos propondo algo impossível ou uma utopia já refutada. Obviamente essa transição precisa ser feita de forma adequada. Entretanto, frente à resistência do capital e de seus representantes que ocupam a maioria do Congresso, é dever de todos nós lutarmos pela aprovação da PEC 8/2025, compartilharmos as informações e desmentir as concepções infundadas sobre esse tema. Que façamos a resistência que as gerações anteriores fizeram, para irmos além.

  1. OTTONI, Bruno. “Quem são, e onde estão, os trabalhadores da escala 6×1?”. Conjuntura Econômica (FGV IBRE), jan. 2025. Disponível em: https://ibre.fgv.br/sites/ibre.fgv.br/files/arquivos/u65/01ce2025_bruno_ottoni.pdf ↩︎
  2. https://apublica.org/2025/12/fim-da-escala-6×1-o-que-muda-e-quem-ganha-se-pec-for-aprovada/#:~:text=Microdados%20da%20RAIS%20de%202022,da%20RAIS%20e%20do%20IBGE ↩︎
  3. TEIXEIRA, Marilane et al. O Brasil está pronto para trabalhar menos: A PEC da redução da jornada e o fim da escala 6×1. Nota Técnica nº 13, Transforma/Unicamp, abr. 2025. Disponível em: https://transformaeconomia.org/wp-content/uploads/2025/04/NT13-PT.pdf ↩︎
  4. https://www.legifrance.gouv.fr/jorf/id/JORFTEXT000000558109/ ↩︎
  5. Em teoria são 48h, mas na prática poucos trabalham mais de 40h semanais: https://www.arbeitsagentur.de/datei/important-information-about-starting-englisch_ba035685.pdf&ved=2ahUKEwjK55rJwpqPAxUCE7kGHQe2Mw44ChAWegQILxAB&usg=AOvVaw2Ekd2yaHRxO2RBfdZrq26d ↩︎
  6. https://en.m.wikipedia.org/wiki/Japanese_labour_law ↩︎
  7. https://www.canada.ca/en/services/jobs/workplace/federal-labour-standards/work-hours.html ↩︎
  8. Mesmo caso da Alemanha: https://www.lavoro.gov.it/en/single-digital-gateway/terms-and-conditions-employment/working-hours ↩︎
  9. Artigo 47 do Código de Trabalho ↩︎
  10. https://ufe.org/dossier-pays/algerie/travailler-en-algerie/ ↩︎
  11. Artigo L.135 do Código de Trabalho ↩︎
  12. Artigo 36 da Lei Trabalhista ↩︎
  13. Porém apenas em 2021 a Suprema Corte da China julgou ilegal o regime 996 que ocorria na prática em empresas de tecnologia chinesas https://www.reuters.com/world/china/chinas-top-court-says-996-work-culture-illegal-2021-08-27/ ↩︎
  14. Artigo 91 do Código de Trabalho ↩︎
  15. https://www.theglobaleconomy.com/Ecuador/informal_employment/
    e https://data.worldbank.org/indicator/SL.AGR.EMPL.ZS?locations=EC&utm
    ↩︎
  16. https://www.wiego.org/wp-content/uploads/2022/04/WIEGO_Statistical_BriefN31_Senegal.pdf ↩︎
  17. Lei 21.561 ↩︎
  18. Lei 2101/2021 ↩︎
  19. https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3rx779wr37o, https://www.sinait.org.br/noticia/18979/o-experimento-na-espanha-para-reduzir-jornadas-de-trabalho-a-4-dias-por-semana, https://www.infomoney.com.br/carreira/semana-reduzida-de-trabalho-perde-folego-no-brasil/ ↩︎
  20. https://www.ipea.gov.br/portal/categorias/45-todas-as-noticias/noticias/16263-reducao-da-jornada-de-trabalho-teria-custo-similar-ao-de-reajustes-historicos-do-salario-minimo ↩︎


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