A juventude pelo todo – #contraoaumento

15/fev/2011, 14h31

por Gabriel Lindenbach,  estudante de geografia e diretor do CEGE e do DCE-Livre da USP

Há quase 2 meses, como resposta ao aumento abusivo da tarifa de ônibus na capital paulista, o Movimento Passe Livre tem organizado intervenções populares nas ruas: Os Grandes Atos.

No dia 13 de Janeiro de 2011, éramos 600 que marchavam pelo centro da cidade, do Teatro Municipal à Camara dos Vereadores. Tudo corria bem, quando, passando pela Secretaria da Educação, fomos duramente reprimidos por cerca de 40 policiais, suas bombas de efeito moral e de gás de pimenta.

À revelia do boicote que sofremos por parte grandes mídias ou de suas manipulações, esse evento foi, penso eu, fundamental para os rumos da mobilização que construímos na cidade: No ato seguinte, 3 mil pessoas percorreram de ponta à ponta a Avenida Paulista, num ato pacífico e cheio de conteúdo.

As três quintas feiras seguintes não deixaram a desejar: Continuamos juntando milhares de estudantes, trabalhadores, entidades estudantis e representantes de comunidades carentes de bairros periféricos de nossa cidade.

Com esse processo de mobilização intensa, conseguimos uma primeira grande vitória: Uma Audiência Pública na Câmara dos Vereadores de São Paulo, com a presença do Secretário de Transportes, Marcelo Cardinale Branco. Conquistamos um espaço onde seríamos informados sobre os reais motivos para o aumento exagerado da tarifa.

Na manhã de hoje, dia 12 de Fevereiro, cerca de 500 pessoas compareceram à Câmara. Dentre todos, aproximadamente 150 puderam entrar. Fomos rigorosamente revistados, separados em grupos de 10, para, em seguida, seguir rumo ao Plenário.

Durante as 04 horas de audiência pública, fomos tratados ora como moleques, inferiores e egoístas, ora como burros e cegos.

De um lado, o presidente da câmara, José Police Neto (PSDB), e o vereador Carlos Apolinário (DEM) não tiveram papas na língua, e freqüentemente faziam sinais com a mão pedindo “menos, menos”, como quem acha desnecessária a intervenção do povo no andamento da audiência, nos chamando, inclusive, de moleques irresponsáveis e egoístas, ameaçando chamar a Polícia Militar para nos retirar do local, caso as intervenções continuassem “de baixo nível”.

De outro, ficou claro o oportunismo da bancada do PT e do PCdoB. Não tardaram a criticar o governo DEM/PSDB, a fazer denúncias que sim, são um escândalo, sobre a provável corrupção que acontece na Secretaria de Transportes, sobre a privatização dos serviços de transporte público, mas que tinham o intuito de ganhar simpatia e espaço frente à juventude ali presente, pensando que somos burros: Sabemos que pelo Brasil afora, cidades administradas por esses partidos também sofrem com o aumento-escândalo das tarifas do transporte público, e que durante o governo Marta Suplicy frente à prefeitura de São Paulo as privatizações foram mantidas e outras avançaram.

De ambos os lados, não era incomum ver os vereadores usando o celular ou em conversas paralelas durante as intervenções do Movimento e da Sociedade Civil Organizada.

Branco, o Secretário de Transportes, em suas intervenções , mesmo fortemente pressionado por muitos vereadores e pelos 150 estudantes ali presentes, não nos deu nada de concreto. Leu uma planilha cheia de números e preços que justificavam , segundo sua visão, como era necessária e plausível tarifa de R$3,00, baseando-se em preços superfaturados de Diesel, pneus, e justificando que a sociedade tem que pagar pela gratuidade (integral ou parcial) dos serviço que recebem idosos, deficientes e estudantes.

Em represália à falta de respostas que tivemos, eu, junto das 100 pessoas que estavam acomodadas no mezanino, entramos na parte central da Câmara, junto com os outros 50 de nós que tinham direito a fazer falas, e dissemos que, sem uma agenda de negociações, não sairíamos de lá.

A Polícia Militar interviu, causando um grande tumulto, com empurrões, estudantes caindo. A transmissão ao vivo da TV Câmara foi cortada imediatamente. Todos os microfones desligados. O Secretário de Transportes deixou o local às pressas, mas a saída da garagem da Câmara dos Vereadores foi fechada pelas 350 pessoas que aguardavam do lado de fora do prédio.

Depois de cerca de 40 minutos discutindo com o presidente da câmara, conquistamos outra vitória: Na semana que vem haverá uma outra audiência pública, dessa vez no formato de uma mesa de negociação, onde os parlamentares vão continuar a intermediar o diálogo entre os manifestantes e o poder público. Uma vitória que é nossa!

Em primeiro lugar, eu gostaria de parabenizar especificamente o MPL, o DCE Livre da USP e o DCE da UNESP/FATEC, Centros Acadêmicos da USP e da Uni Sant’Anna, A Poligremia Estudantil e os Grêmios Estudantis das escolas de São Paulo que estiveram presentes e todas as pessoas que estiveram nas ruas nos últimos 2 meses.

Mas, em especial, me dá muito orgulho ver que cada vez mais a JUVENTUDE percebe o quanto é importante e necessário estar por dentro do que acontece ao seu redor, o quão importante é ser protagonista nessas lutas pelas mudanças que nós queremos na nossa sociedade. A cada dia que passa, mais jovens estão politizados e vem às ruas, pessoas que sabem que esse aumento abusivo não é um fato isolado! Que ele faz parte de um PROJETO DE SOCIEDADE que se afasta das pessoas! Que aumento dessa e de outras tarifas, no Brasil todo, de outros impostos, estão ligados com o aumento absurdo do salário dos deputados e da nossa presidente, com os recordes de lucros das empresas Multinacionais. Juventude que não é egoísta, ao contrário do que fez questão de colocar o Vereador José Police Neto. O passe livre  que queremos não é só para os estudantes! Nós representamos os anseios dos trabalhadores! Durante às últimas 5 semanas assistimos e sentimos o apoio que a população nos dá! Nossa luta é pelo DIREITO de ir e vir de todo e qualquer cidadão.

Cada vez mais essa geração tem a coragem de pensar criticamente a sociedade, que não naturaliza o que nos foi imposto, que luta porque SABE que um outro futuro é possível! Isso está acontecendo aqui no Brasil, em escala menor, mas também acontece na Argentina, em Honduras, Portugal, França, na Tunísia e no Egito!

Eu tenho muita confiança nessa juventude que aprende que somente unida vai conseguir conquistar essa e outras vitórias, outros direitos

“AMANHÃ VAI SER MAIOR!”