O CONUBES e o aprofundamento da artificialização do movimento estudantil
Reprodução: Brasil de Fato

O CONUBES e o aprofundamento da artificialização do movimento estudantil

Disputar a UBES hoje também significa disputar um projeto de reconstrução do movimento estudantil brasileiro, esse projeto também passa por defender mudanças na própria dinâmica democrática da entidade

Betina Gosch 17 mar 2026, 19:59

O 46º Congresso da UBES acontece em um momento em que se aprofunda uma distorção preocupante na construção das grandes entidades do movimento estudantil: a crescente artificialização de seus processos congressuais. Em vez de expressarem a organização real dos estudantes nas escolas, muitos desses congressos têm sido cada vez mais determinados por disputas de aparato entre correntes políticas. Assim, aquilo que deveria ser um espaço de deliberação coletiva da juventude acaba frequentemente marcado por delegações previamente organizadas e resultados praticamente definidos antes mesmo do início do debate. Esse fenômeno não é apenas um problema de método, mas um sinal das dificuldades mais amplas que hoje atravessam o movimento estudantil brasileiro.

A situação das escolas e os desafios para organizar a juventude

Vivemos um momento difícil para a organização da juventude. Nos últimos anos, a ascensão da extrema direita deixou marcas profundas na sociedade e também no ambiente escolar. Ao mesmo tempo, o avanço de políticas neoliberais segue precarizando a educação pública, aprofundando desigualdades e atacando direitos históricos conquistados por estudantes e trabalhadores da educação. Em escala internacional, o cenário também é marcado por tensões crescentes, disputas entre potências e uma ofensiva cada vez maior contra direitos sociais. Em um contexto como esse, seria fundamental que o movimento estudantil estivesse forte, organizado e mobilizado, capaz de defender a educação pública e de organizar a juventude para enfrentar os ataques que vêm sendo impostos.

No entanto, a realidade que encontramos nas escolas aponta para grandes dificuldades de organização. Em muitos lugares, a própria democracia dentro das escolas vem sendo limitada: diretorias e gestões escolares dificultam ou impedem a fundação de grêmios estudantis, criam entraves burocráticos para a realização de assembleias e tratam a organização política dos estudantes como um problema, e não como parte da formação. Soma-se a isso um ambiente cada vez mais marcado pela disseminação de ideias reacionárias entre a juventude, como discursos misóginos, racistas e LGBTfóbicos, que encontram espaço em fenômenos como o crescimento da chamada cultura “red pill” nas redes sociais. Esse cenário contribui para fragmentar a juventude, estimular o individualismo e enfraquecer a construção coletiva nas escolas.

Ao mesmo tempo, o modelo de escola cada vez mais tecnicista e voltado apenas para resultados e desempenho também reduz os espaços de debate, participação e organização estudantil. A juventude é constantemente pressionada por avaliações, itinerários e exigências infundadas, enquanto faltam espaços reais de participação. O resultado é uma escola menos democrática e uma juventude que encontra cada vez mais obstáculos para se organizar e lutar por seus direitos.

A crise democrática na UBES e a artificialização do CONUBES

Para construir um movimento estudantil que esteja à altura desses desafios, precisamos de entidades vivas, democráticas e enraizadas nas escolas. No entanto, o que muitas vezes encontramos é justamente o contrário. Essa distorção aparece já na própria construção do congresso, especialmente no processo da mesa de habilitação e credenciamento. Em teoria, essa etapa deveria assegurar que os delegados presentes representem estudantes reais, organizados em suas escolas e legitimados por processos democráticos. Na prática, porém, o que frequentemente prevalece são acordos informais entre correntes políticas do campo majoritário da entidade para flexibilizar critérios e evitar conflitos que possam colocar em xeque a tiragem desse campo político, com objetivo final de manter a hegemonia no processo. Assim, fraudes evidentes acabam sendo naturalizadas como parte do funcionamento do congresso. Irregularidades são ignoradas e a lógica burocrática acaba se impondo sobre o caráter político do congresso. O resultado é uma entidade cada vez mais distante da realidade concreta das escolas. Quando o objetivo principal passa a ser garantir delegados para uma disputa de aparato, a representação estudantil deixa de ser o centro do processo político.

Uma forma concreta dessa distorção aparece nas próprias fraudes que atravessam as inscrições de comissões. Não são raros os casos de criação de “estudantes fantasma”, comissões infladas com nomes de jovens que sequer sabem que seus nomes estão sendo usados. Em outros casos, aparecem comissões de estudantes e grêmios que existem apenas no papel, criados às pressas para cumprir formalidades burocráticas e garantir mais vagas de delegados para determinadas correntes. Ao mesmo tempo, a própria burocracia imposta ao processo mediada pela CNECO e fortemente marcada pelo hegemonismo da UJS acaba contribuindo para esse cenário contraditório: cria-se um emaranhado de regras e etapas formais que, em vez de fortalecer a democracia estudantil, muitas vezes servem apenas para legitimar a burocracia e cumprir protocolos.

