Nenhuma morte a mais. Chega de Extermínio da População Negra!

21/nov/2013, 09h48

“E foi morrida essa morte,

irmãos das almas,

essa foi morte morrida

ou foi matada?

Até que não foi morrida,

irmão das almas,

esta foi morte matada,

numa emboscada.”

João Cabral de Mello Neto

Winnie Bueno*

Um menino, negro, correndo. Um homem, fardado, atirando. Um menino, negro, sangrando. Uma mãe, negra, chorando. Essa caracterização poderia estar no passado, nos longínquos anos de Brasil Colônia, onde os capitães do mato avançavam com armas de fogo e assassinavam os negros e negras que corriam para longe da escravização. Porém, no dia 20 de novembro de 2013, a realidade para a população negra continua sendo esta. Continuamos sendo assassinados, cotidianamente, por homens fardados que atiram primeiro e perguntam depois. A constatação fática do que estamos apontando, para aqueles que invariavelmente dirão que a negritude se vitimiza e que precisam de números para crer naquilo que vivenciamos todos os dias, está no Mapa da Violência 2013.

Segundo este documento morrem 88,4% mais pretos que brancos. Morrem 156,3% mais pardos do que brancos. O que isso significa, se não, que vige no Estado brasileiro uma política explícita de extermínio da população negra? O que isso significa se não, que os avanços para a equidade racial não dão conta de frear o derramamento de sangue da negritude.  No dia da Consciência Negra, nós do coletivo Juntos, convocamos a todos, negros e brancos, a fazer uma séria reflexão e perguntar conosco: “Porque o Senhor Atirou em Mim?”, porque os senhores continuam atirando a queima roupa em nós? Porque o Estado não interrompe essa chacina?

É preciso entender que tudo isso é consequência do racismo. No Brasil, país em que falamos em discriminação racial velada, esse véu cai completamente quando se trata de segurança pública.  O próprio Estado atua de forma discriminatória, prevalecendo a violência seletiva nas abordagens policiais. Vivemos em constante perigo, em constante alerta, resistindo para sobreviver.

Novembro é luto. Novembro é luta. Saímos e saíremos às ruas incansavelmente, com os nossos punhos erguidos até que nenhum cidadão seja vítima de homicídio pela porcentagem de melanina na sua pele. Novembro é luto, novembro é luta. Seguiremos denunciando todas as mortes, todos os desaparecimentos, todas as violências que forem motivadas apenas pela cor da pele daqueles que se insurgem,      daqueles que só querem a paz de andar tranquilamente nas favelas em que nasceram.

*Winnie Bueno é estudante de direito da UFPEL, militante do Juntos! Negros e Negras e do Juntos! Pelotas