Emergência climática no Rio Grande do Sul
A tragédia rebobinada pelos mesmos culpados
A emergência climática é a fratura exposta da crise do capitalismo. As tragédias ambientais evidenciam a balança do atual modelo: por um lado governos neoliberais e empresários bilionários aceleram a destruição do planeta e por outro as populações vulneráveis são expostas ao resultado da exploração: são vítimas de enchentes, deslizamentos, queimadas, calor extremo, etc.
Nesta semana, o Rio Grande do Sul volta a reviver o pesadelo de cenários que se assemelham profundamente à catástrofe de 2024. O que assistimos não é um mero desastre natural, mas o efeito de um colapso generalizado acelerado pelo grande capital e por governos neoliberais e negacionistas, como os de Sebastião Melo e Eduardo Leite. Graças à política criminosa de desmonte ambiental conduzida por ambos, o povo gaúcho foi empurrado para a maior enchente de sua história.
Na tragédia de 2024, centenas de milhares de pessoas foram forçadas a abandonar seus lares, e dezenas de milhares perderam absolutamente tudo o que conquistaram após anos de suor. E quem paga a conta? Sempre os trabalhadores empobrecidos, moradores das vilas, das ilhas de Porto Alegre e das comunidades ribeirinhas, espoliados duplamente, primeiro pela extração da mais-valia no processo de trabalho explorado, e depois pela perda de seus pertences e bens na negligência estatal.
A raiz dessa destruição sistêmica está no topo da pirâmide global. As grandes potências capitalistas e os bilionários são os principais culpados pela emergência climática. Um exemplo alarmante dessa sanha tecnológica é o uso predatório da Inteligência Artificial pelo capital, que ameaça dezenas de milhões de postos de trabalho, enquanto consome quantidades colossais de água e energia.
O mega data center da Scala Data Centers (Scala AI City) está sendo construído em Eldorado do Sul (RS), a cidade mais atingida pela enchente do ano retrasado. Projetado para atingir impressionantes 4.750 MW (quase 5 GW), o complexo consumirá mais energia elétrica do que todo o estado do Rio de Janeiro, aprofundando o esgotamento dos nossos recursos em benefício do lucro corporativo. Essa lógica predatória é reflexo de uma desigualdade obscena: o 1% mais rico da humanidade possui uma riqueza equivalente à de 50% da população mais pobre, além de emitir o dobro de CO2 do que essa mesma faixa trabalhadora, sufocando o planeta para sustentar o luxo de poucos.
Nesse tabuleiro de exploração, a terra é mercantilizada e comprada a crédito por grandes bancos e potências imperialistas, enquanto figuras como Elon Musk e sua Starlink avançam sobre os recursos naturais de países subdesenvolvidos, como o Brasil, saqueando territórios em nome de impérios tecnológicos espaciais. Diante desse cenário, as famosas COPs revelam-se como teatros vazios. A própria COP 30, realizada no Brasil, escancarou a farsa do “capitalismo verde”: enquanto líderes globais e corporações discursavam sobre sustentabilidade em gabinetes blindados, esgoto bruto era jogado a céu aberto nas periferias de Belém. O evento serviu apenas para fechar negócios e maquiar a destruição. A verdadeira resposta veio da juventude e da militância anticapitalista, a exemplo do Coletivo Juntos!, que protagonizou forte oposição nas mobilizações contra a COP 30, inclusive ocupando o espaço para denunciar a farsa socioambiental.
No cenário local e imediato, a tragédia também serve de palanque para a hipocrisia política. Deputados e vereadores de direita aproveitam-se da desgraça alheia para produzir vídeos em barcos e dentro das águas das enchentes, praticando um falso assistencialismo político. No entanto, são exatamente esses mesmos políticos os principais responsáveis pela tragédia. São eles que fazem acordos escusos com os empresários da especulação imobiliária e votam por leis e projetos de destruição ambiental, como o famigerado novo Plano Diretor de Porto Alegre, que afrouxa regras de proteção, não protege a cidade contra novas cheias e escancara o caminho para inundações ainda mais catastróficas.
A ajuda humanitária, as doações e o apoio direto aos que sofrem são fundamentais e urgentes. A luta das populações atingidas pela emergência climática é, estruturalmente, uma luta contra o capitalismo.
Além disso, é preciso apontar o dedo e denunciar as grandes empresas que destroem o meio ambiente e os governos negacionistas que caminham de mãos dadas com o lucro. Por isso, acreditamos que o ecossocialismo não é um capítulo secundário ou isolado; pelo contrário, é o fio condutor estratégico que conecta todas as lutas da classe trabalhadora e da juventude rumo a uma sociedade mais igualitária e à preservação da vida no planeta.