Festival Acampada do Juntos: A nossa coragem é o medo deles!

18/mar/2014, 15h47

* Ana Laura Oliveira e Gabriel Lindenbach

Após realizarmos a Acampada Sudeste do Juntos, que aconteceu no início do mês de Fevereiro, no Rio de Janeiro, com a presença de mais de trezentos jovens de diversas cidades dos Estados dessa Região, um novo desafio foi proposto aos ativistas do Juntos de São Paulo: Realizar, em um mês, um Evento de novo tipo, uma revolução interna e externa nos espaços do Juntos: O I Festival Acampada do Juntos SP.

Encarar a rua e a praça, para construir um Brasil mais democrático

Atravessando a Festa mais popular do mundo, o Carnaval, os ativistas do Juntos iniciaram, em todo Estado, uma série de Campanhas Financeiras para dar a largada à construção de nosso Festival. Durante semanas estivemos nas ruas e praças de nossas cidades, ocupando esses espaços com cultura, arte, combate ao machismo, racismo e homofobia e em apoio aos irmãos garis do Rio de Janeiro, que ganharam todos os holofotes de todas as Avenidas de nosso país. Com essas iniciativas, conseguimos arrecadar fundos para tornar real a estrutura e a vinda de centenas de jovens de mais de 30 cidades de todo Estado para São Bernardo do Campo.

Na Sexta Feira, dia 14, abrimos os trabalhos de nosso Festival Acampada da melhor forma possível: Ocupando a Praça Roosevelt, no Centro de São Paulo, com o Debate “Copa: Ame-a ou Deixe-a”. Cerca de 200 jovens discutiram, junto do Padre Julio Lanceloti, o Professor da Faculdade de Direito da USP, Jorge Luis Souto Maior, a Candidata à Vice Presidente da República pelo PSOL, Luciana Genro, e o Deputado Federal Jean Wyllys, a situação em que vive nosso país nos dias de hoje. Em um ano em que completamos 50 anos desde o Golpe Militar, a juventude e o povo brasileiro dão continuidade ao processo que iniciamos em Junho de 2013, a luta de rua, de todos os indignados, pela radicalização e aprofundamento de nossa Democracia e de nossos Direitos, enquanto o Governo Brasileiro, junto de grandes Corporações, como a FIFA, parecem se esquecer de tudo que conquistamos até hoje, aplicando medidas cada vez mais absurdas de perseguição e criminalização dos que estão nas ruas lutando pelo futuro de nosso país.

Festival Acampada do Juntos: Apesar das diferenças, somos todos iguais

1456576_682682601789697_383414745_n Quando acordamos na manhã de sábado, lá pelas 6h da manhã, havia algo de diferente em nós. A expectativa de reunir mais de 400 jovens das mais diversas cidades, escolas, quebradas, trampos e faculdades foi um despertador biológico que nos levaria a uma experiência que superou tudo o que esperávamos. A energia já era contagiante nas concentrações que fizemos para nossas Caravanas nas Estações Sacomã e Tietê, e ao chegar São Bernardo, o Largo São Simão, local de nosso Acampamento, ficou pequeno para tanta diversidade.

Iniciamos a tarde de sábado com uma mesa de Abertura que recebeu e contou com a contribuição de diversos companheiros do Juntos de diversas localidades, atualizando o patamar e as lutas da juventude em cada canto de nosso Estado. Para nosso orgulho, esse Espaço ainda conseguiu incluir diversos lutadores do movimento popular, de moradia e de trabalhadores, como as grandes Saudações de Rapozao, Líder da Ocupação Anchieta de Moradia e do Movimento Nós da Sul, do Grajaú, Jênis de Andrade, presidente da Associação dos Agentes Carcerários do Estado de São Paulo, em Greve por melhores condições de trabalho e contra a política de encarceramento da juventude e do povo das periferias, de Iata, morador da Rocinha e militante do Juntos do Rio de Janeiro, que descreveu para todos o processo de luta que protagonizou junto dos vitoriosos Garis do Rio de Janeiro. Esteve presente, ainda, a Ex-Deputada Federal Luciana Genro, do PSOL-RS, candidata a Vice presidente pelo PSOL, parceira e apoiadora de nosso movimento, falando sobre a importância da luta por nossos direitos democráticos e denunciando o grave caso de criminalização do Governo do Rio Grande do Sul, de Tarso Genro (PT), que indiciou, entre outros companheiros, o jovem Lucas Maróstica, militante do Juntos em Porto Alegre. Apesar das tentativas dos governos, não saíremos das ruas. O medo que tentam nos imputar é a coragem que nos contagia a continuar lutando por nossos direitos.

