Da geração de indignados à geração Z: qual papel da juventude em um mundo em ebulição?
Comunicação Juntos!

Da geração de indignados à geração Z: qual papel da juventude em um mundo em ebulição?

Em um mundo sem revoluções, precisamos fortalecer uma esquerda radical para defendê-las

Fabiana Amorim e João Pedro de Paula 16 ago 2026, 18:42

Mesmo que nos últimos anos tenhamos nos (re)acostumado a conviver com um mundo de guerras, catástrofes ambientais e o ressurgimento do fascismo enquanto força política e social, vemos também que não é só barbárie que há no mundo. Com o marco dos 15 anos do Juntos nesse mês de julho, temos retomado discussões sobre de onde viemos – o ano de 2011, um momento de grandes mobilizações da juventude pelo mundo em resposta à crise e seus governos – e a tarefa histórica do surgimento do Juntos e da organização de uma juventude anticapitalista e internacionalista no Brasil, como parte das reflexões de uma geração marcada por crises e revoltas. Olhando em perspectiva, pode parecer que nossa situação só piorou. A crise climática era um elemento existente, mas discutido ainda como algo distante ou em alguns territórios específicos. Falar em fascismo era quase um debate sobre a história, o nosso manifesto fundacional sequer o citava. Afinal, não tinha o mesmo peso que possui hoje. Muita coisa mudou. 

Diante desses novos problemas que enfrenta nossa geração com o aprofundamento da crise, será que os anseios por “democracia real” como clamavam os jovens espanhóis foram esmagados? A intensificação do genocídio palestino demonstra que a juventude da primavera árabe foi derrotada? Analisar o que acontece hoje, 15 anos depois das grandes mobilizações no mundo que deram origem ao Juntos, não é mero detalhe diante de uma conjuntura complexa. Apostamos, que mesmo diante de mais intensos e violentos enfrentamentos, a geração Z demonstra que a juventude não está derrotada e segue disputando um outro futuro e planeta para viver. 

Um tempo acelerado e turbulento

Lenin ensinava que o tempo na política não é sempre igual. Existem momentos de calmaria. E outros em que turbulências são parte do cotidiano. Acreditamos que é nesse marco que nos encontramos, ainda que as revoluções não sejam mais a marca central da instabilidade. 

Desde a Guerra do Vietnã, não víamos um movimento internacionalista como a resistência Palestina proporcionou. Na década de 60, a guerra era entendida como um instrumento de dominação utilizado pelos EUA, com uma compreensão massiva de jovens que se recusaram a participar diretamente do conflito. Agora, com um genocídio em curso, não só fica explicito o papel de Israel, como houve um conjunto de iniciativas para atuar contra qualquer conivência com esse processo, formando uma geração de jovens na luta anti-imperialista. 

Estudantes organizaram em todo o mundo ações pela ruptura das relações com Israel, inclusive no centro do capitalismo, com acampamentos nas universidades. O ponto auge foi na Itália, com uma greve geral que paralisou setores econômicos importantes diante da proximidade da Flotilha Global Summud de Gaza, em pleno governo Meloni de extrema-direita. A repressão que ocorreu em alguns locais apenas trouxe mais descrença àqueles que governam a base da força. 

No Brasil, mesmo com mais dificuldades, o debate internacional se tornou algo cotidiano. Em parte, pelas ofensivas de Trump nos países vizinhos e nos ataques à nossa soberania regional. Mas um dos vetores é uma consciência anti-imperialista que está se forjando, do qual a bandeira da Palestina é um símbolo. 

A Geração Z

O termo faz referência àqueles que nasceram entre 1997 e 2010. Essa geração tem vivido um mundo muito diferente de seus pais. Mesmo com a popularização do acesso à educação superior em alguns países, como o Brasil, as perspectivas de vida têm sido piores. Um diploma não tem representado uma garantia de emprego, quanto mais com uma remuneração superior. O debate sobre a casa própria sequer existe. Conseguir um aluguel justo é o grande desafio, com as grandes cidades tomadas pela especulação imobiliária. Uma expectativa de melhora de vida que antes parecia possível, hoje é substituída pela desesperança e certeza de que as coisas só vão piorar. Esse sentimento não é à toa. Para responder à crise e seguir ampliando suas taxas de lucro, o capitalismo tem apostado na contrarrevolução econômica, ou seja, nas reformas neoliberais contra os direitos dos trabalhadores e no corte de gastos nas áreas sociais, ampliando a insegurança social.

Com poucas saídas, se reforça a ideia de que cada um precisa garantir o seu, por si mesmo, acima de tudo. O capitalismo em sua fase terminal estimula uma vida cada vez mais individualista, onde quase tudo é mediado pela tecnologia e pouco por laços sociais. Aliás, é justo no setor da tecnologia, com o desenvolvimento das bigtechs, que o capitalismo aposta sua cartada de recuperação da crise, aliado ao setor financeiro, às custas da exploração ambiental, da precarização do trabalho e das consequências psíquicas e ideológicas das redes sociais.

Mesmo quando alguns governos comemoram o crescimento de índices econômicos, como foi Biden nos EUA, ou como busca fazer Lula no Brasil, não significa que esses índices expressam uma melhora na qualidade de vida. Pelo contrário, no Brasil em especial o setor que cresce é o agronegócio a partir da venda de commodities, que nem mesmo empregam ou alimentam nosso país. Além de serem a principal ameaça ambiental que tem ampliado a expansão do gado e da soja para territórios como a Amazônia. 

