Colapso hídrico: A culpa é de quem consome água em sua casa?

03/fev/2015, 17h36

Dante Peixoto
Expresso aqui uma humilde reflexão sobre o debate que tem sido feito, a meu ver de modo rasteiro, jogando a culpa na população e lavando a cara do governador e demais administradores públicos.

A meu ver, jogar a culpa no consumidor individual é esquecer do que representou o processo planejamento e projeção da ocupação e consumo de água na região sudeste.

Faz 10 anos que absolutamente todos que trabalham na área sabem do risco de a água simplesmente acabar (em qualidade primeiro, em quantidade depois).

Desde a década de 70 é discutido que precisávamos de uma combinação de obras para maior disponibilidade, maior controle e fiscalização por parte do DAEE (órgão responsável por controlar o uso de água, no caso de SP), além da preservação e recuperação de mananciais.

Provavelmente todo mundo já ouviu alguma dessas preocupações no colégio, na televisão, em rodas de conversa e em palestras.

No entanto, mesmo com uma preocupação tão disseminada, vejamos como as coisas se desenvolveram nas últimas décadas:

– nenhuma obra significativa para incremente de quantidade, enquanto a população da região aumentou exponencialmente.

– o DAEE foi completamente sucateado e por isso os dados de quanto a agricultura, as indústrias e mesmo pequenos usuários que furam um poço utilizam de água efetivamente são completamente fora da realidade, isso sem falar dos produtores que pedem outorga para 2L/s e utilizam 2.000L/s, pois não há fiscalização alguma;

– não só não houve recuperação alguma de área de manancial, como a destruição aumentou e em 2012 o código florestal foi modificado justamente para anistiar os que haviam desmatado áreas de preservação e reservas legais. Isso é mais do que provado que interfere na capacidade de recarga do lençol freático, propicia o assoreamento dos rios e destrói a qualidade da água.

Com isso, sinceramente, não dá pra comprar a ideia de que a culpa é do consumidor final, que toma banhos demorados, ou não fecha a torneira para escovar os dentes (apesar disso também ser importante, sobretudo atualmente tudo é) muito menos dizer com certeza que o agronegócio não tem culpa no cartório, porque em São Paulo não tem fazenda, porque o maior número de consumidores é residencial ou outras bizarrices que tenho visto por aí e que são pura manipulação estatística barata e sem vergonha.

O sistema hidrológico é interligado, o que acontece na bacia de contribuição do menor leito d’água do sistema PCJ (que abastece o Cantareira) influencia no que vai acontecer no abastecimento de água da capital. Além do que estatística por estatística a cidade cresceu, como já foi dito, e a capacidade de abastecimento não, ou seja, o problema está antes da água chegar na torneira, é político e de planejamento.

No mesmo sentido, não podemos esquecer que a falta do mínimo planejamento e controle, seja da Sabesp, seja de qualquer outra concessionária de água não permite sequer saber direito quanta água é perdida no meio do caminho, muito menos onde ocorre essa perda, afinal em muitos lugares nem os tubos se sabe onde estão ao certo.

Já está em curso um debate duro e necessário, de limitar a captação de água das indústrias e fazendas para destinar água para as pessoas tomarem. No entanto, o cenário que se configura é tenebroso, as pessoas sendo martirizadas, como culpadas, o governo finalmente tirou a cortina de fumaça e mostrar que realmente não tem o que possa ser feito em curto prazo.

O mínimo que todos devemos ter cuidado é para não sermos ingênuos, não cairmos em manipulações numéricas, de assumir toda a culpa e ainda poupar os verdadeiros criadores desse caos, que estão no palácio dos Bandeirantes e atendem por pronomes pomposos.

Dante Peixoto é engenheiro ambiental, professor e do Juntos! São Carlos