Sim, eles podem. Porém, não confundam as coisas.

12/mar/2015, 17h33

 Annie Schmaltz Hsiou

Hoje uma companheira do Juntas! Ribeirão Preto publicou este meme em nosso grupo privado do Facebook, o que me levou a escrever este texto. Antes que eu chegue no tópico, tenho que dizer algumas coisas sobre como a cultura do senso comum machista afeta a vida tanto de homens trabalhadores quanto a vida de mulheres trabalhadoras. Recentemente, há exatos cinco meses, voltei a trabalhar depois dos meus ótimos seis meses de licença maternidade, mas durante o tempo de licença, eu trabalhei. Prá quem não sabe, sou professora universitária. Oriento alunos na graduação e na pós-graduação e preencher e assinar formulários, ler e corrigir relatórios, dissertações e teses, independia da condição materna no meu ponto de vista. Enfim, logo nas duas primeiras semanas de licença maternidade, tive a oportunidade de ser revisora de dois grandes trabalhos científicos na minha área. Aceitei de imediato, caindo na ilusão que conseguiria ser mãe e cientista ao mesmo tempo. Me enganei. Passados dois dias, escrevi aos editores das revistas científicas justificando que não poderia revisar os trabalhos porque meu filhinho tinha apenas alguns dias. Quanta contradição do que eu disse ali em cima! A vontade era imensa de poder estar a par das últimas novidades científicas e ainda por cima, poder dar “pitacos” nos trabalhos dos outros! Porém, a realidade me mostrou que não era bem assim. Se ser mulher e trabalhadora já é difícil, imagina sendo mãe e tudo isso junto. A partir daí desapeguei da vida acadêmica e quanto mais a data de retorno ao trabalho se aproximava, mais sentia saudade do meu filho e da minha casa.

Foi aí que comecei a refletir sobre a licença paternidade. Hoje, no caso do Banco do Brasil, onde meu companheiro trabalha, é de apenas dez dias úteis. Se aqui fosse algum país europeu (principalmente nórdico/escandinavo), quando a licença da mulher termina, o pai, através da licença paternidade, pode cuidar dos filhos por mais seis meses. Desta forma, o primeiro ano de vida do bebê estaria resguardado e garantido na forma da presença contínua dos pais. Isso não ocorre aqui na nossa “republiqueta das bananas”. Muito pelo contrário, imediatamente que se encerra a licença maternidade, a mulher deve retornar ao trabalho, às vezes em jornadas similares ou superiores de trabalho de antes de ficarem grávidas – e que por muitas vezes, a estratégia adotada por muitas mães trabalhadoras é emendar as férias afim de prolongar a licença maternidade. Eu vivi esta jornada de trabalho excessiva e estou vivendo até agora, tendo de ser mãe integralmente e trabalhadora de dedicação total a docência e pesquisa. E ainda sou obrigada a escutar discursos machistas de Bolsonaros da vida, que só vocalizam ainda mais o argumento do senso comum que as mulheres trabalhadoras que optam por ter filhos afetam diretamente na produção, pois durante a gravidez, já nos tornamos incapazes de exercer certas habilidades no meio de trabalho; e ainda pior, a licença maternidade é uma pausa na produção e um desperdício de tempo para as estruturas capitalistas. Um dia desses, um homem no meu trabalho, branco, hétero, de classe média-alta, falou perto de mim que achava um absurdo mulheres terem dois filhos seguidos (influenciado pelo discurso à lá Bolsonaro)… E depois tem gente que diz que não existe machismo e sexismo no ambiente de trabalho! Por isso, uma imediata revisão da política nacional sobre a licença paternidade também se torna iminente no contexto das mulheres trabalhadoras brasileiras.

