Aumento das passagens: prefeituras contra o povo

13/mar/2012, 17h29

* Dante Peixoto

Já não é mais surpresa pra ninguém, o teatrinho é quase sempre o mesmo: marcam uma reunião laranja com a população, estudantes e mais uns que serão afetados e em épocas tipo natal, ano novo ou carnaval sobem a passagem do transporte coletivo com justificativas mil, muitas desencontradas e até mesmo impossíveis de atestar a veracidade.

Em São Carlos não foi diferente: dia 26 de dezembro, a passagem subiu para 2,65. Não se viu um ônibus novo nas ruas, não se viu um trabalhador da empresa comemorando aumento em seus vencimentos, não se viu uma melhoria concreta na prestação dos serviços e muito menos se viu um incremento na renda percápita.

O filme é o mesmo que em diversos outros locais. Com certeza dezenas, talvez centenas ,de cidades passem pelo mesmo ciclo. Acontece que em São Carlos, os cidadãos indignados, que no dia-a-dia têm batalhado por uma democracia real e profunda, se organizaram e formaram o movimento “Transporte Justo”, que se iniciou com uma motivação clara, a revogação imediata deste aumento descabido, abusivo e injusto.

Mas para além da luta mais óbvia contra o aumento, o movimento vem ganhando proporções decisivas para a cidade, reavivando um debate que tem contornos imprescindíveis para uma real democracia no meio urbano.

Isso, pois a questão do transporte público pode ser motor da redução de diversas mazelas que a população passa no dia-a-dia, do aumento das possibilidades das pessoas, do acesso às atividades que ocorrem nas diversas localidades, afinal, as coisas só existem plenamente caso sejam acessíveis.

Uma escola pública é menos pública caso seu acesso seja limitado por uma teia de transporte ineficaz e, sobretudo, cara. Uma sessão pública de música, uma praça, um teatro, uma vaga de emprego, tudo sem uma política de transportes que vise igualar as condições entre os cidadãos tem em si um funil que é determinado pela possibilidade das pessoas em chegar até o local onde estão ocorrendo as atividades.

Além disso, a cidade de São Carlos, mais uma vez como muitas outras, passa hoje por um processo de incremento frequente de veículos particulares no trânsito, tendo a prefeitura já se manifestado dizendo que não se pode mais viver na cidade sem um plano de mobilidade, pois a hora do rush virou o dia inteiro de rush.

Entretanto, ao invés dessa questão pesar na decisão do que fazer com o transporte coletivo, e até mesmo, em pensar formas de diversificar os modais de transportes na cidade (mototáxi, vans, ciclovias, etc.) a decisão mais notável que o poder público tomou para a cidade foi aumentar a passagem do ônibus. Um incoerência sem tamanho que não pode encontrar justificativa no pensamento de uma cidade efetivamente voltada para quem mora e vive nela, mas faz sentido para quem faz dinheiro com ela.

Isso é, portanto, questão central para trabalharmos na luta por uma democracia real, não há como admitir que a prefeitura paute suas decisões sobre esse assunto analisando uma planilha de gastos e lucros de uma empresa privada.

É ai o momento em que nos deparamos claramente o estado comprometido com os 1% que exploram e mantém sem direitos os 99% que sustentam o mundo.

Daqui podemos dizer que não vamos parar esse movimento tão cedo. Estamos em uma busca de documentos que embasaram as últimas decisões da administração pública sobre as tarifas e qualidade do serviço de ônibus e em breve vamos soltar um dossiê do movimento com os principais pontos problemáticos (que não são poucos).

Além disso, temos uma exigência clara, que tem ganhado força e tem dado caldo para todos os demais debates: 2,65 é um absurdo completo. E a prefeitura sabe disso, como sabe também que, pra começar, caso a passagem não abaixe, é inevitável, a cidade vai parar.

* Dante Peixoto é militante do Juntos! e do PSOL São Carlos

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