Chega de racismo. Ninguém aqui é macaco!

28/abr/2014, 13h00

*Winnie Bueno

Já escrevi aqui, mais de uma vez, sobre racismo, sobre preconceito racial, sobre a forma com que o racismo estrutura a sociedade mundial. Já escrevi aqui sobre a importância das mulheres negras se empoderarem através de seus crespos cabelos, já escrevi sobre a necessidade de políticas públicas que combatam o racismo, já escrevi sobre a institucionalização do racismo e a urgência de lutarmos por equidade racial. Mesmo assim, como já diria um grande amigo meu, tem horas que é preciso dizer o óbvio, principalmente quando fica gritante que o óbvio não está dito.

Sendo assim, começarei pelo óbvio. NÃO SOU UMA MACACA. NENHUMA NEGRA/NEGRO É! E isso é óbvio! Macacos são primatas do gênero Macaca, eu sou um ser humano, do gênero Homo(e o povo da biologia que me corrija sobre gêneros, espécies e taxonomia, se necessário for). Começo dizendo isso porque, durante todos esses anos da minha vida, muitas vezes fui chamada de macaca, de chita e coisas afins.

Todas essas vezes se seguiram a humilhações verbais contra as quais sempre me resignei. Portanto, não vou aderir, de forma nenhuma, a uma campanha que diga que somos todos macacos. Não vou porque sou negra e sei o que está por trás dessa consígnia. Por trás dessa consígnia está uma mensagem muito explícita de que “devemos comer bananas, virar as costas pro racismo e seguir vivendo… porque somos todos iguais”. Não somos. E isso é fundamental. Afirmar as nossas diferenças é o primeiro passo para acabar com uma sociedade racista. Sem perceber que somos nós, negros, que continuamos tendo nossos direitos negados e sendo assassinados por sermos negros, não vamos combater o racismo. Sem afirmar nossas diferenças não alcançamos a igualdade material. Sem igualdade material as desigualdades raciais se aprofundam.

Mas o racismo, esse inimigo voraz, se reinventa por onde passa e no futebol , não é diferente.

Daniel Alves, jogador do Barcelona, brasileiro, latino-americano, negro, muito dificilmente seria hostilizado dessa forma no Brasil. Não seria porque no Brasil o racismo é de marca e se estabelece a partir de um “contínuo de cor”. O contínuo de cor tem relação estrita com a estratégia mais bem sucedida do racismo no Brasil, o mito da democracia racial, ancorado na mestiçagem, na Casa Grande e Senzala do Gilberto Freyre. “A mestiçagem tem uma função ideológica de massificar e desorganizar ao mesmo tempo que, através do contínuo de cor, reforça a discriminação racial (que no Brasil é de cor) que se torna relativa, dependente da referência momentânea. Assim, uma pessoa mestiça pode ser discriminada por uma mais branca, assim como pode discriminar outra mais escura.” ¹ Contudo, na Europa, as coisas são bem diferentes. Na Europa, quem não é europeu, quem se origina de lugares onde esses mesmos Europeus colonizaram e escravizaram pessoas que não eram europeias, macaco é. Macaco é, porque macaco é algo “inferior” a um ser humano, a este ser humano branco, caucasiano, europeu. E por isso tem bananas jogadas aos seus pés. Na Europa, Neymar não pode encher a boca para dizer que não é negro. No Brasil, Neymar não quer ser negro e, por não ter a pele preta, pode dizer que não é. Portanto, esse mesmo Neymar, aclama a atitude de Daniel Alves e saí em uma campanha dizendo que somos todos macacos. Pergunto: porque Neymar não fez uma campanha “#diganãoaoracismo #sounegrão “? Eu mesma respondo. Para isso Neymar teria que ter consciência racial e se entender enquanto negro. Não se entende, portanto não o faz. Neymar já foi vítima de racismo, no mesmo Barcelona, na mesma Europa… na oportunidade o que Neymar fez? Calou-se.

Não podemos mais calar, não podemos mais naturalizar o racismo, não podemos aceitar a discriminação racial e seguir andando. Enquanto acharmos que ser chamados de macaco está OK, estamos ignorando a luta de muitos negros e negras que deram suas vidas para que possamos assumir a nossa cor, nosso cabelo, nossos traços, nossas origens.

A atitude do Daniel Alves, no contexto em que ocorre, tem valor. Tem valor porque de alguma forma confronta o racista. Mas é pouco, não é suficiente. Não é suficiente porque fora das quatro linhas, não são bananas que nos são jogadas. Fora das quatro linhas são balas que nos são atiradas pelo simples fato de sermos pretos. Fora das quatro linhas são os empregos que nos são negados por sermos pretos. Fora das quatro linhas é a dignidade que nos é cerceada por sermos pretos.

Por tudo isso, digo e repito: Eu não sou uma macaca, sou uma mulher negra em luta pelo fim do racismo. Orgulhosa de minhas origens africanas, do meu cabelo, da minha cor, da história de luta e resistência dos negros e das negras no mundo inteiro. Mais Tommie Smith², menos naturalização do racismo.

*Winnie Bueno é estudante de direito da UFPEL, militante do Juntos! Negros e Negras e do Juntos! Pelotas

¹ http://www.revistapsicologia.ufc.br/index.php?option=com_content&view=article&id=81%3Aracismo-cordialmanifestacao-da-discriminacao-racial-a-brasileira-o-dominio-publico-e-o-privado&catid=28%3Aano-ii-edicao-i-2011&Itemid=54&limitstart=1

² Tommie Smith, juntamente com seu compatriota John Carlos, ergueram os punhos direitos fechados, uma saudação do Black Power, durante o pódio das Olimpíadas de 1968. Esse geste ficou reconhecido mundialmente como um símbolo da luta anti-racista.

 

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