Irã, imperialismo e campismo
A escolha do mal menor não cabe aos revolucionários. Escolhemos o internacionalismo dos de baixo!
Vivemos um dos períodos mais instáveis da história recente. Entre 2024 e 2026, o acirramento das disputas interimperialistas atingiu níveis que não víamos há várias décadas. Desde a Segunda Guerra Mundial, vivemos o período com mais guerras acontecendo simultaneamente no mundo. Frente ao declínio dos EUA como força hegemônica imperialista do capitalismo, que vem ano após ano perdendo espaço diante do imperialismo chinês, sua resposta tem sido apostar na espoliação dos povos. No centro dessa conjuntura, o Irã se tornou (novamente) alvo da ofensiva dos EUA e de seu lacaio no Oriente Médio, israel. Essa nova ofensiva levantou uma série de debates na opinião pública, que passam desde a escalada militar que ameaça a expansão desses conflitos a nível global até as diferentes opiniões acerca do regime iraniano, usado como justificativa para o ataque. Diante disso, com os debates políticos e leituras da situação sendo apresentados pelas mais diversas organizações, parte da esquerda brasileira insiste em ressuscitar uma velha relíquia do stalinismo: o campismo.
Campismo é como chamamos a antiga abordagem internacionalista criada pela burocracia da URSS para justificar suas ações (ou inações), bem como suas orientações para os PCs espalhados pelo globo. Agora, após o fim da URSS e do bloco socialista no mundo, o campismo se transformou em uma ideologia que reduz a complexidade de tudo que acontece hoje no mundo a uma mera disputa hegemônica entre dois grandes blocos, transportando a visão de mundo do séc. XX para o contexto atual. Assim, argumentam que há, de um lado, o campo tradicional do imperialismo, encarnado nos EUA, israel e na Europa, e, do outro, um suposto “campo progressista” formado por qualquer regime que se oponha aos EUA de alguma maneira, com seu expoente máximo sendo a China. Essa visão não é apenas limitada, mas enfraquece a possibilidade de organização internacional da nossa classe ao esconder as complexidades da luta de classes e subordinar os povos a lógicas alheias aos seus problemas e necessidades.
A escolha do mal menor não cabe aos revolucionários
Os recentes bombardeios cometidos por EUA e israel abrem um novo ponto importante de tensão não apenas no Oriente Médio, mas em todo o mundo. Diante da agressão com claras intenções exploratórias, nossa posição deve ser categórica e sem vacilações: defendemos incondicionalmente o direito do Irã de se defender das agressões criminosas do imperialismo ianque e de israel. É dever de qualquer anti-imperialista defender o direito de autodeterminação dos povos e condenar esses ataques. Ainda que diante da situação complexa que vive internamente o país persa, é fundamental compreender que nenhuma alternativa de melhora da vida do povo iraniano virá da guerra de rapina, de extermínio e de subjugação que leva adiante essas forças do imperialismo.
No entanto, defender o Irã contra uma invasão imperialista e o direito de que o país se defenda não pode ser confundido com um apoio cego ao regime iraniano, que persegue mulheres, massacra a comunidade LGBT e esmaga greves operárias. Desde o bombardeio e o início das agressões contra o Irã, é comum ver posições que acabam por confundir as duas coisas e definir que apenas está pelo direito do Irã se defender aqueles que defendem o atual regime. Esse não é um tipo de pensamento original, é justamente como opera o campismo.
Tal forma de compreender os acontecimentos e desenvolvimentos da luta de classes a nível global surge, como dissemos, da burocracia soviética. A análise do campismo esconde as complexidades das lutas de classes particulares de cada país, subtraindo-a das posições oficiais em nome de uma visão geopolítica de campos (daí o nome campismo). Na prática, a burocracia soviética, buscando sua auto-preservação como casta dirigente, compreendia que era necessário manter uma divisão do mundo em uma ordem bipolar que não levasse a um tensionamento sério capaz de ameaçar sua existência. Isso significou a divisão do mundo em grandes zonas de influência, preservadas inclusive por ação da própria URSS, que atuou sistematicamente para impedir a revolução em países da zona de influência norte-americana, como aqui em solo Latino-americano (lembremos que o PC cubano esteve a maior parte do tempo contra a Revolução de Fidel e Che, e que o PC boliviano abandonou Guevara e sua guerrilha e assistiu, inerte, à sua morte e desaparecimento, apenas para dar 2 exemplos).
