Quando a mulher serve apenas como vitrine eleitoral
Reprodução: Instagram

Quando a mulher serve apenas como vitrine eleitoral

Michelle Bolsonaro, Fernanda Bolsonaro, esposas de pré-candidatos no Rio Grande do Sul… O que essas mulheres têm em comum?

Alissa Kalil 21 jul 2026, 11:36

Nas últimas semanas, algumas notícias chamaram a atenção por evidenciarem uma dinâmica que não é exatamente nova, mas que se torna cada vez mais explícita: a utilização da imagem das mulheres como estratégia eleitoral por setores da extrema direita. A extrema direita descobriu, há algum tempo, que precisa disputar o voto das mulheres. Mas, em vez de apresentar propostas para enfrentar a violência de gênero, ampliar direitos ou reduzir as desigualdades que atravessam a vida das trabalhadoras, aposta em outra tática: a construção de um movimento antifeminista liderado por mulheres.

O episódio envolvendo Michelle Bolsonaro ilustra bem essa contradição. Após se posicionar contra uma possível aliança entre o PL e Ciro Gomes no Ceará, Michelle relatou ter sido desrespeitada por Flávio Bolsonaro. Segundo ela, o senador afirmou que ela deveria ficar fora das decisões partidárias porque “havia chegado ontem e não entendia de política”. A declaração revela uma realidade difícil de ignorar: Michelle parece ter percebido que sua atuação encontra limites quando entra em conflito com os espaços tradicionalmente ocupados pelos homens dentro do partido.

Pouco tempo depois da repercussão do caso, outra movimentação chamou a atenção. Para reduzir o desgaste político, Flávio Bolsonaro passou a dar maior protagonismo à sua esposa, Fernanda Bolsonaro, que deverá atuar na aproximação com o eleitorado feminino, especialmente em pautas relacionadas à saúde. A estratégia está longe de ser um caso isolado.

No Rio Grande do Sul, reportagens recentes mostram que diversos pré-candidatos passaram a investir na participação de suas esposas durante a pré-campanha. Luciano Zucco (PL) e Gabriel Souza (MDB) intensificaram a presença de Joyce Zucco e Talise Souza em agendas públicas, redes sociais e atividades voltadas às mulheres. Em um cenário em que a maioria das candidaturas continua sendo masculina, a presença das esposas surge como um recurso para ampliar o diálogo com o eleitorado feminino.

Esse tipo de representatividade frequentemente vem acompanhado de um discurso fundamentalista e conservador, que enfatiza o chamado “papel da mulher”, a defesa da família tradicional e dos valores cristãos. Na prática, isso contribui para atrasar conquistas importantes para as mulheres como a discussão sobre os direitos reprodutivos e a legalização do aborto, reforçando uma visão machista sobre o lugar social da mulher. 

É nesse contexto que parte da direita costuma recorrer ao discurso de representatividade para afirmar que valoriza a participação de mulheres na política. No entanto, o que esses acontecimentos evidenciam, na nossa leitura, é algo que já apontamos há muito tempo: em setores da extrema direita, as mulheres frequentemente aparecem mais como instrumento de mobilização eleitoral do que como protagonistas com autonomia política. Em vez de terem espaço para formular posições, muitas vezes ocupam o papel de legitimar projetos conduzidos por homens.

É justamente por isso que, para nós, não basta discutir representatividade apenas pela presença de uma mulher em determinado espaço. A pergunta é: essa mulher tem voz? Tem autonomia? Ou está apenas reforçando um projeto político que continua concentrando o poder nas mesmas estruturas?

Esse debate também passa pela questão do antifeminismo. Quando movimentos atacam pautas feministas e os direitos das mulheres, o resultado costuma ser a manutenção de relações de poder em que as mulheres têm menos espaço para decidir sobre suas próprias vidas e sobre sua participação política.

Por isso, o caminho que defendemos é outro: a organização da classe trabalhadora ao lado da esquerda e dos movimentos sociais. Porque não basta apenas ser mulher ocupando um cargo; o que faz diferença é lutar, todos os dias, pela ampliação dos direitos e por condições concretas para que as mulheres tenham autonomia e liberdade real.


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