Sexo e as Nega: Globo, você está fazendo isso errado.

10/set/2014, 11h51

*Por Winnie Bueno

Primeiro eu vi a chamada. Vi a chamada com aquela voz do Miguel Falabella dizendo: “sexo e as nega”. A voz do Miguel Falabella me deu nojo. Porque eu visualizei o Miguel Falabella, esse homem branco, cujo maior papel na vida foi interpretar um homem branco que tinha nojo de gente pobre. Ter nojo de gente pobre é quase sinônimo de ter nojo de gente preta. A visualização do Miguel Falabella, falando “sexo e as nega”, me remeteu a todos os homens brancos com os quais eu já me relacionei sexualmente e que fizeram com que eu sentisse nojo de mim mesma. Porque somos vistas como pedaços de carne, altamente sexuais, que todo o homem tem que experimentar pelo menos uma vez na vida. Porque somos vistas como “degustação”, como coisas a serem experimentadas. Fiquei com nojo, com repulsa, de mim mesma e de toda essa gente branca, elitizada, que acha que está nos fazendo um favor ao colocar na televisão uma série em que as protagonistas são negras. Mas achei que isso tudo podia ser alguma “neura” da minha cabeça e resolvi ler.

Então, fui ler. Fui ler o que a própria Globo vem dizendo sobre a série, fui ler de onde o Miguel Falabella tirou a GRANDE ideia de fazer um “Sex and the City” a brasileira, na favela, com pagode e cerveja. E ele teve a grande ideia a partir das suas visitas ao bairro da sua “camareira”. Viu umas negras lindas, subindo e descendo morro, e resolveu criar essa série. Essa série que é um desserviço às mulheres negras brasileiras.

Sim, muito bonito, muito legal, ter gente preta protagonista na televisão. Mas tem que ser sempre favelada? Tem que ser sempre no papel “da mulata gostosa, máquina sexual, devoradora de homens?” A nossa representação televisa necessita ser sempre num papel de “carne” ou num papel de sofrimento? E ok, a favela tá aí, ela é negra, ela é linda, ela é cheia de histórias, mas as mulheres negras não são só isso. Não se resumem só a isso. Nós também estamos e somos outras histórias, outras perspectivas, outros espelhos.

Eu quero e sempre quis me ver representada na televisão. Muito chorei por não me ver nela. Muito sofri por ser sempre a menina loira a mais bonita, a mais cobiçada. Mas eu quero me ver em outros papéis, quero me ver e quero que as jovens negras se vejam em outros lugares, em papeis que reflitam a luta das mulheres negras, a resistência das mulheres negras, a força das mulheres negras, o poder das mulheres negras.

“Sexo e as Nega” reforça estereótipos que há muito tem nos causado dor, reforça a ideia de que somos máquinas sexuais insaciáveis a disposição dos homens (brancos e negros, mas principalmente dos primeiros), consolida a perspectiva que temos que nos contentar com relacionamentos doentios e medíocres porque é “o que tem para hoje”. E nós, não precisamos disso. Não precisamos desses reforços, não precisamos desses recados, não precisamos dessa série.

Em um país em que as mulheres negras não fossem tão absurdamente colocadas em um papel de sexualização exagerada seria muito bacana essa série, muito divertida. Porém, nesse país, em que só somos lembradas no carnaval e que só somos desejadas porque “sabemos rebolar os quadris”, essa série não serve para a valorização de nenhuma de nós. Serve apenas para que continuem dizendo por aí que Sexo e as Negas são coisas automáticas e fáceis. Serve apenas para que continuemos vivendo em um mundo que a sociedade acha que é só chegar e fazer sexo com uma negra. Porque afinal de contas elas estão aí para isso: para o sexo.

Por tudo isso, digo e repito: cansamos rede Globo, cansamos de ser “tuas negas”, vamos ser “negas” de nós mesmas. Donas das nossas próprias vontades, vozes umas das outras, reflexos de nossas lutas e de nossas memórias e não desse fetiche cruel que vocês vem construindo por tanto tempo e que tanto nos causa dor.

Agora é com a gente! Vai ter Luta e as Negras!

*Winnie Bueno é militante do Juntos! Negros e Negras e estudante de Direito da UFPel.