Após o almoço, as equipes setorias e demais jovens do Juntos construíram os Espaços que chamamos de Diálogos: Rodas de discussão, acúmulo e formulação de políticas sobre diversos temas que estão presentes no cotidiano e nas mobilizações da juventude. Discutimos a Atualidade da Revolução nos dias de hoje, os 50 anos do Golpe Militar, com a presença de Thiago Aguiar, Diretor de Direitos Humanos da UNE pelo Juntos e de Sérgio Granja, militante histórico da esquerda, que enfrentou a Ditadura Militar ao lado de Marighella, a luta das mulheres e do Juntas, o Casamento Civil Igualitário, a visibilidade Trans e os Direitos Democráticos das LGBT, com a presença de Bruno Bimbi, redator da Lei do Casamento Igualitário da Argentina, autor do Livro “Casamento Igualitário” e assessor do Deputado Jean Wyllys, a militante Trans do Juntas LGBT, Daniela Andrade, Cultura e Resistência Negra, as Contradições da Copa do Mundo da FIFA no Brasil e a Legalização da Maconha e Descriminalização das Drogas, com a Presença da Filósofa e Professora da Universidade Mackenzie, Márcia Tiburi, quebrando o tabu desse debate, tão atual e necessário nos dias de hoje, para acabar com o moralismo a respeito das liberdades individuais e criminalização da pobreza, hoje tão utilizados para justificar a violência nas periferias, a morte de pessoas como Douglas e Amarildo. Foram debates de alto nível que reuniram diversas experiências da juventude, formulando uma agenda de mobilização e intervenção do Juntos para o próximo período.

1979747_682446405146650_656642909_n No ínicio da noite, as mais diversas Vozes de Junho estiveram presentes no que foi o ponto alto de nosso Evento. Combinando essa, que deve ser cada vez mais uma mistura indissociável entre Arte, Cultura e Política, o Festival de nossa Acampada contou com a apresentação teatral, musical e poética de diversos jovens militantes do Juntos e contou com a participação de bandas de diversos estilos musicais: O Rapper Mirtão, do Juntos de Mairinque, as Drags Queens Tchaka e Bill da Pizza, dando um show de luta contra homofobia e levando o público ao delírio, Ana Paula e Diego, com o melhor do Sertanejo do interior de nosso Estado, o reggae profissional e a mente aberta da Banda Bambuzal e o Rock Eletrizante e de luta da Banda Guerrilha.

Na manhã de domingo, iniciamos o dia com diversas Oficinas Práticas, apresentando a importância da Organização e da Segurança Coletiva contra a Repressão da Polícia nas Manifestações, na Oficina de Ação Direta, o suingue mais característico das manifestações de Junho, a batida que agita as ruas com a Oficina de Instrumentos da Bateria Indignada, a necessidade de criarmos polos de comunicação alternativa e da luta por um Marco Civil da Internet que garanta sua neutralidade, com a Oficina de Comunicação do Juntos e a Oficina de Stencil e Grafite, que ilustram e podem encher os muros, ruas e avenidas de nossas cidades com as vozes dos que se indignam!

Próximos passos: Continuar nas ruas, contaminar de coragem a juventude

Os exemplos recentes das mobilizações que se aprofundaram desde Junho, de diversos setores de nossa população, nos mostram que é cada vez mais clara a saída para tudo que nos indigna: a organização coletiva, ampliação de nosso Movimento e a luta direta nas ruas. Os garis e professores do RJ, os rodoviários de Porto Alegre e a Greve dos Professores, Funcionários e Estudantes das FATECs e ETECs de SP nos enchem de esperança.

Em nossa Assembleia Final, discutimos a importância de continuarmos ocupando os Espaços Públicos, manifestando nossa indignação e ampliando nosso movimento, para que cada vez mais jovens, de diferentes lugares, sejam protagonistas das mudanças que querem em nossa sociedade.

O Juntos, ainda, deixa um recado claro: Não aceitaremos medidas que visam a perseguição, criminalização e enfraquecimento dos Movimentos Sociais sejam naturalizados em nosso país. Hoje, mais do que nunca, a rua tem que ser nossa. O medo que tentam nos colocar é o combustível da coragem que temos para transformar nossas vidas, nosso país.

* Ana Laura de Oliveira é estudante secundarista e militante do Juntos Itapevi, ZO/SP
Gabriel Lindenbach é estudante de Geografia e militante do Juntos na USP