Não Cadiveu, eu não preciso de você.

15/jan/2013, 13h43

*Por Winnie Bueno 

   Quando eu era pequena, assim bem menina, eu usava meu cabelo trançado. Preso. Tinha pânico de ir para escola sem estar trançada, ainda que minha mãe sempre tenha trabalhado e muito na construção da minha identidade, enquanto uma mulher negra, eu tinha muito problema com o meu cabelo afro. Na adolescência passei a usar o cabelo solto as custas de muita química(hidróxidos de sódio, guanidinas e por aí vaí) e muito cabelo perdido, até finalmente entender que eu só poderia mudar a minha história, das minhas primas e das minhas futuras filhas quando eu me libertasse, quando eu fosse livre da ditadura do cabelo liso.

Imaginem então, minha indignação, quando eu me deparo com uma foto de uma empresa de cosméticos na qual uma menina branca, utilizando uma peruca afro, carrega uma placa que diz: eu preciso de Cadivéu. Em tempos de Facebook, onde milhares de jovens negras estão construindo sua identidade e com muita dificuldade passam a compreender que não precisam alisar os cabelos, que não precisam mais das marcas de ferro da chapinha para estarem bem consigo mesmas.

 

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A Cadivéu prestou um desserviço às mulheres com essa propaganda. A Cadivéu demonstrou em uma foto o quanto o racismo tem lucrado à custa da autoestima das mulheres negras. Demonstrou o quanto os padrões de beleza que são europeus e impõe até mesmo às mulheres negras que estão na mídia um padrão caucasiano, de traços brancos e cabelos que não são naturalmente seus, se utiliza das nossas angústias para lucrar. Não é um problema que as meninas negras queiram ter os seus cabelos lisos, o problema é quando isso se torna uma imposição. O problema é quando a única maneira de se entender bela é com o cabelo esticado. O problema é quando meninas entram em pânico por estarem com seus cabelos ao natural, o problema é ter que fugir da chuva com medo de revelar a real essência do seu cabelo.

O meu cabelo tem uma história, carrega na raiz as marcas de um povo guerreiro, meu cabelo, assim como eu, é livre, indignado e tem vida. Não precisa das marcas da chapinha assim como o meu corpo não precisa das marcas de ferro da escravidão. Digamos não aos Cadivéus que insistem em nos aprisionar. Somos cabelo duro, somos criolas doidas, somos black-power.

 

*Winnie é estudante de Direito da UFPEL e militante do Juntos.

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