Ancestralidade como motor revolucionário
Notas sobre o ATL 2026
O Acampamento Terra Livre 2026 se consolida, mais uma vez, como a maior mobilização indígena do país e não apenas em número, mas em densidade política, em capacidade de articulação e, sobretudo, em radicalidade. Em um cenário de avanço de projetos que atacam diretamente os territórios, os modos de vida e a própria existência dos povos originários, o movimento indígena tem sido o setor mais consequente e combativo das lutas sociais no Brasil.
Os exemplos recentes não deixam margem para dúvida. A ocupação da Secretaria de Educação do Pará em 2025, a ocupação da Cargill em Santarém em 2026 contra as privatizações dos rios Tapajós, Tocantins e Madeira e a ocupação da FUNAI em Altamira, em enfrentamento ao projeto da Belo Sun, revelam um movimento que não recua diante dos interesses do capital, sejam eles estaduais, federais ou transnacionais. Não se trata apenas de resistência, mas de ofensiva política organizada.
Em especial, os povos indígenas do Baixo Tapajós têm protagonizado um ciclo de lutas que resultou em conquistas concretas. A vitória contra o governo estadual, no contexto da ocupação da Seduc, e o enfrentamento bem-sucedido contra iniciativas de privatização dos rios, impondo recuos ao governo federal, demonstram que a radicalidade não é um fim em si mesma, mas um caminho eficaz de luta. Essas vitórias apontam que quando há organização de base, unidade e disposição para o confronto, é possível arrancar conquistas mesmo em cenários adversos.
Nesse sentido, as lutas indígenas se apresentam como um fio de esperança e inspiração para outros setores, especialmente o movimento estudantil, historicamente combativo, mas que muitas vezes se vê diante de impasses estratégicos. O que os povos indígenas têm demonstrado é que não há transformação sem enfrentamento direto às estruturas de poder que sustentam a desigualdade e a destruição ambiental.
O ATL 2026 também expressou essa força. Apesar das dificuldades estruturais, o espaço foi marcado pelo encontro de povos de diversas regiões do país, que compartilharam experiências de luta, estratégias e saberes ancestrais. Foi, mais uma vez, um território de construção coletiva, onde a diversidade se converteu em luta.
A radicalidade do movimento se fez visível também nas ações simbólicas e nas marchas que marcaram o acampamento. Na primeira grande marcha, os povos do Baixo Tapajós protagonizaram um ato potente: cruzes e caveiras foram erguidas e queimadas, denunciando os projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional e que representam ameaças diretas à vida, aos territórios e aos direitos indígenas. Um gesto que sintetiza o enfrentamento aos interesses que operam contra o povo e a natureza.
Já na quinta-feira, a mobilização seguiu em marcha rumo ao Supremo Tribunal Federal, em um momento decisivo para o julgamento da Ferrogrão. A Ferrogrão, planejada como um corredor logístico para o escoamento de commodities do agronegócio, representa uma ameaça concreta à floresta amazônica e aos territórios indígenas. Seu traçado impacta diretamente unidades de conservação e terras tradicionais, ampliando o desmatamento, incentivando a grilagem e aprofundando a lógica predatória que transforma a natureza em mercadoria. A luta contra esse projeto é, portanto, uma luta em defesa da vida.
A história nos mostra que a luta não é uma escolha, mas uma necessidade. Os povos indígenas resistem há mais de cinco séculos, são mais de 526 anos de enfrentamento contínuo ao colonialismo, ao racismo e à violência institucional. E seguem, não apenas resistindo, mas construindo caminhos de futuro. Como ecoava durante todo ATL: a resposta somos nós!
Dar visibilidade a essas batalhas é uma tarefa urgente. Todos aqueles e aquelas que defendem o bem viver, a justiça social, a transformação radical da sociedade e a preservação dos territórios precisam reconhecer nas lutas indígenas uma linha de frente fundamental. Incorporar essas lutas é reconhecer que não há saída individual para crises que são coletivas.
Por isso, as agendas de lutas do movimento indígena devem ser incorporadas pelo conjunto dos movimentos. A demarcação das terras indígenas, a luta contra a Ferrogrão, contra Belo Sun na região do Xingu no Pará, contra o Marco Temporal e em defesa das vidas indígenas.
A força dos encantados, a memória ancestral e a organização dos povos são o motor da revolução da história. Surara! Sawê!