Derrotar a 6×1 nas ruas!
Em meio às negociações do andar de cima, a organização e a mobilização contra a precarização da vida é a nossa única chance de vitória
Iniciamos o mês de maio com a possibilidade de aprovação de uma das principais pautas da classe trabalhadora brasileira no último período: o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho para 40h. Mais do que uma reivindicação imediata, essa luta expressa hoje o conflito entre as necessidades dos 99% que vivem dos frutos do próprio trabalho e do 1% que segue enriquecendo às custas da exploração, da precarização da vida e do controle do nosso tempo.
Ainda em 2024, quando a pauta ganhou força a partir da PEC protocolada pelo PSOL que propunha o fim dessa escala desumana, vimos grandes mobilizações nas ruas em apoio à proposta. A última pesquisa realizada pelo Datafolha sobre o tema indica que 71% dos brasileiros são contra a escala 6×1, demonstrando que é uma pauta com apelo de massas e potencial de mobilização. Por ser uma pauta de maioria social, a própria extrema-direita e os setores representantes do mercado encontram dificuldades para serem abertamente contrários a ela, atuando no sentido de desidratar a proposta ao máximo, mantendo os interesses dos empresários e reduzindo ao mínimo qualquer concessão à classe trabalhadora, como expressa a proposta de compensação financeira às empresas, emenda proposta pelo Nikolas Ferreira, do PL.
Ao mesmo tempo, o governo Lula aposta na institucionalidade e nos acordos por cima com o centrão e com a direita, repetindo a mesma tática que já levou a inúmeras derrotas políticas, como demonstrou a derrota acachapante no Senado na penúltima semana. Ao invés de canalizar a indignação social em torno da 6×1 para um processo de mobilização permanente, o governo prefere subordinar a luta ao ritmo das negociações no parlamento, enfraquecendo iniciativas que poderiam servir como ponto de partida para construção de uma saída pela mobilização, como ficou expresso no esvaziamento do 1º de maio. A própria proposta apresentada pelo governo parte de uma mediação, limitando a redução da jornada às 40h quando poderíamos usar do debate que se abriu na sociedade para impor não apenas o que é possível, mas o que queremos. E mesmo uma proposta já mediada ainda corre risco de ser diluída pela extrema-direita, impondo emendas que podem fazer com que só consigamos o fim da 6×1 em 10 anos.
Além disso, sem valorização real dos salários, a redução da jornada por si só não garante mais tempo livre: para grande parte da classe trabalhadora, isso significa apenas mais tempo disponível para serem preenchidos com outros trabalhadores precários para garantir a sobrevivência. E isso não é um fenômeno novo. A redução da jornada de trabalho é uma das, senão a principal, lutas históricas da classe trabalhadora. Ela nasce junto com o capitalismo, que impõe uma dinâmica incessante de busca pelo controle do tempo de quem trabalha, em que se busca ampliar permanentemente a exploração do trabalho, reduzir ao máximo o tempo de descanso e de alimentação, precarizar os postos de trabalho e rebaixar salários. A única barreira de contenção a essa lógica sempre foi a mobilização da classe trabalhadora a nível internacional contra a principal contradição imposta pelo capitalismo: a disputa entre aqueles que trabalham e aqueles que se apropriam do lucro produzido pelo trabalho alheio. É diante desse cenário que se impõe a luta pelo fim da 6×1.
A força que a luta contra a 6×1 assumiu não diz respeito apenas à rejeição de uma escala brutal de trabalho. Ela abriu, talvez pela primeira vez em décadas, um debate mais profundo na sociedade sobre o próprio sentido do trabalho. Não apenas sobre o que a classe trabalhadora não suporta mais, mas sobre para quê, para quem e em quais condições se deve produzir. Em um contexto de aprofundamento da precarização da vida, da crise climática e do acirramento das guerras, a disputa sobre a jornada de trabalho também recoloca uma questão que pra nós é estratégica: faz sentido que a vida da classe trabalhadora siga subordinada à necessidade permanente de ampliar os lucros do 1%, mesmo que isso signifique aprofundar o colapso social e ambiental, e precarizar ainda mais as condições de vida dos 99%? Queremos apontar um outro caminho, porque se a história da classe trabalhadora nos mostra que nenhuma redução da jornada de trabalhado foi concedida de bom grado pelos de cima, é justamente na força da mobilização que devemos nos apoiar para impor uma derrota aos setores que dependem do aumento permanente da exploração do trabalho e do mundo para aumentar seus lucros.
É diante desse cenário que o mês de maio nos coloca diante de uma tarefa central: construir e impulsionar toda iniciativa de luta pelo fim da 6×1. Onde elas já existirem, devemos fortalecê-las, e onde ainda não existirem precisamos ser o setor que vai ajudar a construí-las, nos apoiando na articulação com diferentes setores do movimento estudantil, dos sindicatos e das cidades. A iniciativa das sextas pelo fim da 6×1, impulsionada pelo Juntos!, devem servir como dias nacionais de agitação, mobilização e pressão até a votação final da proposta, apontando um caminho de luta nas ruas, independente da tática de conciliação do governismo. Devemos aproveitar a semana da votação final (26 e 27/05) pra construir um dia nacional de mobilizações que expressem um um sentido de enfrentamento diferente do que foi o 1º de maio, apostando em ações de maior radicalidade, como ocupações de shoppings, grandes estabelecimentos e locais que sustentam a 6×1. Diante das debilidades do governo, nosso papel não deve ser o de assistir passivamente às negociações parlamentares. Devemos ser o polo que organizará outra tática para conquistar essa vitória: apontar um caminho nas ruas para transformar a indignação existente em um sentido comum de organização capaz de impor uma derrota à extrema-direita e aos capitalistas, que buscam manter a escala 6×1.
Nós não nascemos para morrer de trabalhar!