POR QUE A JUVENTUDE DEVE SER CONTRA A FEDERAÇÃO DO PSOL COM PT?
Diante da atual conjuntura, marcada pelo avanço da extrema-direita e do neoliberalismo, a diluição do PSOL em uma Federação com o PT seria um erro histórico
Nas últimas semanas, a partir de um convite feito pelo PT, se acendeu um debate que extrapolou os limites internos do PSOL: se o partido deveria entrar na Federação Brasil da Esperança, composta pelo PT, PCdoB e PV, ou seguir na atual federação com a Rede. Os conflitos em torno desse tema vão muito além de um mero debate eleitoral, eles dizem respeito aos próprios rumos da luta de classes no Brasil e revelam se o PSOL seguirá sendo um polo independente de reagrupamento e reorganização da esquerda radical ou se diluirá como partido satélite da política petista. Esse debate tem especial importância para a juventude, que nos últimos anos protagonizou importantes lutas contra a extrema direita e que em muitos momentos viu no PSOL uma alternativa em relação aos partidos tradicionais.
O que é a federação?
Para compreender esta polêmica, antes se faz necessário compreender o que é a federação e qual seu real impacto em termos organizativos e políticos. A federação foi um mecanismo criado como parte de uma reforma eleitoral que buscou centralizar as decisões políticas em cúpulas mais poderosas. Com esse novo mecanismo, as alianças deixam de ser apenas alianças eleitorais e passam a funcionar como alianças de quatro anos com mecanismos de funcionamento e direção compartilhados e nacionalizados.
Além de serem obrigados a permanecerem na mesma federação durante quatro anos, os partidos que a compõem passam a funcionar institucionalmente como uma mesma legenda no Congresso Nacional e demais espaços legislativos, com mecanismos de direção compartilhados. Também passam a dividir o acesso ao fundo eleitoral, o tempo de televisão e também o conteúdo programático.
Hoje, apenas a Revolução Solidária, corrente de Guilherme Boulos, defende que o PSOL siga por esse caminho. A justificativa para apoiar a Federação proposta pelo PT tem girado em torno de dois eixos: a necessidade de construir uma aliança nacional em torno da unidade de combate à extrema-direita e o desafio de vencer a cláusula de barreira. É necessário dizer com todas as letras que a unidade de ação eleitoral para enfrentar o fascismo, em especial a unidade em apoio à candidatura de Lula à presidência no primeiro turno, que já é praticamente um consenso no partido, não depende em nada de uma federação. Em diversos Estados, o PSOL já vem, por exemplo, desenhando apoios a candidaturas de unidade do campo democrático para a disputa dos governos.
Ainda, a federação pressupõe sua extensão para o âmbito municipal, estadual e federal. Na prática, isso obrigaria o PSOL a seguir alianças esdrúxulas que o PT realiza em alguns estados, como com Helder Barbalho no Pará ou Eduardo Paes no Rio de Janeiro. A federação também obrigaria a mudança das construções de chapas que estão sendo realizadas agora. A Revolução Solidária tem argumentado que federar ajudaria o PSOL a crescer no âmbito nacional. No entanto, como a federação pressupõe o funcionamento como uma única legenda, o partido abriria mão de uma série de candidaturas que estavam sendo construídas para se adequar aos limites impostos pela justiça eleitoral. Em poucas palavras, não só o PSOL deverá, caso embarque nessa federação, abrir mão de diversas candidaturas que já estão sendo construídas, como deverá aderir ao arco de alianças realizado pelo PT, que conta com o MDB como partido mais apoiado para as próximas eleições.
Olhando por este ângulo, já teríamos argumentos para definir a federação como um desastre. O PSOL conseguiu ocupar o espaço de relevância que possui hoje na sociedade – em especial entre a juventude – também por ser um partido que se recusou a fazer parte das grandes alianças e coligações abjetas que se desenharam durante as eleições. Perder a autonomia de crítica a figuras tão nefastas como os Barbalho, Paes e tantos outros jogaria o PSOL no rol de apenas mais um partido tradicional que trai suas convicções políticas em troca de favores eleitorais.
O cenário, contudo, piora, pois a federação também pressupõe mecanismos de direção compartilhados e proporcionais no âmbito legislativo. A Federação passa a atuar como uma legenda unificada, em especial no âmbito legislativo, compartilhando inclusive a liderança. Isso significa que o PSOL também estaria submetido à direção e às pressões de votar de acordo com o governo no Congresso, uma vez que o PT, pela proporcionalidade, seria a maior força.
No tema da cláusula de barreira, também é necessário dizer que o partido, considerando as chapas que vem desenhando em conjunto com a federação com a Rede, não se veria ameaçado. O PSOL possui forças suficientes para superar a cláusula de barreira na atual federação que compõe, como ficou provado pelo resultado eleitoral obtido em 2022.
