Dia de Iansã: a orixá feminista

06/dez/2012, 11h41

Luísa Côrtes*

Ontem foi o dia do despertar das mulheres. O dia 4 de dezembro é vermelho vibrante, com uma voz forte, presença intensa de Iansã, Oyá, a orixá feminina que é a encarnação do desejo, da potência, do sentimento. Diante de uma sociedade que mascara o machismo e os rituais de subordinação das mulheres, que permanecem sofrendo desigualdades nos ambientes domésticos e de trabalho, Iansã foge de todas as amarras.

Enquanto na religião católica, a figura feminina é representada pela pureza das santas, a deusa sagrada da Umbanda e Candomblé é indomável, sedutora, provocativa, compra briga, faz trovoar. É impossível conhecer uma mulher de Iansã que não marque presença, que não modifique o ambiente. A deusa guerreira vai para a briga em busca da vitória, não teme nada, no entanto, faz muitos a temerem. Apesar do jeito difícil e pouco maleável, Oyá não perde a sensualidade e conquista o coração de muitos ao redor, o que gera ainda mais insegurança dos outros que não compreendem o tamanho poder de sedução da rainha dos céus.

Atualmente, a ausência de Iansã é percebida no gênero feminino. As mulheres são submetidas a múltiplas violências – a maioria silenciosa – e veem seus movimentos de desejo paralisados, sendo restritas e territorializadas nos papeis de mãe e de esposa. Assim, a mulher acaba habitando a sombra do marido, sendo vista como um objeto de desejo que deve ser conquistado, como alguém que deve seguir um padrão, deve despertar o interesse do homem para, assim, poder se realizar afetivamente. Os homens, por sua vez, sempre ficam no papel de poderosos, que podem escolher as “suas presas”, conquistá-las, usá-las, em uma dinâmica desigual e machista. Neste momento, entra em cena a segurança de Iansã, que não aceita ser subordinada, que cria a situação sem se abalar. As mulheres do dia 4 de dezembro não dependem de homem nenhum, agem sozinha, falam o que pensam, sem se limitar aos padrões sociais.

Em um modelo de sociedade patriarcal, em que o sistema masculino de opressão das mulheres permanece de forma disfarçada, há uma urgência da presença de Iansã. A senhora dos ventos e das tempestades precisa penetrar em todas as mulheres. Com a sua firmeza e valentia, ela consegue defender os seus princípios e seu espaço. Já com a sua doçura, dança e sensualidade natural, Iansã representa uma mulher de personalidade forte, sedutora e atraente. Oyá é feminista e feminina, vaidosa e bruta, doce e valente: é a orixá que expressa a dualidade, a contradição, sem se entregar às convenções.

*Luísa Côrtes é jornalista e carioca. Texto originalmente postado no blog de Luísa, Mais Um Na Tela