Coragem é um sentimento coletivo: As lições da greve na USP e os próximos passos
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Coragem é um sentimento coletivo: As lições da greve na USP e os próximos passos

As lições da greve na USP e os próximos passos

Juntos! USP 14 jun 2026, 16:53

Pela primeira vez em pelo menos 20 anos, os estudantes da USP aprovaram em Assembleia Geral uma saída unificada de greve após intensos 55 dias de luta constante. Em uma universidade já bastante marcada por suas greves estudantis, a de 2026 sem dúvida foi marcada por alguns ineditismos. Onde as demandas concretas não atendidas não explicam tudo. É necessário conhecer o contexto e o percurso para saber para onde vamos, sobretudo para aprender como construir novas e maiores lutas, seja na USP ou na sociedade.

Onde a greve se localiza?

A greve de estudantes da USP não se deu no vácuo. Ela se deu em uma conjuntura complexa e de intensa disputa dos rumos da crise em que vivemos. Mesmo com a precarização crescente e com o avanço de discursos da extrema direita, a esquerda majoritária segue defendendo que devemos “esperar as eleições” e não faz nenhuma convocação para disputar os rumos da sociedade nas ruas. A maior prova disso foi a aprovação na Câmara dos Deputados do fim da escala 6×1, uma grande vitória da classe trabalhadora que teve como pontapé mobilizações orgânicas, mas que foi incorporada pela lógica parlamentar e pelas negociações com os grandes empresários, desperdiçando a oportunidade de conquistarmos um projeto mais avançado e de iniciarmos uma jornada de lutas contra a precarização do trabalho. No movimento estudantil a nível nacional, vemos também a ausência de iniciativas de luta. A última grande mobilização nacionalizada foi o Tsunami da Educação contra Bolsonaro em 2019. O que permitiu a greve da USP e das demais estaduais paulistas ser uma realidade diante deste contexto?

A partir da crescente indignação dos estudantes em cada canto da USP com a precarização do nosso ensino e da nossa permanência, o movimento estudantil da USP fez uma aposta consciente em tentar transformar essa indignação em luta. Nenhuma greve nasce do zero. Foi não normalizando a larva no bandejão, fazendo catracaço, denunciando os problemas cotidianos, que buscamos demonstrar aos estudantes que vivermos sobre precarização não é justo e que precisamos lutar contra isso. A greve dos funcionários técnico-administrativos, que deu um pontapé no processo de lutas da universidade, denunciando as desigualdades da USP, nos ajudou a mostrar um caminho: com coragem e aposta na massificação, conseguiram emplacar uma forte mobilização que arrancou conquistas. Nós do Juntos! acompanhamos esse processo de perto junto ao Sintusp e com o Coletivo Mover, movimento impulsionado pela nossa organização entre trabalhadores da USP. Vimos nesse processo uma fonte de inspiração e a possibilidade de construir uma greve unitária e de maioria.

A aposta do movimento estudantil liderado pelo DCE Livre da USP não se deu, no entanto, na “greve pela greve”. Desde o início, nosso objetivo era de condicionar a existência da greve à construção de um movimento de maioria. Ou seja, não nos interessava sustentar uma lógica do movimento estudantil “de poucos”. Sabíamos que a força da nossa luta dependia da unidade que construíriamos entre os estudantes da USP, junto às entidades de base e impulsionando a auto-organização estudantil. Felizmente, conseguimos impulsionar assembleias com milhares de estudantes, atos massivos dentro e fora da universidade e retomamos métodos históricos do movimento estudantil, como a ocupação da Reitoria – tudo isso a partir da massificação e na busca ativa pelo envolvimento do maior número de estudantes.

São Paulo contra Tarcísio

Com a greve na USP deflagrada, outras universidades estaduais também foram contagiadas pelo processo de luta, com assembleias e greves bastantes massificadas na UNESP e na UNICAMP, mas principalmente, a greve se tornou um fato político na sociedade paulista e alvo de debate sobre as consequências do governo Tarcísio. 

Construímos ao longo de semanas atos unificados do movimento estudantil paulista no CRUESP, com o destaque para a maior manifestação já realizada contra o governo Tarcísio nesses quase 4 anos, unificando mais de 15 mil estudantes do interior à capital, mas também com representações de categorias também em luta, como a greve dos municipários de SP e os metroviários na batalha contra as privatizações. 