Mesmo sem perspectivas, existem momentos onde o mínimo que possuem é retirado e a indignação se converte em força nas ruas. Mais recentemente, contrariando aqueles que acreditavam que apenas o fascismo ganhava força, a geração Z, em especial do sul global, tem demonstrado que os jovens seguem se revoltando contra a realidade imposta a nós. No Nepal, as mobilizações começaram a partir do bloqueio das redes sociais. Em Bangladesh, com um sistema hereditário de reserva de vagas para concurso público. No Quênia, com o aumento de impostos sobre bens básicos de consumo. Na Índia, com o vazamento dos exames nacionais de acesso às universidades. A partir de temas muito concretos, transbordaram lutas que passaram também a questionar governos, parlamentos, privilégios e a violência.

Como junho de 2013, pode haver a impressão que as multidões se formaram a partir dos “20 centavos”. Na verdade, se trata de um processo muito mais profundo de uma juventude que não aceita mais viver uma vida onde o sofrimento é normalizado. Entender isso é essencial para compreender que esses processos sociais são uma marca do período em que vivemos. 

Essas mobilizações não são um mero lampejo de luz que iluminam momentaneamente a consciência de uma geração. São reflexo de um sintoma que é parte estruturante do que é o capitalismo. A crise leva a retirada de direitos, que levam a mobilizações. Não significa que isso sempre vai acontecer, nem mesmo que sejam mobilizações com um programa definido, mas que apesar de toda tentativa do capitalismo pela individualização da nossa geração, as ruas e a luta coletiva ainda podem ser uma saída para milhões.

Mas porque ainda não vivemos revoluções?

Apesar de existirem essas grandes mobilizações, mesmo em condições mais difíceis, nossa geração ainda não assistiu revoluções como no século XX, onde efetivamente tivemos a tomada do poder pelos trabalhadores e povos oprimidos. A principal contradição do momento em que vivemos é justamente estarmos sob um sistema falido, mas sem condições ou referências reais para construção de uma sociedade alternativa. Essa constatação muitas vezes acaba levando à desesperança e a ideia de que o fim do mundo está mais próximo do que o fim do capitalismo.

Aqui entra a importância da organização e da construção de uma ferramenta política. Por isso o Juntos! tem como sua bússola o internacionalismo, tendo a IV Internacional como fio de continuidade de luta por esse projeto em todo o mundo. Acreditamos que acompanhar e fortalecer as experiências que acontecem no mundo são uma forma de fortalecer a luta não só nestes locais, mas onde nos fazemos presentes. A IV Internacional contribui com acúmulos que só uma organização internacional poderia ter. E por meio dela, fortalecer nossa ferramenta de juventude, o Juntos!, e o PSOL, no qual nos unificamos na defesa de um projeto ecossocialista para o Brasil.

Falamos do Juntos!, do PSOL ou da IV porque só haverá transformação de lutas democráticas ou econômicas em lutas anticapitalistas, que façam com que as lutas por reformas se transformem em lutas revolucionárias, se houver uma organização que dispute por um projeto total de sociedade, que unifique as lutas dos oprimidos pela juventude, por um país ou em todo o mundo.

Não achamos que a tarefa de superar a crise caberá a uma organização “iluminada”, que surgirá e irá organizar milhões ao seu redor. Muito menos achamos que o Juntos! ou a IV Internacional serão essa organização. Assumir essa expectativa é algo idealista ou mesmo arrogante. Superar a crise de alternativa é uma tarefa que cabe a uma geração, sendo  um desafio muito mais amplo. É uma tarefa que precisa ser assumida por multidões, ainda que dirigida pelos setores mais decididos. A questão é não se render ao desespero ou ao medo. É apesar de tudo de ruim que acontece, manter a cabeça erguida entendendo que as lutas seguirão acontecendo, em escalas até maiores, e que precisamos fortalecer ferramentas como o fio de continuidade entre esses processos. A bússola internacionalista nos mostra esse caminho.

Não há tempo a perder, é preciso ter pressa

Se tem uma coisa que é certa, é que não dá pra esperar sentado um levante de milhões de pessoas surgir no Brasil. Nós apostamos que haverão outros “junhos de 2013”, não temos dúvidas. As lutas da geração Z tem sido um exemplo disso, com processos recorrentes inclusive no mesmo país. Mas para que tenhamos condições de atuar para que essas lutas consigam ir além, temos que fortalecer o Juntos! e um conjunto de uma esquerda radical que combine urgência com paciência revolucionária.

Fortalecer nosso trabalho de base desde já é essencial para disputar uma parcela da juventude que está caindo nos braços da extrema-direita, sendo captada para uma ideologia redpill. As eleições que se aproximam no Brasil são um momento para isso. Queremos ser os mais entusiastas no enfrentamento à extrema-direita e na defesa da unidade para eleger Lula, sem expressar ilusões no que significa seu programa social-liberal, de uma esquerda que já se moderou há tempos. E nesse processo, preparar o terreno para o amanhã, onde possamos ter mais condições de falar para milhões de pessoas sobre a necessidade de uma revolução no Brasil e no mundo.

Por isso, em todo o Brasil, estaremos organizando comitês para organizar a juventude indignada ao redor de um projeto de esquerda radical, que compreenda o trabalho de base, a disputa das pessoas, especialmente no contato presencial, nas ruas, universidades, escolas e espaços de lazer, como o método para fortalecer uma alternativa. Queremos organizar panfletagens, mobilizações, pequenas e grandes reuniões onde for possível. Apresentando também a nova edição do Jornal Juntos, como forma de aprofundar nossa política àqueles que tiverem interesse em se organizar. Nos próximos 49 dias, estaremos em cada esquina, batalhando para que nenhum fascista assuma o poder e que nossos porta-vozes sejam eleitos, amplificando as ideias que defendemos. Fazemos isso, porque acreditamos que não só é possível como urgente. 


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