Para onde vai a água?

Lucas Villela Canôas 03/nov/2014, 16h01

*Por Lucas Villela Canôas

Desde janeiro deste ano, a crise hídrica se tornou mais visível e foi se aproximando da nossa realidade, principalmente por causa da omissão do governador Geraldo Alckmin, que não fez campanha de conscientização, não fez racionamento, não investiu na manutenção das tubulações (que perdem 24% da água em vazamentos), que inclusive o próprio DAEE (Departamento de águas e energia elétrica) acha “normal” perder 40% (no máximo) de água, antes de chegar nas nossas torneiras e ainda fez obras que destruiu nascentes.
O culpado nós temos, um grande problema também…e agora? A água vai para onde? Vai pra indústria e para o agronegócio enquanto a população da periferia passa sede? Até vai faltar água em bairros nobres, mas não como na periferia!

Histórico de protestos pela crise hídrica

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protesto dia 1 de novembro de 2014 na Paulista

Se pensarmos na história da água em SP, no século XIX a província passou por um grande crescimento populacional, que causou uma grande falta de água e muitos protestos, com isso o governo passou a pensar em medidas para solucionar o problema e então surgiu a Companhia Cantareira e Esgotos, que era capaz de atender o dobro da população da época (nem 20 mil pessoas). Agora o problema é parecido, o governo sabia da crise hídrica desde 1994, prevista matematicamente, pelo aumento do número de pessoas na região.

Um problema maior e contraditório

47% não é uso urbano (casas, comércios, prédios públicos, hospitais, escolas…)

Agora a população passou de milhares para milhões e o consumo necessário de água aumentou absurdamente nossos problemas. É interessante olhar para o consumo de água no Brasil, vemos que o maior consumidor é o agronegócio (com 72%) e a indústria (com 22%). Porém o gráfico de consumo de água em SP é diferente: com o êxodo rural e mesmo pessoas do interior que vem para São Paulo e o crescimento natural da população, gera um aumento gigante de consumo de água. Segundo a ONU, cada ser humano necessita de 110 litros de água por dia, visto que a explosão demográfica de SP (especialmente grande São Paulo e cidades do interior como Campinas) aumenta muito a demanda de água para as necessidades básicas.

 No caso da indústria e do agronegócio, o gasto pode ser muito mais reduzido do que o uso urbano (já que é fixo que uma pessoa para sobreviver precisa de 110 litros de água), pois o agronegócio em São Paulo não utiliza irrigação por gotejamento, o que gera muito desperdício de água e que no caso da indústria, produz num modelo irracional de “compre, jogue fora e compre” forçando o gasto de água para produção de bens (teoricamente) duráveis. Além disso, o problema nas tubulações que não têm manutenção (algumas desde a década de 30) faz com que se perca um sistema cantareira por ano, problema ignorado pela atual gestão do Alckmin e seus amigos do PSDB, pois eles estavam prestando muito mais atenção nos acionistas da SABESP, que só no último mandato do Alckmin saíram com 60% dos lucros (um lucro total de 1.9 bilhão de reais).

Lucrando com a sede e prioridades

No nordeste existe o que chamamos de indústria da seca, que é basicamente alguns políticos, latifundiários e empresários que se beneficiam com a desgraça da população. Já aqui em SP, esses dias vi na televisão a propaganda de um produto que promete deixar uma água barrenta e suja (semelhante a que vai sair da sua torneira em algum momento ou já saiu) potável e limpa. Esse conjunto de problemas vai criar um nicho de mercado, uma espécie de indústria da seca versão 2.0. Não tem como não me lembrar do filme “Uma história de amor e fúria” em que numa das partes do filme, no futuro, é criada a empresa “Aquabrás”, a maior empresa do mundo do ramo de exploração de água em pleno Brasil, seus lucros custam a sede e a saúde da população pobre.

Portando, a dúvida que fica para os próximos meses (quem sabe alguns anos) é: qual a prioridade do governo? Manter um modelo produtivo predatório, privilegiar os acionistas da SABESP ao invés de investir na manutenção das tubulações, não fazer um racionamento planejado (para sabermos onde vai faltar água e quando) ou dar preferência para a vida e o bem estar das pessoas e realizando um racionamento em que a periferia não sofra a maioria das consequências da crise hídrica do Estado de SP? Caso o governador escolha manter a economia “em pé”, poderemos beber dinheiro?

OBS: Muito se tem falado do desmatamento, de fato, só no governo do PSDB ele chegou a 70% das matas das cabeceiras das nascentes que abastecem o sistema cantareira.

*Lucas Villela Canôas é militante do Juntos Campinas e estudante de física na UNESP

Referências e outros textos:

A crise hídrica em São Paulo: A culpa é de quem?

O romantismo das ações individuais

Sistema Cantareira: Um mar de desafios