A intolerância religiosa que apedreja

Winnie Bueno 17/jun/2015, 01h40

Nas últimas semanas dois casos de intolerância religiosa fizeram com que minha respiração parasse. Uma menina de 11 anos foi apedrejada na rua ao sair de um terreiro de candomblé. Foi apedrejada por dois homens que conseguiram fugir. Na Bahia, Mãe Dede de Iansã, considerada a Yalorixá mais antiga de Camaçari, morreu de infarto. Um infarto provocada pela intolerância religiosa.

A tradição de matriz africana é um legado da humanidade, um legado do povo brasileiro. Mais do que religião é o espaço sagrado onde persiste a cultura negro-africana, trazida pelos homens e mulheres escravizados que aqui conseguiram, a custa de muita resistência manter a ligação com a orixalidade e sua matriz. É nos terreiros que se perpetua o que há de mais próximo da África negra. É nos terreiros que o povo de axé se liga com sua ancestralidade. A intolerância religiosa tem feito com que essa tradição esteja cada vez mais vulnerabilizad, os dicursos de ódio religioso, vinculados principalmente nas igrejas evangélicas neopentecostais é responsável por isso, a ausência de políticas públicas para a diversidade é cúmplice, o Estado é co-autor. O Estado inerte é responsável pela menina de 11 anos que foi apedrejada pelos intolerantes, o Estado é responsável pela morte da Mãe Dede.

A guerra santa que as igrejas evangélicas promovem cotidianamente contra os terreiros e as tradições negro-africanas precisa ter um fim. Não é possível que se permita que as igrejas tenham uma madrugada inteira pra proferir discursos de ódio nos canais de televisão. Chegamos ao ponto em que não se limitam mais a atacar os símbolos das tradições de matriz africana, o que por si já é bastante problemático, mas a atacar violentamente as pessoas.

Uma senhora, uma menina, menos de um mês entre uma notícia e outra. No legislativo as igrejas neopentecostais tem bancada, a bancada evangélica, os projetos por esta apresentados, na maioria das vezes tem por objeto atacar direitos das mulheres, da população LGBT, da juventude negra periférica. O discurso de ódio contra as tradições de matriz africana ataca exatamente essa parcela da população.

São tempos em que usar um turbante, uma guia, um colar de contas pode ser uma sentença de morte. São tempos em que precisamos refletir e cobrar do Estado brasileiro políticas públicas efetivas de promoção da diversidade. São tempos de afirmar o candomblé, o batuque, a umbanda e todas as religiosidades negro-africanas.

É tempo de dizer que somos frutos da resistência de homens e mulheres que sobreviveram as mazelas da violência institucional provocada na escravização. Nossa tradição sobreviveu ao período mais nefasto da história do Brasil, resistiremos e ergueremos nossos oris contra a violência que tem vitimado aqueles e aquelas que vivenciam o axé, o nguzo e o saravá.

Jesus Cristo foi apedrejado pelo que dizia. Nós estamos sendo apedrejados por aqueles que dizem segui-lo. Me parece que Jesus fica mais próximo de nós do que daqueles que o seguem.

Foto: Guilherme Pinto / Extra

Foto: Guilherme Pinto / Extra

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