Há de se respeitar a luta dos estudantes de Psicologia!
Comunicação CAPSI UFMG

Há de se respeitar a luta dos estudantes de Psicologia!

O Centro Acadêmico de Psicologia articulou a formação acadêmica com as disputas políticas e sociais que atravessam o curso. Não estamos falando apenas de reivindicações administrativas, mas de questionar que Psicologia ensinamos, a serviço de quem produzimos conhecimento e quais relações sociais reproduzimos dentro da universidade.

O texto publicado recentemente sobre os rumos do Centro Acadêmico de Psicologia da UFMG apresenta uma série de críticas à atual gestão e propõe uma alternativa para a entidade. Consideramos importante que exista debate político sobre os caminhos do movimento estudantil, que diferentes projetos sejam apresentados e que os estudantes possam discutir coletivamente o futuro do nosso curso. Entretanto, não podemos aceitar que esse debate seja construído a partir de uma caracterização que desconsidera a história de mobilizações, conquistas e enfrentamentos protagonizados pelo CAPsi, construídos pelos estudantes de psicologia, com membros do Juntos! na linha de frente nos últimos anos. A história do movimento estudantil na psicologia da UFMG não começa a cada eleição, tampouco pode ser apagada para confundir e poder justificar a apresentação de um projeto político de autoconstrução.

O Centro Acadêmico de Psicologia articulou a formação acadêmica com as disputas políticas e sociais que atravessam o curso. Não estamos falando apenas de reivindicações administrativas, mas de questionar que Psicologia ensinamos, a serviço de quem produzimos conhecimento e quais relações sociais reproduzimos dentro da universidade. Negar a história e a atuação da entidade é um desrespeito sobretudo com quem esteve presente nas gestões, vale dizer abertas aos estudantes, que mobilizou para que essas conquistas fossem possíveis.

Nos últimos anos, o CAPsi esteve à frente de importantes lutas que transformaram a realidade da formação em Psicologia na UFMG.  A mobilização pela reformulação dos estágios e, nesse ponto, vale lembrar que até pouco tempo atrás a falta de vagas nos estágios obrigatórios era um dos maiores entraves para a formatura. Como a oferta de vagas era extremamente limitada, muitos estudantes acabavam travados no curso simplesmente por não conseguirem realizar a matrícula. Conquistamos a ampliação significativa do número de vagas e de opções de estágios obrigatórios oferecidos, eliminando esse gargalo histórico e garantindo que ninguém mais tenha sua formatura atrasada por falta de vaga! A luta pela retirada da prática de Psicopatologia I do Hospital Raul Soares, instituição historicamente marcada pela lógica manicomial que, durante muito tempo, foi palco das práticas da disciplina de Psicopatologia I – vale lembrar que nessas práticas chegavam a colocar até 15 estudantes dentro de uma sala para acompanhar a anamnese de um único paciente em surto psicótico. Além de violar gravemente o respeito e a dignidade dos pacientes em momentos de extrema vulnerabilidade, esse formato reproduzia lógicas violentas e violava os princípios da Reforma Psiquiátrica e da luta antimanicomial. – Após intensos debates com os professores e assembleias estudantis lotadas, conquistamos a retirada das práticas do hospital psiquiátrico e as transferimos para a RAPS (Rede de Atenção Psicossocial de Belo Horizonte), além da conquista do concurso para a contratação de uma professora para lecionar Psicopatologia sob uma perspectiva antimanicomial e articulada com a rede pública.

 Além disso, participamos ativamente da mobilização que teve como principal vitória a   contratação da primeira professora negra do Departamento de Psicologia. Essa mobilização se deu entendendo como a estrutura universitária historicamente segue reproduzindo o racismo institucional nos espaços de produção de conhecimento e docência. Durante quase 60 anos de história do curso de Psicologia da UFMG a ausência de docentes negros no departamento nunca foi um mero acaso, mas reflexo direto sobre um modelo de Psicologia alheio às lutas do seu tempo. Pautamos essa luta como prioridade central de mobilização, conquistando a alteração das diretrizes dos novos processos seletivos de contratação de professores e garantimos que os próximos concursos do departamento contassem, obrigatoriamente, com reserva de vagas para pessoas negras. O resultado concreto dessa luta histórica ocorreu em 2021, com a efetivação da primeira professora negra do nosso curso. Esses são só alguns exemplos de como a organização estudantil pode intervir concretamente na universidade.