A greve da USP ajudou na difícil tarefa que é derrotar Tarcísio em São Paulo. Que apesar de um governo de muitos ataques, desponta na frente nas pesquisas e tem grandes chances de reeleição. Construir hoje um grande pólo de lutas contra Tarcísio e seu programa privatista e de extrema-direita, é cumprir o desafio de não permitir que surjam novas falsas alternativas autoritárias, colocando na ordem do dia o nosso programa de defesa dos serviços e funcionalismo público.

O movimento

A magnitude dessa greve só foi possível por um acúmulo de experiências do movimento estudantil. Em primeiro lugar, a ampla adesão às mobilizações reflete o novo perfil de estudantes que hoje ocupam a USP. Os muitos anos de luta pelas cotas, que passou também por uma greve, garantiu que milhares de estudantes pobres, negros e periféricos entrassem dentro na universidade.

A USP, no entanto, com sua estrutura antidemocrática e elitista, se demonstrou incapaz de garantir condições mínimas de estudo a esses novos estudantes. Essa contradição explodiu justamente nessa greve, quando estudantes que a vivem cotidianamente tomaram a decisão de impulsionar mobilizações em cada instituto, possibilitando uma greve de maioria, com a adesão de diversos cursos e campis com pouca tradição de adesão às lutas gerais na USP.

Outra experiência importante foi a greve de 2023, que forneceu experiência de mobilização e organização para as entidades estudantis, em especial para o DCE Livre da USP. Chegamos na greve de 2026 com uma maior capacidade de articulação com Centros Acadêmicos e com acúmulo para a construção dos espaços de debate e também para a convocação dos grandes atos que impulsionamos. O conjunto do movimento percebeu isso e legitimou a direção da sua entidade geral, que não perdeu uma única votação nos espaços gerais, não por imposição, mas por conexão com as bases e pela busca constante pela síntese, pelo consenso e pela unidade entre os estudantes.

A capilarização dos processos de luta e aglomeração dos diversos estudantes permitiu que se criasse um movimento de ruptura da lógica cotidiana da universidade. As contradições da universidade foram postas à mostra por meio das reivindicações justas por condições dignas de estudo. A resposta da instituição foi de violência, seja no âmbito burocrático com promessas de reprovação e expulsão em massa ou seja na utilização da polícia militar no campus, algo que desafiou os estudantes diversas vezes, buscando desmoralizar as bases. No entanto, os estudantes agiram com coragem e seriedade perante uma estrutura universitária elitista, desvelando a falta de democracia e vontade real de mediação pela reitoria. Nas diversas tentativas da burocracia de aterrorizar os alunos, a força de mobilização se mostrava inabalada, questionando precisamente a estrutura que permitia o sucateamento da universidade e que se tornava intransigente quando isso era questionado massivamente.

O saldo do movimento estudantil não se resume somente às conquistas concretas de mudança de serviços e políticas, mas toca em algo mais profundo. A greve demonstrou que era possível construir a mudança por meio da auto-organização democrática dos alunos numa intervenção nos diversos espaços da USP. Além disso, a luta justa dos estudantes e as táticas covardes da reitoria disputaram a consciência de outros setores, como os professores, que diversas vezes atuaram para legitimar e apoia os alunos e sua mobilização. Assim, a USP se demonstrou como um território de disputa de projeto político, no qual todo e qualquer avanço das pautas estudantis não se deram na falsa democracia universitária e suas instâncias unilaterais, mas foram arrancadas à força por meio de muita coragem e massificação do movimento. 

O fim e o recomeço

Como qualquer processo de mobilização, a greve na USP contém contradições internas que ditam seu alcance e seu fôlego. Apesar de um começo massivo em conexão com a greve dos servidores, era natural que a adesão se desgastasse ao longo do tempo, ainda assim, cada ataque da reitoria serviu para reacender a indignação estudantil e reafirmar a compreensão de que a nossa luta ia além das reivindicações imediatas dos estudantes, se tratava de uma disputa contra a estrutura da universidade de São Paulo. 

As primeiras negociações arrancaram conquistas importantes; a isonomia da oferta de refeições nos bandejões da capital ao interior a revogação da minuta de ataque aos espaços estudantis, um calendário institucional para debate e implementação de cotas trans e vestibular indígena, a gratuidade em ônibus que conectam a cidade universitária com o centro de São Paulo e o GT para construção de moradia estudantil na EACH. Essas são conquistas fundamentais e muitas delas históricas do movimento estudantil frutos dessa greve.

