Direto de Salvador: sobre a greve da polícia

04/fev/2012, 16h52

* Linnesh Ramos e Isabel Moraes

Dia 2 de fevereiro, dia de festa de Iemanjá na capital baiana, eu — Linna, me preparava para encontrar o companheiro do Juntos RS, Lucas Boni, na marcha do ENUDS. Já tínhamos a notícia que a PM havia entrado em greve, mas o clima na cidade ainda não tinha apresentado seus sintomas mais fortes da barbárie. Afinal, o Governo teria o total descaso com a sociedade num dia tão importante para o calendário baiano? E a resposta veio aos poucos, quando sabíamos por noticiários, ou amigos vítimas de assaltos que o “bixo tava pegando!” Fiquei impossibilitada de sair de casa sozinha, como num dia normal. O centro da cidade estava sendo palco de arrastões e saques. E a situação só piorou desde então.

Não demorou muito e a barbárie se instalou na capital baiana. Foram mais de 35 homicídios nesses quatro dias de greve, segundo informações dos jornais locais. No interior, os policiais militares de algumas cidades aderiram à greve, e o clima de tensão aumentou por todo estado. Feira de Santana (segunda maior cidade do estado, a 100 km da capital) estava irreconhecível! Normalmente viva e ativa, agora tinha suas ruas vazias devido à violência. Ônibus pararam de rodar; o comércio fechou depois de uma série de assaltos; escolas e faculdades suspenderam suas atividades, enfim, a situação era geral!

A insegurança se instaura entre os cidadãos baianos. De quem é a culpa? Dos policiais em greve? Ou do Governo Petista de Jaques Wagner que se recusou a negociar com os grevistas? No pronunciamento oficial, o governador pediu confiança, e afirmou que está tomando medidas cabíveis para garantir a segurança. Agora nos perguntamos, por que não atende as reivindicações da categoria, que é uma das mais mal pagas do Brasil? Estes policiais esperam há 15 anos o plano de carreira, o governo não paga a Insalubridade nem o Auxílio Acidente e Periculosidade, dentre outras reivindicações justas de qualquer trabalhador. Em troca, chama a Força Nacional para conter a onda de assaltos e saques que toma conta do estado e repreende policiais que se negaram a bater nos colegas fardados!

A responsabilidade dessa situação na Bahia, é culpa do Governo antidemocrático e repressor! Lutar não é crime! O impressionante é que, na sua campanha, Jaques Wagner se utilizou massivamente do seu passado como sindicalista (e supostamente teria um bom diálogo com os trabalhadores , ao contrário do governo carlista anterior) e agora se recusa tão veementemente a negociar, mesmo em uma situação de emergência. O governo tem sim, condições de atender a pauta dos policiais e, além disso, proporcionar medidas que realmente assegurem a dignidade da população baiana. Temos um dos maiores PIB do país, e estamos localizados no maior bolsão de miséria da América Latina. Esse governo já mostrou pra que veio. É só lembrar como o mesmo tratou a educação do Estado, não atendendo as reivindicações dos professores. O que mais esperar?

Agora, grupos de milícias saem “tocando o terror” na cidade, e a grande mídia vendida ao governo, noticia que estes sãos os métodos dos policiais em greve! Sabemos que os policiais nem sempre são bem vistos, isso devido ao método bruto que “propagam a paz” nas periferias, da forma como agem nas reivindicações dos movimentos sociais e também pelo alto nível de corrupção que há nesta categoria. Mas, não nos deixemos enganar, vivemos cheios de contradições, e estes mesmo policiais falam da falta de condições de combater sozinhos, o crime. Crime que é resposta da falta de política pública que garanta educação, saúde, lazer, transporte, moradia e emprego! Perguntamos novamente: de quem é a culpa?

Nós como jovens militantes nos solidarizamos com a luta dos policiais! Lembram da nossa palavra de ordem: “você aí parado, também é explorado”? Policial também pode entrar em greve! Eles também tem o direito de lutar! Jaques Wagner, faça um favor à sociedade e atenda as reivindicações dos trabalhadores! Sabemos que esta é só uma prévia do que acontecerá no carnaval e na Copa! Mas prometemos manter o nosso estado de alerta, nos organizando para também lutar pelo direito à segurança, saúde, transporte e educação!

Não à criminalização da luta!

Pelo imediato atendimento às reivindicações justas da categoria!

Linnesh Ramos é militante do Juntos! BA e Isabel Moraes é estudante secundarista de Feira da Santana/BA

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017