Contrariando uma iniciativa da extrema-direita em paralisar e atacar o direito das mulheres, fomos parte orgulhosamente do fomento e construção da coletiva feminista Suraras, que arrastou muitas estudantes da psicologia para articular a luta contra o assédio e a cultura do estupro no curso e na UFMG. Convidamos todas as estudantes a serem parte desse espaço de base e legítimo de organização das estudantes no nosso curso. A construção da coletiva feminista foi uma iniciativa fundamental, criando um espaço de auto-organização de estudantes, acolhimento e enfrentamento às violências de gênero, chegando a organizar mesa de debate, reuniões periódicas, materiais de divulgação no curso. Sua existência não foi resultado de uma decisão organizativa isolada, mas de um processo coletivo que envolveu estudantes com diferentes experiências e posições políticas, para além da construção da gestão da entidade, ainda que fomentada por ela. 

Como todo processo de organização, a coletiva enfrentou divergências. Parte dessas divergências esteve relacionada às possibilidades de articulação e obtenção de apoio financeiro, junto à PRAE, para a impressão de uma cartilha anti-assédio construída e dirigida de forma independente pela coletiva, a partir dos acúmulos coletivos, para as estudantes de psicologia. Integrantes da Faísca Revolucionária, ao terem o voto vencido, porque não queriam apoio financeiro da PRAE, optaram por se retirar da coletiva diante dessas discordâncias. Entretanto, entendemos que a construção de espaços coletivos exige disposição para lidar com diferenças e encontrar caminhos comuns, sem transformar divergências políticas em impedimentos à continuidade da organização. É necessário maturidade e consequência para construir algo além de nós mesmos ou de nossa organização política, coisa que, quando a Faísca teve possibilidade, se ausentou por sectarismo. Poderíamos citar, como vimos no texto intitulado “Por um Capsi vivo e independente do governo para impulsionar a auto-organização dos estudantes” o conjunto das ações que o Juntos! como organização política construiu internamente: grupos de estudos, reuniões, projetos de pesquisa, mas temos mais a apresentar uma vez que compreendemos as entidade estudantis como espaço de acúmulo próprio e coletivo dos estudantes e não como mero instrumento de agitação e reprodução de si.

Não podemos aceitar que uma experiência de construção coletiva seja simplesmente caracterizada como burocratizada ou restrita puramente por discordância política sobre como devemos lidar com a estrutura da universidade. Se o faísca acredita que os espaços existentes e deliberativos da universidade devem ser esvaziados, que o digam de forma nítida ao conjunto dos estudantes. 

Da mesma forma, compreendemos que a universidade não se constrói apenas dentro das salas de aula e no cumprimento do nosso percurso curricular obrigatório. Em diversos momentos a entidade esteve a serviço de uma disputa de movimento estudantil que arrastou o conjunto da universidade. Fomos linha de frente na defesa das festas após o retorno presencial da pandemia, recuperando espaços de convivência, integração e socialização que também fazem parte da experiência universitária, fizemos a ocupação cultural no CAD 2 mesmo com a coerção da reitoria. Podemos dizer que foi o CAPSI a principal entidade responsável por uma retomada das festas na UFMG. Defender o Centro Acadêmico significa defender tanto sua capacidade de mobilização política quanto sua função de garantir espaços de encontro e organização dos estudantes. 

Nossa atuação também esteve presente nas mobilizações gerais da UFMG. Em 2024, o CAPsi foi a primeira entidade a puxar a greve estudantil, contribuindo para organizar a luta em defesa da educação pública. Durante esse período, construímos atividades em articulação com trabalhadores da educação e outros setores da universidade, reafirmando que a luta estudantil não pode estar separada das condições de vida e trabalho da classe trabalhadora.

Também estivemos na linha de frente da defesa dos espaços de organização estudantil. Quando a diretoria da FAFICH impôs restrições à autonomia do espaço físico do Centro Acadêmico e determinou o fechamento de sua sala, ocupamos o espaço para impedir que ele fosse retirado dos estudantes. A ocupação de 2024 não foi uma disputa burocrática sobre a utilização de uma sala. Foi uma luta pelo direito à organização política, à autonomia das entidades estudantis e à preservação de um espaço construído coletivamente. A ocupação contou, inclusive, com manifestações públicas de solidariedade de entidades como o ANDES-SN e de parlamentares como a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP).

Independência política e compromisso com a realidade

Outro aspecto que merece discussão é a defesa de um CAPsi independente dos governos. A independência política do movimento estudantil é fundamental. Precisamos de entidades capazes de enfrentar governos, reitorias e administrações universitárias sempre que suas políticas atacarem os direitos dos estudantes e trabalhadores.

