Os redpills estão se criando: Derrotar a extrema direita e a misoginia na juventude
Cresce entre jovens a influência da ideologia “redpill”, ligada à extrema direita, que promove misoginia e valores conservadores como reação aos avanços feministas, refletindo-se em dados preocupantes e casos concretos de violência, o que exige enfrentamento por meio de educação, políticas públicas e mobilização social.
Nos últimos anos, uma disputa silenciosa e perigosa tem avançado entre a juventude. Enquanto uma geração cresceu marcada por lutas progressistas importantes, como as Jornadas de Junho de 2013, a Primavera Feminista de 2015, as Ocupações de Escolas de 2016 e diversas mobilizações internacionais, outra vem sendo capturada por uma ideologia reacionária, misógina e profundamente violenta: o chamado universo “redpill”. Não se trata de algo pontual ou uma exceção. É um fenômeno político fortemente influenciado por figuras da extrema-direita, representados por lideranças como Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro, entre tantos outros.
Da Primavera Feminista ao avanço conservador
Em 2015, o Brasil assistiu a uma das maiores mobilizações feministas da sua história recente. Jovens mulheres tomaram as ruas para barrar retrocessos liderados por figuras como Eduardo Cunha, defendendo direitos sexuais e reprodutivos já conquistados e denunciando a violência estrutural contra as mulheres. Aquela geração mostrou que a juventude pode ser protagonista na defesa de direitos.
Mas uma década depois, vemos um movimento contrário ganhando força, especialmente entre jovens homens. A extrema direita compreendeu algo estratégico: disputar a juventude não é apenas importante, é decisivo. E passou a investir pesado nisso, utilizando redes sociais, influenciadores e discursos simplificados para canalizar frustrações reais em respostas profundamente reacionárias. A falta de regulamentação das big techs é um espaço que permite que isso se amplie de forma incontrolável.
Os números não mentem e são alarmantes! Uma pesquisa recente da Ipsos, feita com pessoas de 29 países, incluindo o Brasil, revela o tamanho do problema:
33% dos jovens concordam que a esposa deve obedecer ao marido
59% afirmam que os homens estão sendo cobrados demais para apoiar a igualdade de gênero
21% acreditam que homens que cuidam dos filhos são menos masculinos
Esses dados não são apenas opiniões isoladas. Eles revelam uma mudança cultural em curso. O que está sendo construído é uma narrativa que tenta transformar avanços feministas em “ameaças” aos homens, uma inversão completa da realidade. Ao invés de questionar desigualdades históricas, o discurso redpill cria um inimigo fictício: as mulheres que lutam por igualdade.
Essa ideologia não fica apenas no discurso. Ela se materializa em práticas concretas e muitas delas tem sido dentro das escolas. Casos recentes no Rio Grande do Sul escancaram essa realidade. No Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), em Pelotas, estudantes foram suspensos após criarem um “ranking sexual” com fotos de colegas adolescentes. No Colégio de Aplicação da UFRGS, denúncias apontaram a manipulação de imagens de alunas para exposição e humilhação. Esses episódios não são exceções.
A violência machista entre jovens sempre existiu, mas hoje ela se reorganiza, ganha linguagem própria e se legitima em comunidades online que normalizam o desrespeito, a objetificação e o ódio. E há um agravante: a dificuldade de denúncia. Muitas meninas não se sentem seguras para expor essas situações, seja por medo de retaliação, seja pela banalização dessas práticas ou pela falta de protocolos efetivos que combatam a misoginia nesses espaços.
A extrema direita disputa corações e mentes
O crescimento da ideologia redpill não acontece por acaso. Ele está inserido em um projeto político maior da extrema direita, que busca reorganizar a sua base social a partir de pilares como o autoritarismo, o conservadorismo moral e a manutenção do poder.
Ao falar diretamente com jovens homens, especialmente aqueles que se sentem inseguros, frustrados ou sem perspectiva, esse discurso oferece respostas fáceis e um falso senso de pertencimento. Mas o custo disso é alto: a naturalização da desigualdade, o reforço da violência e o ataque direto às conquistas feministas.
Derrotar o redpill é tarefa da nossa geração
Não basta denunciar. É preciso disputar.
A juventude que foi capaz de construir a Primavera Feminista precisa, agora, enfrentar um novo desafio: impedir que a misoginia organizada se consolide como referência política entre jovens.
Isso passa por alguns caminhos fundamentais:
- fortalecer o debate feminista nas escolas e universidades
- criar espaços seguros de escuta e denúncia para meninas e jovens mulheres
- disputar as redes sociais com linguagem acessível e politizada
- dialogar com jovens homens, sem abrir mão de princípios, mas enfrentando as contradições desse processo
No meio de toda essa confusão, ainda temos o risco do movimento “Gender Gap”, uma verdadeira divisão entre “homens de direita” e “mulheres de esquerda”. Esse movimento demonstra, na prática, que homens tendem a priorizar pautas conservadoras. Cerca de 50 a 54% do público masculino se identificam com pautas de direita e centro-direita.
A história mostra que nenhum direito foi conquistado sem luta. E também mostra que todo avanço pode ser atacado. O crescimento da ideologia redpill é um sinal de alerta. Mas também é um chamado à ação.
Hoje temos dois mecanismos importantes para disputar contra essa ideologia, representada por figuras feministas do MES/PSOL. O primeiro é uma campanha pública pela aprovação do PL Anti Redpill, proposto pelas deputadas Sâmia Bomfim e Fernanda Melchionna. A possível aprovação desse projeto levaria a criminalização da promoção e a incitação de conteúdo misógino na internet, espaço que cultiva, incentiva e inclusive monetiza conteúdos Redpill. O segundo é o protocolo proposto por Luciana Genro e Fernanda Melchionna, que pretende proteger as meninas da violência machista em locais de estudo, além de propor uma política de formação permanente aos profissionais da educação.
Se a extrema direita está se organizando para disputar a juventude, nós não só precisamos também estar, como precisamos subir o tom na disputa. Com coragem, com firmeza e com a certeza de que essa política nefasta de ódio e misoginia não representa a juventude e não apresenta um projeto de mudança da sociedade.
Derrotar a ideologia redpill não é apenas uma disputa de ideias, é uma necessidade para garantir o futuro que queremos.