À reboque desse discurso perverso, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, promoveu uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) no Supremo Tribunal Federal contra a lei que regulamenta a licença-maternidade de funcionárias públicas em estágio probatório. Atualmente, toda servidora pública tem direito aos seis meses de licença maternidade, independentemente da época do ano ou do tempo de serviço. Se for aprovada a ADI de Alckmin no Supremo Tribunal Federal, as servidoras gestantes que estão no período de estágio probatório terão que repor os seis meses de licença maternidade quando retornarem ao trabalho. Este período de reposição também será computado como período de estágio probatório, ou seja, elas deverão trabalhar mais seis meses para que a estabilidade no setor público seja de fato garantida. Na prática, isso significa a abolição do direito pleno das mulheres à licença maternidade, e principalmente desestimula as mulheres a engravidarem no período em que desejarem, o que significa uma perda importante do controle sobre os desejos e escolhas das mulheres sobre suas vidas, seus corpos, seus direitos reprodutivos (ver http://juntos.org.br/2015/02/alckmin-retira-o-direito-das-servidoras-publicas-a-licenca-maternidade-no-periodo-de-estagio-probatorio/). E para piorar a situação das servidoras públicas estaduais, principalmente as mães que trabalham na Universidade de São Paulo, recentemente a Superintendência de Assistência Social (SAS), órgão da Reitoria, cortou 141 vagas nas cre­ches da USP, impedindo assim o ingresso das crianças selecionadas em 2014. A SAS alega que o Programa de Incentivo à Demissão Voluntária (PIDV) desfalcou o serviço e que segundo a SAS e a Reitoria inviabiliza a abertura de vagas, prin­ci­palmente no berçário, onde trabalhava o maior número desses funcionários. Em resposta ao corte de vagas e à recusa da Reitoria em dialogar, pais e mães organizaram protestos; as mães, muitas são alunas da USP e estão impedidas de desenvolver seus estudos (ver em http://juntos.org.br/2015/02/sou-mae-e-a-usp-esta-me-proibindo-de-estudar/).

Mas voltando ao tópico deste texto. Sim, homens podem cuidar das tarefas domésticas e dos filhos porque eles não são seres sobrenaturais que foram concebidos à imagem e semelhança de um deus, e que esse deus a partir de uma costela de um Adão, criou a mulher Eva. Homens do gênero masculino são grandes mamíferos primatas como qualquer outro humano ou gênero da espécie humana. Contudo, quando é um homem que toma frente da lida da casa, que larga o emprego e se “sacrifica” pela família, ele, somente ELE, ganha o respaldo e admiração dessa sociedade machista, sexista e heteronormativa. Se é o contrário, como acontece na grande maioria das famílias, onde a mulher é quem fica em casa e com os filhos, ELA não fez mais do que a sua obrigação, ELA foi criada para isso desde que nasceu (e blá, blá, blá…). Então, de certa forma, é natural que aceitemos a condição de donas do lar. Isso não sou eu que estou dizendo, é o discurso do senso comum que percola em nossa sociedade e que já está tão enraizada que tem gente que acredita que isso é a regra (seja por questões biológicas, culturais e/ou sociais, pois o machismo já vem embutido nessa história toda há muito tempo).

O homem é culturalmente criado para ser o provedor da família, a figura patriarcal onde há segurança e bem estar na família. Neste sentido, homens também sofrem com o machismo pelo fato de existir numa sociedade como um todo, esse tipo de mentalidade. É muito injusto com as mulheres, mas o machismo masculino também se vê em relação aos homens gays, onde impera a cultura do senso comum que homem tem que ser machão e que não aceita o fato de homens gostarem afetivamente e sexualmente de outros homens; não é à toa que o Brasil é o campeão mundial de crimes homofóbicos. O risco de um homem homossexual ser assassinado no Brasil é 785% maior que nos Estados Unidos. Penso que existem várias abordagens que nós mulheres podemos auxiliar para a desconstrução de todas essas ideias e construir novos meios e ferramentas para educar os futuros homens de amanhã (meu filho p.ex.). Cabe a nós, mães e mulheres feministas que refletem sobre a realidade, formar esses homens, para que defendam uma sociedade mais justa e igualitária e que sejam acima de tudo, feministas – e por quê não?

SIM, homens podem cuidar da casa e dos filhos. Porém não confundam as coisas. O machismo existe e nem os homens estão livre disso.

Annie Schmaltz Hsiou, Professora do Departamento de Biologia da FFCLRP/USP e militante do Juntas! Ribeirão Preto