O papel de Boulos na disputa da federação
É evidente, portanto, que a federação do PSOL junto ao PT minaria a capacidade de intervenção política independente do partido. Boulos não é inocente, e sabe muito bem desse fato. Mais do que isso, nos últimos anos, tanto ele se tornou ministro como sua corrente atuou para que as posições da bancada do PSOL seguissem as mesmas orientações do governo em matérias polêmicas. Qual seria, portanto, a razão pela qual essa ala busca subordinar o PSOL?
Boulos possui um projeto pessoal político próprio. Vem buscando se postular como sucessor de Lula, e busca sua “benção” para isso. Hoje, toda a estratégia das posições da Revolução Solidária e dele gira em torno desse objetivo. Para isso, compreendem que é necessário a subordinação do partido à lógica vigente do governo: a conciliação de classes. Por essa lógica, o governo atua como um “mediador” entre os interesses nacionais de sua base e das bases da direita e do empresariado. Esse esquema, que chamam de “governabilidade”, é justificado pelo governo por uma suposta aferição da correlação de forças nacionais que impede pautas mais avançadas de serem apresentadas. No entanto, na prática, o petismo abre mão da tentativa de disputar a correlação de forças na sociedade e toma a contagem de votos por cadeira no Congresso Nacional como medidor dessa correlação. É o abandono da rua e da mobilização como elementos de disputa de consciência nacional. Ou seja, os esquemas de conciliação dependem de um fator fundamental: o arrefecimento das lutas sociais buscando não tensionar a relação com a burguesia e a direita.
Para Boulos se postular à figura de sucessor imediato de Lula e contar com seu apoio, é um obstáculo que o PSOL siga cumprindo um papel crítico e divergente dessa conciliação. O que ele e sua ala buscam, portanto, é sanar esses elementos de tensão entre o PSOL, os movimentos sociais e o próprio governo. Esse tem sido o papel de Boulos, mesmo antes de todo esse debate da Federação, como ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência: atuar na contenção da insatisfação dos mais diversos setores organizados dos movimentos sociais em relação às medidas do Governo Federal.
Isso ficou nítido ao longo da ocupação da Cargill realizada pelos povos do Baixo Tapajós. Boulos, já como ministro, prometeu publicamente durante a COP-30 no ano passado a realização de uma consulta aos povos originários da região sobre a inserção dos Rios Madeira, Tapajós e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização. Isso, por si só, já mostra os limites do papel que passou a cumprir – o de representar os interesses do governo federal perante movimentos sociais, gerando uma contradição com a vocação que o PSOL assumiu ao longo dos anos de defender e impulsionar a luta dos oprimidos custe o que custar. Essa contradição se acumulou e se expressou ainda mais diante do fato de que a promessa do ministro não foi cumprida. Não podemos saber se isso aconteceu por cálculos de Boulos ou por pressão de outros setores do governo que representam o agronegócio, mas isso pouco importa. No final das contas, Boulos escolheu assumir o papel de parachoque do governo.
O PSOL, o partido que historicamente foi instrumento de organização de quadros do movimento indigena por não aceitar qualquer tipo de conciliação com grileiros e com a Bancada do Boi, passou pelo desafio de se provar diante do fato de que uma de suas principais lideranças disse que os povos do Baixo Tapajós “não tinham lido o Decreto” que ameaçava privatizar seus rios. No calor das lutas dos povos indígenas, da vitalidade da luta de classes e da necessidade de enfrentamentos radicais ao agronegócio, Boulos escolheu o seu lado e tentou fazer com que o PSOL vacilasse em suas posições, mas não conseguiu.
Outro exemplo desse processo de subordinação de Boulos que ameaça o estatuto do PSOL para a juventude é a articulação do PLP 152/2025. Desde que Boulos entrou no ministério, uma de suas principais tarefas vem sendo a de articular a aprovação desse projeto que tenta “conciliar” interesses das grandes plataformas de entregas e transporte com os interesses de seus trabalhadores que são profundamente precarizados. Guilherme Boulos se sentou junto a empresas como a 99 e o iFood, além de representantes dos movimentos de trabalhadores dos aplicativos e, atualmente, agita o PLP 152/2025 como uma saída possível para garantir melhores condições de trabalho. No entanto, isso é uma falácia. Esse PLP, na realidade, legaliza e institucionaliza práticas de precarização e de exploração do trabalho. Ele define os trabalhadores como “não subordinados” e sem vínculo empregatício, excluindo-os da proteção da legislação trabalhista brasileira; garante a falta de transparência e de fiscalização real sobre as decisões automatizadas dos algoritmos que regulam o trabalho; permite jornadas de até 12 horas sem adicionais por horas extras nem remuneração pelo tempo em que o trabalhador fica “à disposição” da plataforma, nem descanso semanal garantido de forma real; entre outros problemas expostos na petição articulada pelo Prof. Ricardo Antunes e militantes do PSOL contra o PLP.
