Por quê o show do Bad Bunny irritou tanto Trump e a extrema-direita?
Na tradicional apresentação musical do intervalo do Super Bowl, o maior evento esportivo dos Estados Unidos, o artista porto-riquenho Bad Bunny trouxe um show que celebra a América Latina e sua diversidade e faz um apelo nítido contra a política xenofóbica e racista de Trump
O Super Bowl é o auge da temporada de futebol americano, um dos esportes mais populares nos Estados Unidos, e que desde dos anos 1990 tem em seu intervalo um show de enorme audiência, batendo recordes de espectadores. Neste último, foram 135 milhões de pessoas, ou seja, 1 em cada 3 americanos estava sintonizado na transmissão para acompanhar o show do intervalo, marcando a maior audiência da história do evento, onde já estrelaram artistas como Michael Jackson e Madonna, para nomear apenas dois exemplos.
Ao longo do show, Bad Bunny trouxe diversos elementos que celebram a cultura de Porto Rico e seu povo, se utilizando da bandeira independentista do país que traz um tom de azul celeste, e também da cultura da América Latina com a presença de Ricky Martin — músico porto riquenho que se tornou um ícone musical durante as década de 1980 e 1990 — e de diversas personalidades da música ou do cinema como Jessica Alba, Pedro Pascal, Cardi B e Karol G. Todos latinos ou de ascendência latina. Foi o primeiro show do intervalo quase totalmente em espanhol, mesmo nos momentos que Bunny conversava com o público, à exceção da música performada por Lady Gaga. No fechamento da apresentação, Bad Bunny finalizou com uma forte mensagem, dizendo “Deus abençoe a América”, no entanto, com uma importante mudança, explicando que a América são todos os países que compõem o continente, enumerando todos, do sul ao norte. Enquanto isso, apresentava no telão uma mensagem escrita “a única coisa mais forte que o ódio é o amor”, fazendo referência à política da extrema-direita americana que promove o ódio e a perseguição aos imigrantes e estrangeiros.
Mas porquê um show durante um evento esportivo teve tanto impacto, inclusive ocasionando na ausência do presidente dos EUA, Donald Trump, que foi às redes com críticas ferozes ao evento acusando-o de ser uma afronta aos valores “americanos”?
Como apresentamos anteriormente no texto “Abolir o ICE”, a xenofobia e a perseguição aos imigrantes representam um dos grandes pilares da extrema-direita mundial, e nos Estados Unidos essa política ganhou ainda mais importância com a utilização da polícia migratória americana praticamente como uma força política paramilitar. O Super Bowl acontece em um momento de grande tensão no país, após uma série de assassinatos e de violência por parte do ICE e após uma importante reação de vários setores da sociedade contra a publicação por Trump de um vídeo racista que retratava o ex-presidente Obama e a ex-primeira dama Michelle Obama como macacos, o que gerou uma comoção grande e obrigou a Casa Branca a apagar o post e tentar desvincular Trump da elaboração do post.
Para a extrema-direita, a desvalorização e desumanização de todos aqueles considerados alvos prioritários é uma das tarefas essenciais em busca de autorização para suas políticas de perseguição e ataques imperialistas. É justamente neste ponto que um show com a visibilidade que o Super Bowl possui, somado ao alcance que Bad Bunny — um dos artistas mais ouvidos em todo o planeta — e a uma performance que busca valorizar a cultura daqueles que a extrema-direita classifica como “perigosos” ou “não desejados” é tão potente. Estava colocado o orgulho latino, de ser, se expressar e resistir em um dos maiores símbolos dos Estados Unidos, o Super Bowl. A união dos povos da América Latina é um passo importante para a derrota do imperialismo norte-americano, seja na luta interna ou na resistência aos seus ataques aos países latinos, e, como muito bem colocou Bad Bunny, na frase escrita na bola oval que trouxe no final do seu show: Juntos, nós somos América.