Nem silenciosas, nem silenciadas!

06/mar/2015, 21h03

*Raissa Moda

Nesta época de calourada, ouvimos infinitos relatos de agressões sofridas por mulheres. É o machismo presente, por muitos aplaudido e encobertado. Mas muitas de nós ainda não denunciam, não porque concordam ou amam seus agressores, mas por sentirem medo, vergonha ou por descrédito nas instancias responsáveis em nos acolher. Nas vezes em que as mulheres respondem à violência sofrida, são ainda mais agredidas e violentadas.

Foi o que aconteceu com uma militante do Juntas! em uma festa de seu próprio curso. Quando soube por sua caloura que um homem havia lhe assediado, não encobertou, aplaudiu ou calou-se perante o acontecido…

“Hoje, numa festa do meu curso, uma amiga, minha caloura, veio a mim contar que um cara havia passado a mão em sua bunda. Eu apenas perguntei quem era o cara, ela apontou. Fui tirar satisfação. Perguntei ao próprio se ele havia, de fato, passado a mão na bunda dela – ele confirmou, dizendo que havia passado a mão em seu “quadril”. Dei um tapa na cara dele.

 [Se fiz bem, provavelmente não. Talvez devesse ter convencido o cara de que ele havia cometido uma agressão – tê-lo conscientizado com palavras… Mas há uma hora em que a paciência para palavras simplesmente acaba. Estou farta desses abusos – de sofrê-los e de ver mulheres sofrendo diariamente. Seja com cantadas na rua – não seriam elogios? -, seja com trotes que incentivam a misoginia (hoje soube de uma caloura de minha cidade, que foi obrigada a carregar uma placa com os dizeres “buzina que eu rebolo”; além disso – por mais que lutemos contra – o miss bixete ainda é realizado ~clandestinamente~).]

 Ele disse que eu não tinha o direito de fazer aquilo. Eu disse que, do mesmo modo, ele não tivera o direito de tocar em minha amiga. Então, ele jogou a cerveja de sua caneca em mim e me deu um soco […]”
(militante do Juntas! e do movimento estudantil da USP-São Carlos)

 

Nós, mulheres, somos diariamente culpabilizadas pela violência que sofremos, seja em meio universitário ou não, o que nos faz ser duplamente violentadas (verbalmente e, muitas vezes, fisicamente). E essa realidade não é digna de ser parabenizada no dia  (feliz?) das mulheres. Não tem nada de feliz esse dia, mas esse e todos os outros dias serão certamente de luta! O machismo não pode mais ser aplaudido, nem mais ter aberta sua passagem. Por isso, denuncie!

 

 

Meu nome é MULHERES.
Nasci hoje, e nasci ontem.
Acabo de entrar na universidade, já me formei e nem terminei o Ensino Básico.
Sou branca, sou negra, tenho origem em outros lugares.
Gosto de azul, de rosa, preto bem veste minha alma.
Brinquei de Barbie, prefiro ser Ken…me dera fosse respeitada.
Prefiro carrinhos…. ou tudo ao contrário.
Mas lavo minha roupa suja, se não a roupa suja de outras e outros que não lavam.

Já aguentei calada, mas hoje, não mais. Sou mais. Sou eu. Ou ainda serei.
Nasci em mim, nasci em outro, tanto faz.
No escuro, igual – um coração, uma cicatriz.
Memórias repetidas em mim, resultados repetidos a minha volta.
Tantas tristezas caladas…até quando?

Peço a deus, vivendo já o inferno, que eu acredite em algo.
Vou acreditar em mim, na minha força, e também na mudança.
Vou acreditar na desconstrução e na transformação.
Os dedos levantados pra mim, estes se abaixarão.

Cuidado agora ao me tocar sem direito, pois sou como uma doença contagiosa.
Pode ser e será um caminho sem volta.
E mais! Diga ao meu dia “feliz”, quando eu o disser que ele é.
Será. E minha luta é que mudará o mundo.
Mas não espere por isso sentado. Muito menos impeça minha passagem…

Meu nome, meu fardo, minha história.
Outrora construída por outros, hoje construída por mim.
Antes, sofria calada. Hoje sofrida, mas não mais me calo.
Não mais. Crescida, não sou mais uma mulher.
Sou MULHERES!

 

* Raissa Moda é militante do Juntas! na USP – São Carlos