Querem silenciar nossas vozes. E também nossos tambores! Não silenciarão!

17/maio/2014, 12h24

Winnie Bueno*

Um juiz, no Rio de Janeiro, declarou que a umbanda e o candomblé não são religiões. Disse que para ser religião há de se ter um livro-base, um deus único e uma hierarquia. Disse que a umbanda e o candomblé não tem “traços necessários de uma religião”. E depois, num segundo momento, coloca que não vai discorrer sobre o que venha a ser uma religião… em outros termos, em termos práticos, o juiz diz apenas que religiões afro-brasileiras, religiões não podem ser. Em termos mais explicítios, o que o juiz quer dizer é que uma tradição religiosa fortemente marcada por sua negritude, religião não é. Porque afinal de contas, nesse Brasil, as instâncias de poder são brancas, europeizadas e, obviamente, racistas.

O executivo, o legisltivo e o judiciário brasileiro há muito vem dizendo isso. Já houveram leis que criminalizaram as tradiçoes religiosas afro-brasileiras de forma explícita. E hoje temos tantas outras tentativas de criminalização implícitas. Já tivemos delegacias especiais para controlar essas manifestações. Não são poucos os casos de que, travestidas de ações de proteção ambientais, as prefeituras promovem atos que coibem ou limitam a liberdade religiosa daqueles e daquelas que depositam sua fé nos orixás, nos caboclos, nos pretos velhos, nos exus, nas entidades e nos deuses de matriz africana.

10344970_10202179981732024_1638396741_nÉ assim desde a diáspora. Tentaram nos fazer esquecer das nossas tradições desde o momento em que nos sequestraram de África. Desde então, resistimos. Essa resistência, essa fibra, é responsável pela manutenção e pela criação de muito daquilo que hoje os eurocentristas vendem para os turistas. Sem iyalórixas, muito dificilmente teríamos carnaval, pois as escolas de samba têm sua gênese nos terreiros. Sem umbanda, não teríamos os festejos de Yemanjá, que arrastam turistas do mundo inteiro para  o território brasileiro. Nos querem assim, mercadoria, coisa, como sempre nos enxergaram.

O juiz, de nome  Eugenio Rosa de Araújo, não só manifesta explicitamente o seu racismo eurocentrado, a partir de pressupostos calcados em uma visão eugênica sobre fé, como afronta princípios constitucionais básicos.Não, nós não temos um livro, nós não precisamos de um. Não precisamos porque nossa tradição é passada através de noções de coletividade, de oralidade, do ouvir, do falar, do aprender. Não, nós não temos um único deus. Nossas divindades são múltiplas porque são plurais, porque não são autoritárias, porque não acreditamos em um deus de punitividade. Nossos deuses são próximos de nós, não são inantingivéis, estão em todos e em cada um. Ao longo dos anos o poder vem tentando silenciar nossos tambores, aos longos dos anos o poder vem tentando calar nossas vozes. E quando nos levantamos, e quando dançamos e quando ofertamos, o poder tenta nos calar. Não nos calarão. Não calaram nossos antepassados, mesmo com a chibata, mesmo com os assassinatos, mesmo com estupros de nossas mulheres. Não nos calarão com ideais racistas institucionalizados.

Os tambores continuarão batendo. Nossos deuses continuarão dançando. O povo negro continuará resistindo. Porque resistir é  pressuposto da nossa fé.

 

Winnie Bueno é Yálorixa do Ile Aiye Orisha Yemanjá e militante do Juntos! Negras e Negros*