Levante juvenil e popular no Brasil: o gigante acordou!

04/jul/2013, 15h59

* Nathalie Drumond e Ib Sales Tapajós

Junho de 2013, mês da Copa das Confederações, entrou definitivamente para os livros de História do Brasil. Não por conta da copa, mas sim pelo inédito levante popular e juvenil que mudou completamente a agenda de debates do país. Como se diz nas ruas, “o gigante acordou”. O imenso povo brasileiro saiu às ruas, expressando com toda força sua indignação. Uma indignação marcada, sobretudo, pelo descontentamento com a ordem política no país, com sua superestrutura burocrática e inacessível à maioria do povo. Saiu-se às ruas também em defesa de melhores condições econômicas e sociais de existência, a gota d’água para toda a insatisfação foi o aumento do valor da tarifa do transporte público.

A batalha das tarifas

O estopim dos protestos foi o aumento da passagem de ônibus, que levou às ruas das principais capitais milhares de jovens indignados com a política dos governos de jogar para a população a conta da inflação. Primeiro em Porto Alegre, depois em Goiânia, a juventude, com seus atos radicalizados e massivos, derrubou o aumento das passagens. Quando a onda chegou a São Paulo, o processo se nacionalizou. Após seguidos atos reunindo milhares, o governo do Estado (do PSDB) e a prefeitura (dirigida pelo PT) ordenaram à Polícia Militar de São Paulo reprimir brutalmente os manifestantes. O mundo conheceu as imagens terríveis da intervenção violenta da polícia, transformando a cidade de São Paulo num cenário de guerra civil, no dia 13 de junho. Isso não calou a juventude, que, de forma organizada e coesa, levantou a cabeça. Inúmeros atos passaram a ser organizados em todo país em solidariedade aos paulistanos, nacionalizando a luta contra o aumento das tarifas.

O dia 17 de junho expressou a resposta política da juventude, da classe trabalhadora e de setores da classe média contra a truculência dos governos e da Polícia. As passeatas de 120 mil pessoas em São Paulo e mais de 100 mil no Rio de Janeiro, as duas principais capitais do país, confirmaram que o Brasil vive um novo tempo. Neste dia, ao todo, foram 500 mil pessoas nas ruas, de norte a sul do país. A força das ruas virou a maré e forçou uma mudança de postura da Polícia em várias cidades, como São Paulo. Dois dias depois, os prefeitos e governadores de ambas as capitais – bem como de algumas cidades menores – anunciaram a redução do valor das tarifas. Uma grande vitória para a população brasileira!

Mesmo assim, após o anúncio da redução, o dia 20 foi ainda maior! Nesse dia o Brasil parou, com mais de 2 milhões de pessoas indo às ruas de todos os estados do país. Desde as grandes metrópoles como Rio de Janeiro (que reuniu mais de uma 1 milhão), até cidades pequenas e médias, como Santarém no Pará, o grito de rebeldia dos brasileiros foi intenso. Aqui, as pautas já iam muito além das tarifas e do transporte coletivo. Inúmeras reivindicações democráticas e sociais tomaram as ruas, colorindo as manifestações. Após esta grande manifestação, passaram a ocorrer grandes atos também nas periferias das principais cidades, onde a população se somou à luta contra a velha ordem política, mas também por melhorias na saúde, educação, saneamento básico e no transporte público.

A atual geração virou a maré

As manifestações de junho de 2013 entraram para a História como uma das maiores que o Brasil já viu, comparáveis à luta pelas “Diretas Já”, que pôs fim a ditadura militar no país.

A força dos protestos de junho impôs aos prefeitos – que de início colocaram a polícia para reprimir os jovens – terem que entregar seus anéis para não perderem os dedos!

No entanto, as vitórias na luta das tarifas ocorridas em várias cidades não encerraram o processo de luta. As passeatas seguem firmes. No geral, menores que as do dia 20, mas mantendo um fôlego e uma expressiva parcela da juventude mobilizada. Agora as bandeiras são múltiplas. Desde a luta por serviços públicos essenciais, como saúde e educação, até o combate à corrupção, passando pelas bandeiras democráticas dos movimentos de mulheres e LGBT’s. Um verdadeiro movimento democrático tomando as ruas! Os governantes estão na defensiva, agora é hora de mais conquistas.

A polêmica do apartidarismo

Um traço marcante desse levante nacional é a indignação das novas gerações com a velha política brasileira. Parte da crise política se expressa na negação das organizações partidárias. O povo no geral não vê diferença entre as diversas siglas. A traição do Partido dos Trabalhadores, consolidada com a chegada de Lula ao poder em 2002, é um dos motivos centrais nessa negação dos partidos. O povo já não confia mais em ninguém. Muitos setores da massa acabam identificando na própria forma partido o principal problema para a luta política.

A direita, que tenta também disputar os rumos do movimento, se aproveita desse sentimento anti-partido para confundir as massas. A Rede Globo, principal expressão midiática das classes dominantes, incentiva as palavras de ordem e as ações nas manifestações contra os partidos políticos. Seu objetivo é impedir que o movimento de massas empalme com partidos de esquerda, como o PSOL. Diante desse cenário, é preciso ter paciência e aguardar o amadurecimento político do movimento de massas. A maioria do povo não pôde ainda fazer a sua experiência com os partidos da esquerda socialista e revolucionária. A esquerda consequente no país ainda é pequena. Ao mesmo tempo, os partidos de esquerda devem demonstrar para as massas sua utilidade, como fizeram os vereadores do PSOL em Porto Alegre, ao ingressarem com ação judicial pela redução da tarifa de ônibus. A vitória na Justiça deu a credibilidade necessária para que o PSOL se postulasse como referência política para setores das massas.

O crescimento do Juntos é expressão dos novos tempos no Brasil!

Diante do rechaço às velhas estruturas política e do elevado protagonismo juvenil nas recentes mobilizações em todo o globo, nós acreditamos que é preciso apostar na organização autônoma da juventude, razão pela qual somos entusiastas do JUNTOS como movimento independente de jovens. O JUNTOS tem se destacado em muitas destas lutas. É um movimento que está na linha de frente nos atos de importantes cidades, inclusive São Paulo, a maior capital do país. Também em outros lugares, como Porto Alegre, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Belém e Santarém, onde a força da nossa juventude nos coloca como protagonistas nas principais manifestações.

O JUNTOS tem atuado no sentido de conectar as lutas de diferentes cidades e apontar pautas e caminhos para o levante nacional da juventude brasileira. Estamos ganhando em número e qualidade política com este grande movimento que surge no país. Estamos nos expandindo para novos trabalhos e muitas cidades espalhadas pelo território nacional. E vamos seguir batalhando para que o movimento de massas da juventude avance em temas fundamentais para o país. Com certeza o Brasil mudou e vai continuar mudando com o povo e a juventude nas ruas.

* Nathalie Drumond e Ib Sales Tapajós são da direção nacional do Juntos e militantes do Juntos no Rio de Janeiro e Pará, respectivamente.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017