Não gosto do clima de festa
Foto: Ricardo Stuckert

Não gosto do clima de festa

Sobre as ilusões com o lulismo e as perspectivas para 2022

João Pedro de Paula 3 jan 2022, 12:21

“Não gosto do clima de festa. A cegueira que atinge lá, atinge nóis também. Isso é perigoso. Não tá tendo motivo para comemorar.” Mano Brown, 23/10/2018 

Mais um ano se inicia, certamente o último do governo Bolsonaro. Algo que não queríamos, nossa vontade política que se expressou nas mobilizações era de que saísse o quanto antes e direto para cadeia. Com o freio colocado nos atos de rua do último período por setores oportunistas, como o PT, não nos aproximamos do nosso objetivo da forma que poderíamos ter chegado. Para esses setores, seu objetivo foi cumprido: desgastar Bolsonaro para facilitar a vitória eleitoral de Lula. 

Agora, há um sentimento de ansiedade para o período eleitoral e a provável derrota do capitão. Um sentimento que em parte é compreensível pelo trauma social que o país viveu, sobretudo nos anos da pandemia. Um desejo de retomar um passado que era um pouco melhor. Ainda que seja compreensível tal esperança, não cabe a nós alimentar essa ilusão. Mas tampouco ignorar essa tendência, algo que seria idealista. É preciso disputar a realidade a partir das contradições que se colocam. 

A esperança que alguns esperam através do Lula decorre da busca por melhores condições de vida, que todos nós queremos. Principalmente após a terra arrasada que se tornou o país. Ainda que enquanto anticapitalistas a reforma do sistema não seja a nossa estratégia, a luta por reformas é fundamental, inclusive para quem quer se postular como uma alternativa radical. Para podermos viver melhor e assim termos mais capacidades de nos organizarmos politicamente. 

Mas o programa que o PT apresentará sequer será capaz de promover mudanças estruturais na sociedade, ainda nos marcos do capitalismo. E diferentemente do que certos setores do PSOL esperam, como a corrente Resistência e a sua juventude Afronte, não há disposição do lulismo de dar um giro à esquerda. Nunca houve tal perspectiva ao longo de sua trajetória, algo compreendido por diversos quadros do próprio PT, como o professor da USP e porta-voz da Presidência no primeiro governo Lula, André Singer.

A burguesia também compreende isso. Ainda que não seja sua primeira opção ter um candidato que não é oriundo de sua classe, Lula também pode ser a terceira via. A provável composição de chapa com Alckmin é uma sinalização de que o ex-presidente está disposto a sê-lo. Como Roberto Robaina apontou, com Alckmin a “carta ao povo brasileiro” está assinada, em referência ao documento assinado por Lula em agosto de 2002 atestando que iria se limitar a gerenciar o estado burguês. 

Inclusive, é essencial compreender que um possível governo Lula não terá as mesmas condições objetivas que teve anteriormente. Seu primeiro governo foi beneficiado pelo chamado boom das commodities, período no qual boa parte das matérias primas tiveram uma alta nos preços, algo que beneficiou o Brasil entre 2000 e 2014, enquanto um país exportador e pouco industrializado. Agora, estamos em meio a crises de mais diversas instâncias em que a lógica lulista de pequenas reformas e pouco enfrentamento ao grande capital não será suficiente para atender as necessidades do povo. 

Certamente, muita pactuação com a burguesia e reformas de cunho neoliberal serão colocadas. Em caso de uma vitória eleitoral do PT, a tendência é de muito mais semelhança com as instabilidades do segundo governo Dilma. Só que numa condição social, econômica e política bem pior. 

Na contradição entre a busca por um futuro melhor e as insuficiências do programa do PT, temos que nos apresentar. Não por achar que iremos vencer as eleições. Não somos idealistas. Mas por compreender que esse é o caminho para quem quer ser a alternativa política que de fato carregue consigo a transformação da realidade. Para que possamos apresentar um programa com medidas que possam financiar diversas políticas públicas voltadas ao povo através da taxação das grandes fortunas, da auditoria da dívida pública e de um sistema tributário que coloque os ricaços para pagar o que devem de verdade.

Aproveitando as brechas e limitações do projeto lulista para apontar que queremos ir além e cavar espaço enquanto alternativa. Não só nos postulando através de uma candidatura à presidência pelo PSOL, na qual apostamos no nome do deputado federal Glauber Braga, mas também apresentando o nosso projeto socialista aos setores mais avançados na luta. 

Assim como disse Mano Brown em 2018, não gosto do clima de festa. Não há razões para jogar todas as fichas nas eleições de 2022. Muito menos estando numa espera passiva com uma contagem regressiva, como fazem alguns. Seja pelo que pode acontecer antes, seja pelas tendências que apontam as insuficiências do programa lulista.

Há muita luta nas ruas a ser construída antes das eleições, contra o próprio governo Bolsonaro e os ataques que serão colocados a nós. Contra o aumento nos preços diante da inflação, como o aumento nas passagens do transporte público, que compõem cerca de 18% do orçamento familiar. No Rio, há perspectiva de um aumento na passagem do trem de 5 para 7 reais em fevereiro que seria devastador.

Bolsonaro deve também tentar promover diversos cortes nos gastos sociais para garantir as suas negociações e compra de votos, o que afetará por exemplo o funcionamento dos institutos e universidades federais, justo quando necessitam de mais verbas com o retorno presencial. Exemplos não faltam. Esses desafios não podem esperar e tampouco serão resolvidos em outubro.

Como dizia o maior poeta russo, é preciso arrancar alegria ao futuro, mas sem ilusões. Não queremos apenas um ontem com um novo nome. Em 2022, assim como em todo ano, é na luta que a gente se encontra e a partir de lá que construiremos o nosso programa e a nossa alternativa política.


Últimas notícias