É inegável que a falta de uma proposta de aumento real do PAPFE e de desterceirização dos bandejões, pautas fundamentais na greve, deixa um gosto amargo e um sentimento de frustração sobre cada lutador que esteve construindo esse processo mas também escancara a real face desta reitoria, anti-democrática e elitista. 

A decisão unilateral de interromper o diálogo evidenciou a postura autoritária da Reitoria, mas não impediu que a greve avançasse além do esperado, disputando a opinião pública e obrigando a administração a retomar as negociações. Nas semanas finais, porém, a correlação de forças se alterou. Apesar da ocupação e da desocupação terem trazido fôlego ao movimento, a segunda rodada de negociações, intermediada pela Comissão de Mediação externa, expressou a continuidade da intransigência da Reitoria e uma aposta da burocracia no nosso cansaço. Com o desgaste do movimento e a diminuição gradual das assembleias e atos, tornou-se necessário construir uma saída unificada que preservasse a coesão acumulada. Assim, ineditamente em muitos anos, os estudantes da USP votaram por um fim unificado da greve com indignação sobre aquilo não conquistado, mas demonstrando uma maturidade do movimento que deve ser fomentada. 

Requereu-se coragem para enfrentar a reitoria perante seus diversos ataques e para radicalizar o movimento cada vez mais, e isso só foi possível por causa de uma coletividade massiva. Similarmente, requereu-se coragem para lidar com a realidade como ela é e não como queríamos que ela fosse, e reconhecer os limites da greve. Isso também se deu de forma coletiva, mantendo a coesão de um movimento que vai muito além de um processo grevista particular. A luta por democracia universitária precede essa geração e seguirá mesmo após todos os atuais estudantes se formarem. Orgulhosamente fizemos parte desse processo, deixando exposto os limites da atual estrutura da universidade.

Da luta à organização

Talvez, se for possível elencar, o saldo que pode ser extraído dessa greve não é medido apenas pelas conquistas arrancadas, pelas demandas que permanecem em aberto ou pelos feitos realizados. O principal legado desses 55 dias foi certamente o avanço da consciência coletiva de estudantes que descobriram, na prática, a força da organização e da luta. Uma geração inteira compreendeu que as transformações que precisamos não virão da espera do tempo das instituições, mas sim da força e da potência das mobilizações concretas que construímos. A greve formou novas lideranças, fortaleceu entidades e aproximou estudantes de lutas que ultrapassaram os muros da USP.  A greve na USP demonstrou que é possível, apesar de difícil, lutar por uma nova alternativa de esquerda. Se hoje encerramos um ciclo, fazemos isso com a certeza de que saímos mais preparados para os próximos enfrentamentos.  

A conjuntura posta estadual, nacional e internacionalmente apresenta desafios claros contra os quais os estudantes têm a tarefa de serem protagonistas. A luta contra o sucateamento da educação pública, contra a precarização da vida e contra o avanço da extrema-direita exigirá mais organização e coragem para construir alternativas coletivas. Nesse sentido, o próximo passo para todos aqueles que fizeram essa greve é seguir organizados. Nós do Juntos! Seguiremos apostando na indignação, mobilização e organização da juventude para construir um movimento estudantil combativo para enfrentar os desafios do nosso tempo, pois sabemos que o fim desta greve está longe de ser o fim da luta. E é organizados que teremos força para disputar não apenas a USP que queremos, mas um mundo radicalmente diferente.

Por isso, fazemos um convite a cada estudante que construiu a greve da USP, sustentou piquetes, participou das assembleias e dos atos a se organizarem coletivamente com o Juntos! Fomos capazes de ir da indignação à luta; agora, precisamos ir da luta à organização para construir novas batalhas dentro da nossa universidade e forjar uma nova alternativa de movimento estudantil, que seja cada vez mais amplo, democrático e politizado, conectado tanto com as nossas demandas mais imediatas, mas também com a disputa de sociedade contra a extrema direita, a conciliação de classes, a precarização do trabalho e a crise ambiental. A nossa luta demonstrou: a coragem é um sentimento coletivo. Que a nossa coragem seja combustível para lutar, organizar e construir um futuro anticapitalista e ecossocialista! 


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