Esses dois exemplos já demonstram que o projeto de Boulos exige a subordinação política, e ele busca instrumentalizar o PSOL para atingir seus objetivos. O partido não pode ser sequestrado pelos interesses pessoais de Boulos, e as lutas do povo não podem estar subordinadas a esse projeto conciliatório. É, para dizer o mínimo, mesquinha a tentativa de chantagear o restante do partido anunciando uma possível saída sua do PSOL caso sua posição não se confirme no Diretório Nacional marcado para o dia 7 deste mês.
Em defesa do papel histórico do PSOL
É necessário ser categórico: numa eventual federação do PSOL com o PT, quem sai derrotado não é a corrente X ou Y, é a própria classe trabalhadora, que perderia uma importante ferramenta de organização política frente à luta de classes no Brasil. A federação destruiria o sentido do PSOL enquanto partido independente da classe, diluindo sua função a um satélite da direção do PT. Nesse debate, portanto, é necessário resgatar qual o sentido estratégico da construção do PSOL.
Vivemos diante de um cenário complexo, marcado pela policrise do capitalismo a nível global, que se acentua com a crise climática provocada por ele. É também nessa conjuntura de crise que experimentamos há quase uma década o surgimento e a consolidação da extrema-direita neofascista como um pólo com capacidade de mobilização de massas. Diante desse cenário, é evidente que a função primordial do PSOL e da esquerda de maneira geral deve ser o combate à extrema-direita, que se acentua com a tarefa de enfrentar o imperialismo e o colonialismo praticados pelos EUA. Não à toa os debates mais fundamentais dos últimos 10 anos têm girado em torno de quais as melhores táticas e estratégias que guiam essa tarefa histórica.
Essa conjuntura, sem sombra de dúvidas, é diferente daquela da fundação e consolidação do PSOL entre 2003 e 2005. O partido havia sido fundado a partir da expulsão dos chamados “radicais” do PT (Luciana Genro, Heloísa Helena, Babá, etc.), que se recusaram a votar com Lula uma reforma da previdência logo no primeiro ano de governo, em 2003, um ataque frontal à base que o elegeu. A origem do PSOL remonta à necessidade de existir, em meio à classe trabalhadora, uma alternativa de massas ao petismo, que já de antes da eleição de Lula dava sinais de que rifaria a capacidade de auto-organização e mobilização da classe em nome de um esquema de conciliação que desse sustentação ao governo de coalizão com a burguesia que surgiu da eleição de 2002.
Resgatar tal sentido estratégico dos primeiros anos possui uma razãol. O combate à extrema-direita não se dá no mero campo da unidade abstrata da esquerda e centro-esquerda, ainda que haja esse apelo em vários setores da vanguarda. A força mobilizadora do neofascismo está na sua capacidade de produzir um simulacro, uma feição de força antissistema que combateria “tudo que tá aí”. Frente ao cenário de crise generalizada, o neofascismo encontra ecos na perda de sentido que a institucionalidade e as representações tradicionais sofrem diante das suas incapacidades de resolverem ou apresentarem qualquer alternativa à crise. Combater o fascismo, portanto, exige a apresentação de um programa coeso, coerente e viável que mobilize o sentido da radicalidade que pede o momento, ou seja, que consiga apresentar alternativas que questionem os fundamentos da crise atual do capitalismo.
Nas últimas duas décadas, o PSOL demonstrou que é capaz de apresentar uma alternativa, em especial para a juventude. O projeto de conciliação exigiu com que outros setores da esquerda abandonassem pautas centrais da classe trabalhadora, em especial para as novas gerações, como a luta pela legalização do aborto, a defesa instransigente das LGBTQIAPN+, a defesa de uma outra política de drogas contra o encarceramento em massa, a luta pela superação do desenvolvimentismo e de uma estrutura econômica baseada na destruição do meio ambiente, entre muitas outras batalhas que o PSOL não vacilou e, por conta disso, se viabilizou como polo de organização e referência para uma juventude que se indigna com a situação em que nos encontramos.