Entretanto, independência não significa isolamento, tampouco oposição automática a qualquer iniciativa institucional. Nós não negamos os espaços que existem na universidade e nem na realidade brasileira, tampouco aceitamos ou ausento os limites que eles representam.

A experiência eleitoral de 2026 e o financiamento da PRAE na Cartilha do Suraras demonstraram a importância dessa compreensão. Diante da ameaça do retorno do projeto bolsonarista à presidência, foi necessário construir uma ampla mobilização para derrotar Flávio Bolsonaro nas urnas e nas ruas. Isso significava reconhecer a importância do voto em Lula, sem abrir mão da autonomia política que vai precisar seguir sendo afirmada nos próximos anos que terão desafios difíceis na defesa do orçamento da universidade e, ao mesmo tempo, no combate ao Senado e Congresso mais conservador da nossa história. O coletivo da Faísca Revolucionária não teve nem a capacidade de pedir votos para o Lula no segundo turno, se limitando a uma defesa abstrata de ‘’nenhum voto na extrema-direita’’ por tamanho sectarismo e irresponsabilidade, em um contexto em que era Lula o instrumento capaz de barrar esse projeto. Não à toa, no segundo semestre, o CAPsi e o conjunto do movimento estudantil se debruçaram nas ações de debate e vira voto na campanha eleitoral. 

Não defendemos subordinação a governos e não vamos silenciar frente à escolha possível do governo em ouvir as pressões do mercado. Defendemos a independência necessária para lutar pela educação, pela saúde, por direitos, construir mobilizações e enfrentar os ataques à classe trabalhadora. Mas essa independência precisa estar acompanhada de uma leitura política que privilegia a capacidade de organização do povo e dos estudantes e não em um denuncismo que aponta apenas a construção de si mesmo em uma realidade multifacetada.

Ignorar as vitórias do passado não ajuda em nada a apontar um futuro

A apresentação de propostas para o futuro do CAPsi é legítima e necessária. Precisamos ampliar a participação estudantil, fortalecer as assembleias, construir espaços permanentes de discussão, melhorar a comunicação da entidade e garantir que estudantes de todos os períodos encontrem no Centro Acadêmico um instrumento de organização.

Também precisamos avançar na luta pelo curso noturno, pela ampliação das bolsas de permanência, pela remuneração das atividades de pesquisa e extensão, pela melhoria das condições de estágio e pelo enfrentamento à precarização da formação. Essas são pautas fundamentais para uma universidade verdadeiramente pública, popular e comprometida com as necessidades da classe trabalhadora.

Mas nenhuma dessas propostas deve ser apresentada como se não existisse uma trajetória anterior de mobilização e organização! 

Acreditamos em um Centro Acadêmico democrático, plural, combativo e independente, que esteja presente nas lutas do curso e da universidade. Uma entidade que não se limite à representação institucional, mas que seja capaz de organizar estudantes em torno de suas necessidades concretas, construir articulações com os movimentos sociais e defender uma formação em Psicologia comprometida com a emancipação humana.

Sabemos que ainda há muito a fazer. Nenhuma gestão deve se considerar acima das críticas ou acreditar que suas conquistas são suficientes. Mas também não podemos aceitar que anos de mobilização sejam reduzidos a uma narrativa de abandono e ausência de organização.

A história do CAPsi é feita por estudantes que ocuparam salas, organizaram greves, enfrentaram a administração universitária, reivindicaram mudanças curriculares, construíram espaços feministas, organizaram festas e defenderam uma Psicologia comprometida com a luta antimanicomial e com a transformação social.

É preciso ter disposição para organizar, mobilizar, enfrentar contradições e construir coletivamente, mesmo quando os caminhos não são simples. 

É essa experiência que queremos preservar e aprofundar. Não se trata de defender uma gestão por ela mesma, mas de defender uma história de organização estudantil que pertence ao conjunto dos estudantes de Psicologia. 

O CAPsi precisa continuar sendo um instrumento de luta, formação, convivência e organização política. Um espaço que não se acomode diante das conquistas, que não abandone suas pautas e que esteja sempre disposto a construir novas mobilizações. 

Porque um Centro Acadêmico vivo não é aquele que apenas anuncia as lutas que pretende fazer. É aquele que está presente quando elas precisam ser construídas sem negar os espaços possíveis de serem avançados na universidade!


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