Estudantes da USP Leste em defesa do espaço estudantil: ‘’Direção do diálogo’’, uma ova!

02/mar/2015, 18h27

Arthur Andrade e Taynara Cardoso

No dia 27 de janeiro, a diretoria da Escola de Artes Ciências e Humanidades (EACH) de forma arbitrária retirou o espaço dos estudantes, um local provisório de vivência estudantil, sem qualquer aviso ou justificativa prévia. Em resposta a essa retirada do nosso espaço de vivencia, no dia 25 de fevereiro os alunos da EACH, em assembleia, votaram pela ocupação da Incubadora do campus como forma de pressão para que garantam um novo espaço. A Incubadora é um prédio destinado para que novas empresas se desenvolvam até garantirem estrutura para poderem atuar no mercado, ou seja, a universidade pública cede parte do seu espaço para a instalação dessas empresas, que utilizam de seus recursos, enquanto os estudantes permanecem sem espaço físico.

Isso vai na contramão do caráter público, de qualidade e para todos que a universidade deve prezar. Além disso no momento da ocupação o espaço estava sendo sub-ultilizado, pois das 16 empresas que comporta somente 3 estavam funcionando. Um edital foi aberto e as próximas empresas só utilizariam do espaço a partir da segunda semana de março.

Nós do Juntos! consideramos a ocupação legítima. Uma resposta radicalizada frente à intransigência e falta de diálogo por parte da direção. Paralisamos as atividades desenvolvidas na Incubadora como meio de chamar atenção do conjunto da comunidade universitária e pressionar politicamente por uma resolução para um espaço adequado de vivência estudantil. Entendemos que a ocupação é uma tática importante, uma ferramenta que auxilia nossa mobilização para conquistarmos vitórias. Mas ela por si só não garantirá que arranquemos conquistas concretas para os estudantes. Para isso, ela deve estar inserida num conjunto de iniciativas que devemos tomar para aglutinar o maior numero de estudantes possível, esclarecer os objetivos do nosso movimento e construir de forma ampla uma campanha pelo espaço estudantil. Acreditamos que é organizando nossa indignação que nos aproximamos de conquistas objetivas para nossa comunidade!

10 anos de EACH. 10 anos de luta por mais direitos!

O campus da USP Leste foi inaugurado sem nenhum espaço dos estudantes. Depois de muita mobilização estudantil, um dos prédios que tinha sido construído inicialmente para uso provisório da direção e que seria demolido, foi concedido aos estudantes. Em 2012, o prédio foi destinado a grupos de pesquisa e os estudantes foram despejados do espaço. Depois de longas negociações e enfrentamentos com o antigo diretor, Jorge Boueri, foi cedido aos estudantes um prédio chamado de “laranjinha”, mas este nunca foi cedido de forma integral. Era dividido com os grupos de extensão que existem na escola.

Em 2013, quando foram denunciados os problemas ambientais da EACH e os crimes do antigo diretor e o vice, lançaram um laudo que constava excesso de metano e risco de explosão no prédio. Por esse motivo, em menos de 1 mês e meio depois do laudo, o prédio foi demolido. Tempos depois, um outro laudo reconsiderou os risco de explosão e nenhum outro prédio foi demolido.

A nova gestão da direção negociou um novo espaço com as entidades estudantis, que segundo ela, funcionaria como um depósito de materiais, mas que funcionava como espaço de vivencia dos estudantes. Depois de mais de um semestre com o campus interditado, os estudantes se deparam com seus materiais e objetos em um anfiteatro no meio do prédio do chamado Ciclo Básico. Para a maioria dos estudantes, aquele espaço era insuficiente e inapropriado, mas nenhum outro espaço foi negociado.

Então, no dia 27 de janeiro, a direção desapropriou o espaço dando como justificativa um relatório da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) que constava, entre outras coisas, risco ergométrico com a falta de encosto nas cadeiras e risco físico os desenhos na parede. Em plenas férias, com a universidade esvaziada, de forma totalmente truculenta, seguindo a risca a cartilha do ex-REItor João Grandino Rodas.

A EACH é o campus da USP que mais tem sentido os ataques da reitoria. Em 2011, barrou o relatório Melphi que previa o corte de vagas nos cursos e o corte do curso de Obstetrícia, em uma universidade extremamente antidemocrática em seu acesso e permanência. Em 2013, a comunidade eachiana mobilizada derrubou o diretor autoritário Jorge Boueri. Em 2015, estamos passando por um processo de mobilização para de dar exemplo ao resto da USP, que também sofre com a perda de espaço dos estudantes. Em São Carlos, por exemplo, temos estudantes processados por causa da realização de festas no espaço e correm o risco de perde-lo. A Enfermagem teve seu espaço requisitado pela direção no fim do ano passado, e acionou um processo na justiça. O ‘’canil’’ da ECA também foi demolido em 2013 durante as férias estudantis.

Sabemos que não é de hoje que os espaços estudantis, necessários para a articulação e integração dos estudantes, são retirados de forma intransigente pela direção dos campus. Assim como esta direção sabe que não é de hoje que os estudantes tem se mobilizado e protagonizado muitas lutas em defesa dos nossos direitos. Inclusive um possível novo plano de corte de vagas, já discutido na burocracia universitária.

Tudo isso está ligado ao projeto político que a direção da universidade e o governo do Estado querem ver vigorando na USP. Um projeto que aprofunda o processo de precarização e sucateamento da universidade, promove o desmonte de suas estruturas, incentiva a logica privatista e mercadológica do ensino, pesquisa e extensão, distancia o acesso da maioria da população, impedem a articulação dos e não garante a permanecia dos que entram.

O caminho é construir uma ampla mobilização! Podemos vencer!

2015 iniciou com muita luta em defesa da educação publica! Fora da universidade vimos os governos anunciando pacotes de ajustes contra o povo e as areas sociais. O governo federal anunciou um corte de 7 bilhões de reais na pasta de Educação, conduzida pelo inimigo dos professores do Ceará, Cid Gomes, em contraste ao mote proclamado de ‘’Pátria Educadora’’. Os governos estaduais não fizeram diferente e aprofundaram os ataques aos servidores publicos e profissionais de educação. Mas nada disso ficou sem resposta: as mobilizações das categorias tem mostrado o caminho, como na greve dos professores do Paraná.

Dentro da universidade o cenário não é diferente. Desde a posse do reitor Zago, eleito com o discurso do ‘’diálogo’’ com a comunidade universitária, o que vimos foi a continuação de uma gestão antidemocrática da universidade que segue a fino a cartilha da intransigência e do ajuste na USP. Zago anunciou em 2014 um pacote de cortes no orçamento da universidade justificado pela crise financeira causada pela inversão de prioridades das antigas gestões.

Desde então o que vimos foi um verdadeiro desmonte da universidade, com ataques aos direitos dos estudantes e funcionários, congelamento de bolsas e salários, cortes no orçamento de pesquisa e desenvolvimento e um aprofundamento da precarização do ensino. A comunidade universitária tem dado respostas à altura, como a greve vitoriosa de mais de 100 dias construída pelos trabalhadores da USP, os estudantes e professores. A EACH foi uma expressão muito forte desse processo de desmonte e precarização, ficando 6 meses interditada devido a análise de solo contaminado, o que fragmentou a unidade pela cidade de São Paulo.

Nesse cenário de ajuste no orçamento por parte das diretorias de unidade e reitoria, o ataque aos direitos dos estudantes se intensifica, assim como a necessidade de nos organizarmos para fazer o enfrentamento necessário!

Arthur Andrade e Taynara Cardoso são estudantes da EACH-USP e fazem parte do Juntos! USP