Com o fim da União Soviética, implodida por sua casta burocrática dirigente, legou-se aos herdeiros de sua ideologia oficial a concepção de mundo do campismo. Estes confundem a necessidade de combater o imperialismo, denunciar suas agressões e defender o direito dos povos de resistir, inclusive através da luta armada, com a defesa de regimes não alinhados ao imperialismo ianque. A posição histórica dos marxistas, no entanto, não é essa. Os marxistas revolucionários historicamente denunciaram a guerra como uma forma brutal da burguesia de utilizar a classe trabalhadora como bucha de canhão em uma máquina de morte à serviço de suas disputas interimperialistas. Antes de tudo, o marxismo analisa as condições da luta de classe, suas contradições internas e sua conexão em um desenvolvimento histórico desigual e combinado a nível global. Ou seja, retira suas posições a partir das condições concretas da luta de classes para formular política que dê capacidade dos povos transformarem as guerras imperialistas em guerras de classe, isto é, da classe trabalhadora contra a burguesia.
Dizer isso significa afirmar, portanto, que a auto organização do povo iraniano é a única força capaz de resistir à ofensiva imperialista e, ao mesmo tempo, organizar a luta interna do povo iraniano contra o regime autoritário do país. Ao operar a lógica campista no caso iraniano, parte da esquerda acaba por deliberadamente rifar a luta democrática e justa do povo em nome do apoio ao regime. Em última instância, essa operação põe a esquerda como parte ativa da defesa das disputas interimperialistas, e não como pólo de apresentação de uma alternativa radical e apoiada na luta dos povos.
De um lado, os EUA. Do outro, a China?
Há, portanto, na lógica da análise campista, um pólo de influência geopolítica que contrapõe os EUA e o ocidente como projeto alternativo. Nos dias de hoje, esse pólo é representado nessas análises pela China e pela Rússia, aparecendo quase como herdeiras diretas do socialismo soviético. Parte inclusive desse campo vem defendendo que a China de fato é um país socialista. No entanto, casos como o do Irã voltam a colocar na ordem do dia o questionamento se de fato estes dois países representam alguma alternativa real frente ao imperialismo norteamericano.
Nesse sentido, o materialismo é para nós o método de análise da realidade que nos permite dizer que o modelo da China não representa uma ruptura com o modo de produção capitalista, mas uma integração específica à ele. A China hoje opera como uma potência imperialista própria, avançando sobre territórios como na África e na América Latina com uma lógica de exploração por vezes tão agressiva quanto a do imperialismo estadunidense. O caso Russo é também emblemático. A Rússia hoje, após a restauração capitalista operada pela burocracia soviética que pôs fim à URSS, opera uma disputa interimperialista frontal com os EUA e com a OTAN, representada de forma crua na guerra contra a Ucrânia. É, portanto, um erro estratégico acreditar que esses países são aliados dos povos oprimidos.
O caso Iraniano volta a revelar algo que já não é novidade para quem acompanha o cenário internacional. Nem Rússia nem China operam qualquer oposição prática real aos crimes e violações que vêm sendo cometidos pelos EUA e seus aliados. Para além de fracos posicionamentos diplomáticos, eles não utilizam seu aparato militar ou econômico para auxiliar Cuba, Venezuela, Palestina ou o Irã em uma perspectiva de libertação, mas sim para garantir seus próprios interesses mercadológicos e empresariais. As posições que ambos vêm adotando em todos estes casos é a típica de países que no cenário internacional jogam o jogo cruel do imperialismo: uma posição “pragmática” que busca, antes de tudo, assegurar seu lugar na disputa do mercado global, e nada além disso.
A correlação de forças, argumento tão utilizado pelo reformismo para justificar acordos com o agronegócio e às multinacionais no Brasil, é usado no plano internacional para nos convencer de que não há outra saída senão o apoio irrestrito a China e aos países que entram em uma disputa aberta contra os países imperialistas “tradicionais”. Mas, para nós, marxistas e revolucionários, a correlação de forças não é uma fotografia de um momento, é dinâmica e fruto da luta de classes. Aceitar a posição que o campismo impõe, escolher entre um imperialismo ou outro, é aceitar que a história acabou e que o que nos resta é apenas gerir o mal menor, aceitar que nossa classe já perdeu antes mesmo de começar a lutar. Nossa tarefa é romper essa paralisia.
O internacionalismo que defendemos não é o dos estados burgueses ou da burocracia, mas da solidariedade ativa entre os de baixo. Entre o imperialismo dos EUA e da China, ou entre a barbárie sionista e o autoritarismo do Irã, nós apostamos no surgimento de uma alternativa independente que ainda não está colocada, mas que surgirá de cada greve, de cada revolta feminista e de cada levante contra a exploração dos poderosos em qualquer lugar do mundo: será produto da organização da classe trabalhadora e não das falsas saídas impostas a nos.