De George Floyd a Renee Good: a violência de Estado volta a Minneapolis
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De George Floyd a Renee Good: a violência de Estado volta a Minneapolis

Uma nova onda de protestos tomam as ruas dos EUA após o assassinato de Renee Good por um agente do ICE, polícia política de Trump a serviço de sua agenda xenofobica anti-imigração

Via Fundação Lauro Campos e Marielle Franco

No dia 5 de maio de 2020, em Minneapolis, Minnesota, um policial branco ajoelhou-se sobre o pescoço de George Floyd, sufocando-o por nove minutos até a morte. O rechaço ao crime gerou uma onda de protestos nos Estados Unidos e no mundo sob a palavra de ordem “Vidas Negras Importam”. 

Agora, seis anos depois, Minneapolis voltou ao noticiário. Na última quarta-feira (7), a menos de uma milha de distância do local do assassinato de Floyd, um agente do ICE atirou à luz do dia contra uma cidadã americana que dirigia seu carro, levando a mulher à morte. A vítima chamava-se Renee Nicole Good, tinha 37 anos e era mãe de três filhos. O crime atroz gerou revolta na população da cidade, que saiu às ruas, assim como nas autoridades locais, incluindo o prefeito e o governador, ambos democratas. 

Do outro lado da disputa, Trump pessoalmente, seus assessores e órgãos federais iniciaram uma campanha de desinformação afirmando que a mulher teria tentado atropelar agentes federais, que teriam, então, agido em legítima defesa. A mentira, contudo, é desmentida pelo vídeo que retrata a cena do crime, divulgado na mídia e nas redes sociais.     

O ICE (Immigration and Customs Enforcement) é o órgão do governo federal dos Estados Unidos responsável pelo controle de imigração e alfândega. Sua criação, em 2003, ocorreu na esteira das respostas do governo de George W. Bush aos ataques de 11 de setembro. Já em sua origem, o órgão era uma polícia interna voltada à repressão contra imigrantes. O Partido Democrata, que é crítico do ICE quando está na oposição, jamais desmontou a estrutura repressiva durante os governos de Obama e Biden. Agora, sob Trump, observa-se uma mudança na escala e na qualidade do órgão, que atua cada vez mais como polícia política do regime autoritário que o novo presidente busca estabelecer.  

A cena bárbara de Minneapolis revela essa verdade ao mundo. Mas à população estadunidense — e aos imigrantes que vivem no país —, o fato não é novidade. 

Apenas em 2025, 32 pessoas morreram em centros de detenção controlados pelo ICE. Ao menos 10 cidadãos foram baleados dentro dos seus carros, como foi o caso de Renee Good. Ao redor do país, a mando de Trump, agentes do ICE aterrorizam comunidades de imigrantes em cidades pacatas, com incursões em locais de trabalho, de lazer e em ambientes escolares. Atuando quase sempre mascarados, executam prisões políticas, a exemplo do ativista pró-Palestina Mahmoud Khalil, e são acusados de tortura. Na maioria das vezes, atuam ao arrepio de qualquer colaboração ou acordo com demais autoridades, como polícias municipais e estaduais. 

No orçamento aprovado por Trump para seu atual mandato, o órgão terá volume recorde de recursos, superior ao do FBI e até mesmo ao de muitos exércitos nacionais. O orçamento prevê que mais de 160 bilhões de dólares serão destinados ao controle de fronteiras e à repressão à imigração, irrigando um imenso complexo de prisões e viabilizando uma enorme ampliação da contratação de pessoal. O recrutamento, baseado em campanhas publicitárias ideológicas, atrai ativistas de extrema-direita para trabalhar no órgão, incluindo criminosos envolvidos na tentativa de golpe de 6 de janeiro de 2021. No âmbito privado, megacorporações como CoreCivic e GEO Group lucram com a expansão das prisões. 

A repressão em Minneapolis apresenta ainda particularidades vinculadas ao racismo. A fúria de Trump começou em dezembro de 2025, quando o presidente ordenou perseguição à comunidade somali que vive na cidade, classificando-a como um “lixo indesejado no país”. Cabe lembrar que o segundo colocado na eleição à prefeitura, em novembro, foi Omar Fateh, militante negro, membro do DSA e filho de imigrantes somalis. O presidente ainda anunciou medidas administrativas federais para retirar benefícios sociais da população local, a partir de acusações de fraude e corrupção nos governos democratas. 

Finalmente, é preciso conectar o cenário local ao internacional. Em entrevista após atacar a Venezuela e sequestrar Nicolás Maduro, Trump enalteceu a força militar estadunidense quanto à sua capacidade de atuar tanto externamente quanto internamente. O presidente exaltou as incursões que seu governo vem realizando em cidades e estados governados por democratas, seja por meio do envio de tropas da Guarda Nacional ou do ICE. A máquina repressiva do imperialismo, sob comando de Trump, pretende expandir agressões e conquistas no mundo, ao mesmo tempo que, internamente, quer esmagar os pobres, os imigrantes e as populações racializadas.  

Considerando a gravidade do que está em jogo, a mobilização pela base da sociedade estadunidense em rechaço à barbárie trumpista é cada vez mais urgente e estratégica. Em cada cidade atacada por Trump, existem amplas redes de solidariedade de imigrantes, integradas por trabalhadores comuns, conectados a advogados e ativistas. Essas comunidades experimentam, na prática, há anos, diversos modos de resistência e auto-organização. Renee Nicole Good integrava uma dessas articulações e agora se torna mártir do movimento. 

O fato ocorrido em Minneapolis já gerou uma justa revolta e contribuiu para uma nova onda de manifestações massivas em todo o país. No último final de semana, a mesma articulação responsável por convocar os protestos No Kings convocou os protestos “ICE Out for Good” (“Fora ICE de uma vez” / “Fora ICE em memória de Renee Good”). Ocorreram mais de mil manifestações espalhadas por todos os estados do país, reunindo, no caso de grandes cidades, dezenas de milhares de manifestantes. O Democratic Socialists of America (DSA) integrou a convocação dos atos. Nas ruas, a demanda é clara para que, de imediato, o ICE se retire das cidades americanas e, em perspectiva, o órgão seja extinto.  

A situação promete seguir polarizada e mais mobilizações serão necessárias.


Imagem O Futuro se Conquista

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