Ainda que seja fundamental a construção de uma unidade do campo democrático, em especial para derrotar as aspirações eleitorais do bolsonarismo em 2026, a diluição do PSOL à política do PT rifaria a possibilidade da construção dessa alternativa. Vejamos um exemplo: caso federado, o PSOL perderia a capacidade real de fazer o enfrentamento ao Arcabouço Fiscal, medida proposta pelo próprio Governo Lula que inaugura, junto à política do Déficit Zero, os fundamentos da austeridade fiscal e das aplicações neoliberais que têm sido promovidas pelo governo nos últimos anos, um ataque frontal à própria base social que dá sustentação à eleição de Lula. Numa eventual federação, as pressões exercidas pela direção, que é do PT, constrangeriam o partido a adotar as posições defendidas à época por Boulos e pela Revolução Solidária de votar a favor do Arcabouço. Na prática, não haveria, a nível nacional, qualquer partido na Câmara que fizesse a crítica à esquerda aos fundamentos neoliberais da política econômica do governo. O monopólio da crítica, ainda que oportunista, ficaria para a extrema-direita, que se alimenta das frustrações provocadas por medidas como essas.
O PSOL, portanto, cumpre uma dupla função fundamental frente à conjuntura que enfrentamos. De um lado, é um dos polos da necessidade de construção de uma frente de enfrentamento unitária contra a extrema-direita, e sua existência com independência política ajuda a tensionar tal unidade à esquerda, em especial quando posta a centralidade do enfrentamento às agressões imperialistas norte-americanas contra os países latinoamericanos. A necessidade de construir unidade de ação em momentos chaves, como para a eleição de Lula este ano, não é impossibilitada pela manutenção da independência de um projeto que, em última instância, busca também superar os limites auto-impostos pela política de conciliação de classes do Governo. A máxima de “golpear juntos, mas caminhar separados” nessa quadra histórica se dá pela necessidade de unidade em defesa do governo e da eleição de Lula contra os ataques e avanços da extrema-direita e do imperialismo, mas também pela capacidade do partido ser um polo crítico às medidas de austeridade que geram frustrações em amplas camadas sociais.
Por outro lado, o PSOL cumpre um papel fundamental na tarefa histórica de reagrupar e reorganizar a esquerda radical no Brasil. O atual cenário de fragmentação e dispersão, em especial da esquerda revolucionária, é um desastre para o enfrentamento da extrema-direita, uma vez que o único polo capaz de apresentar uma alternativa real à crise histórica do capitalismo segue flertando com a irrelevância auto-imposta pelo isolacionismo em micro-organizações. É necessário que os radicais sigam buscando se reagrupar para retomar a capacidade real de intervenção de massas no cenário político atual. O PSOL, enquanto ferramenta independente da classe trabalhadora, possui a função histórica de ser uma ferramenta à serviço do reagrupamento e da construção de um programa radical e socialista para o enfrentamento da crise que vivemos.
Manter o PSOL como ferramenta de luta e disputa da juventude
Felizmente, hoje a posição pela federação com o PT é minoritária dentro do partido. Aqui, ainda que haja diferenças importantes entre nós, é fundamental saudar a posição das demais correntes que compõem o PTL (PSOL de Todas as lutas – campo majoritário que dirige o PSOL) contrárias à proposta do PT. Manter o PSOL como um partido independente é fundamental para o próximo período, e a manutenção de seu projeto fundacional deve estar na ordem do dia de todos os socialistas que se preocupam com a construção de uma alternativa ecossocialista capaz de fazer frente à extrema-direita e à crise socioambiental.
Para a disputa da juventude, cada vez mais capturada pelo discurso falacioso da extrema-direita, a manutenção do PSOL enquanto ferramenta independente vai ser decisiva. O PSOL, enquanto o partido com maior número de filiados entre 16 e 24 anos, cumpre um papel fundamental na disputa desse setor. O tamanho e espaço que conseguiu alcançar dentro da juventude está diretamente relacionado com a busca pela renovação política e por novas formas de representação frente à crise geral de perspectiva e futuro, na qual a juventude é o setor mais afetado. Nenhum outro partido poderia ter cumprido o papel de denunciar à esquerda a corrupção presente no Estado burguês gerida pelos partidos da ordem que negociavam os direitos da juventude. Nenhum outro partido teria a capacidade de fazer o que o PSOL fez nos últimos anos ao eleger jovens militantes, mulheres, negros e negras, LGBTQIAPN+ e socialistas, frutos de processos de mobilização e de disputa política na sociedade. Nenhum outro partido poderia articular uma contraposição na sociedade em relação a projetos do Centrão que o PT já abraçou, como o dos Barbalho no Pará e o de Eduardo Paes no Rio de Janeiro. Nenhum outro partido poderia receber lideranças do movimento indígena que protagonizaram a ocupação da COP-30 em 2025 e também da Cargill. Esses são apenas alguns exemplos que demonstram a necessidade de seguir construindo o PSOL como uma alternativa com independência política e radicalidade, que se mantenha como referência para novas gerações que sonham com um outro futuro.