O resultado é um processo em que a formalidade burocrática substituiu a participação real dos estudantes, e onde a disputa política passa a ser travada muito mais no controle das engrenagens do congresso do que na organização viva da juventude nas escolas. Esse problema se expressa também em outro símbolo bastante conhecido de quem já participou desses congressos: a chamada “contagem de garrafinhas”. Ao invés de um espaço onde diferentes projetos políticos para o movimento estudantil sejam debatidos com profundidade, o congresso muitas vezes se transforma em uma disputa logística de quem consegue mobilizar mais delegados previamente controlados. A política é substituída por uma competição de aparato. O debate de ideias perde espaço e a democracia interna da entidade enfraquece. Não é exagero dizer que, muitas vezes, o resultado do congresso parece decidido antes mesmo de ele começar. A consequência disso é uma crise democrática cada vez mais evidente dentro da própria UBES. Quando os congressos deixam de refletir a organização real dos estudantes e passam a ser construídos a partir de negociações entre correntes políticas, o espaço de participação da base se reduz drasticamente. A entidade que deveria ser o principal instrumento de organização dos estudantes secundaristas acaba funcionando, muitas vezes, mais como um espaço de mediação institucional com governos do que como um motor de mobilização estudantil.

Essa lógica também se expressa na postura política da entidade. Em muitos momentos, a UBES acaba se limitando a uma defesa acrítica do governo federal, como se o papel do movimento estudantil fosse apenas apoiar governos aliados e não organizar os estudantes para lutar por suas próprias demandas. No entanto, o movimento estudantil não pode existir apenas para administrar estruturas ou legitimar governos. Sua razão é organizar a luta dos estudantes. Mais do que uma simples votação para a próxima diretoria, o CONUBES reúne milhares de jovens indignados de todos os cantos do país que querem transformar suas realidades e as de suas comunidades. A história recente mostra que quando os estudantes se organizam de verdade, eles são capazes de produzir mudanças concretas. Foi assim na primavera secundarista de 2016, quando milhares de estudantes ocuparam suas escolas, enfrentaram governos e conquistaram vitórias importantes para a educação pública. Aquela geração demonstrou que a força do movimento estudantil não está em acordos de gabinete, mas na mobilização direta da juventude.

Por um novo projeto de movimento estudantil! Queremos reconstruir o movimento secundaritas

É essa tradição de luta que precisa ser resgatada. Nós do Juntos nas Escolas participamos da disputa da UBES justamente para questionar essa lógica de artificialização e apresentar outro caminho para o movimento estudantil. Queremos uma entidade democrática, que sirva à luta e reflita na organização concreta das escolas. Queremos uma UBES que esteja conectada com as bases, que incentive a construção de grêmios e que organize mobilizações nas ruas em defesa da educação pública, sem pedir autorização de governo algum. Uma entidade que enfrente as secretarias de educação, que denuncie a precarização do ensino e que não trate como conquista simplesmente “ser recebido” por governos. Porque o que muda a realidade é o estudante mobilizado.

O desafio colocado para este CONUBES não é apenas eleger uma nova diretoria, mas recolocar a UBES no caminho da luta, da democracia e da organização real dos estudantes. Queremos refundar o movimento estudantil secundarista, para que isso aconteça, é necessário recolocar no centro do movimento estudantil aquilo que sempre foi sua principal força: a organização de base nas escolas. Um movimento estudantil forte não nasce apenas de grandes eventos nacionais ou de direções institucionais, mas do trabalho cotidiano de organização nos colégios, na construção de grêmios estudantis, assembleias escolares e espaços reais de participação. É nas escolas que os estudantes debatem seus problemas concretos: a falta de estrutura, o sucateamento da educação, a violência, o racismo, o machismo, a falta de merenda e transporte, e é a partir dessas realidades que o movimento ganha força e legitimidade.

Por isso, disputar a UBES hoje também significa disputar um projeto de reconstrução do movimento estudantil brasileiro, queremos uma UBES que organize jornadas de mobilização, que convoque os estudantes às ruas quando a educação for atacada e que esteja presente nos momentos em que a juventude decide lutar. Esse projeto também passa por defender mudanças na própria dinâmica democrática da entidade. Precisamos de uma entidade que invista na formação política da juventude, que incentive a organização nos estados e municípios e que ajude a articular as lutas locais em campanhas nacionais. É preciso garantir que os congressos da UBES sejam espaços reais de debate político e decisão coletiva, e não apenas momentos de formalização de acordos. Defendemos mais transparência, mais participação e mais espaço para a base, queremos fortalecer a entidade e ampliar sua legitimidade entre os estudantes. Lutamos por uma UBES independente democrática e conectada com as bases!

Ao mesmo tempo, é necessário apresentar um programa claro de defesa da educação pública. Isso significa lutar por mais investimento nas escolas públicas, pela revogação das políticas que precarizam o ensino médio, pela valorização dos profissionais da educação, por merenda de qualidade, transporte escolar digno e infraestrutura adequada para estudar. Significa também defender uma educação pública que enfrente as desigualdades sociais, o racismo, o machismo e todas as formas de opressão nas escolas. A juventude brasileira já demonstrou muitas vezes que, quando encontra caminhos de organização, é capaz de protagonizar processos históricos importantes. A tarefa colocada para nossa geração é dar continuidade aos processos de luta e reconstruir um movimento estudantil que esteja à altura dos desafios do nosso tempo.


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