A Copa dos Filhos da Diáspora
Em um torneio disputado no coração da maior potência imperialista do planeta, centenas de jogadores carregam em suas histórias as marcas da diáspora, do colonialismo e das migrações que transformaram o mundo.
A Copa do Mundo da Fifa acontece de quatro em quatro anos e sempre é marcada pelo entretenimento, pela paixão pelas seleções e por uma admiração por ídolos que entram em campo defendendo suas seleções. No entanto, as copas do mundo sempre trouxeram consigo grandes debates geopolíticos, pois acabam refletindo a realidade de cada país que a disputa. Desde as copas do final dos anos 90 e início dos anos 2000 com a dissolução da Iugoslávia, passando pela construção dos estádios e a tensão política no Brasil em 2014 e a situação dos trabalhadores do Catar em 2022.
Esse ano, em mais uma copa, não seria diferente. O país sede, Estados Unidos, está no momento sendo governado pelo extremista de direita Donald Trump, que vem deliberadamente fazendo diversos ataques no Oriente Médio e na América Latina, além de ter uma política totalmente contrária à imigração, prendendo e expulsando imigrantes da “terra da liberdade”. É nesse cenário que a competição mais importante do esporte mais assistido do mundo acontecerá, em um país que promove guerras, genocídios e invasões ao redor do globo, enquanto no seu território persegue e expulsa imigrantes sem nenhum escrúpulo, ao mesmo tempo que recebe aplausos e prêmios do presidente da FIFA, que endossa a política fascistóide de Donald Trump.
Frente a essa e diversas outras discussões que a Copa do Mundo pode trazer, pretendemos pensar sobre a realidade dos jogadores frutos da imigração, no movimento diaspórico que acontece da África e América Central para todo o mundo e que se reflete também no futebol. Essa é a copa do mundo onde mais temos jogadores filhos de imigrantes ou com raízes em outros países defendendo outras seleções, ao passo que também é a copa do mundo onde mais jogadores retornam aos países de seus ancestrais para defender a nação das raízes de sua família. Esses dados colocam ainda mais em evidência todo um debate sobre imigração, que se faz presente não só nos EUA, mas por toda a Europa, que reflete também os movimentos anti-imigração tratando diversos desses jogadores com preconceito, inclusive desqualificando sua nacionalidade e sua aptidão em defender suas seleções.
Entre as 48 seleções nacionais que disputarão a Copa, são 289 jogadores espalhados por 40 seleções, nascidos fora dos respectivos territórios. A palavra diáspora costuma ser utilizada para descrever populações que, por guerras, perseguições, pobreza, colonialismo ou crises econômicas, foram obrigadas a migrar para outros territórios. Nas últimas décadas, o mundo assistiu a intensos movimentos migratórios vindos da Palestina, do Haiti, de diversos países africanos, do Oriente Médio e de regiões devastadas por conflitos ou pela desigualdade econômica produzida pelo próprio sistema capitalista internacional.
Os filhos dessas famílias nasceram ou cresceram em países diferentes daqueles de seus pais, carregam identidades múltiplas, falam mais de um idioma, frequentemente convivem com duas ou três culturas ao mesmo tempo e hoje ocupam os gramados das principais competições esportivas do planeta.
Lamine Yamal, principal estrela da seleção espanhola, é filho de pai marroquino e mãe bissau-guineense. Nasceu na Espanha, cresceu na Espanha e veste a camisa da Espanha. Ainda assim, para setores racistas da sociedade espanhola, isso não basta. No início do ano, durante um amistoso contra o Egito, Yamal foi alvo de ataques islamofóbicos. Como tantos outros antes dele, descobriu que para determinados grupos sua nacionalidade é constantemente colocada em dúvida.
O fenômeno não é novo. Em 1998, quando a França conquistou sua primeira Copa do Mundo, a seleção era celebrada como símbolo de integração. Vinte anos depois, muitos dos mesmos setores políticos que exaltavam a diversidade passaram a questionar a presença de jogadores descendentes de africanos. O sucesso era francês; os problemas, diziam alguns, vinham dos imigrantes.
O contexto da seleção francesa é de fato um ponto alto do debate que se coloca nos dias de hoje, pois mesmo tendo cerca de 90% de jogadores nascidos no território francês no elenco da seleção, a equipe convive com diversas críticas e desinformações que servem para atacar os jogadores, mas principalmente os imigrantes de todo o mundo. O fato é que desde o último título da seleção francesa, que se tornou uma das grandes concorrentes na disputa, todo o sucesso e conquistas foram descredibilizados pela ascendência e origem dos atletas e suas famílias.
Não por acaso, as seleções favoritas da atualidade são marcadas por essa diversidade. França e Espanha talvez sejam os exemplos mais visíveis, mas estão longe de ser casos isolados. Marrocos, semifinalista em 2022, construiu grande parte de sua campanha histórica com atletas nascidos ou formados em países europeus.
A mídia esportiva tem noticiado o alto número de atletas que disputarão a Copa deste ano pelo país em que não nasceu. De acordo com as regras da FIFA, para um atleta defender uma seleção nacional precisa passar por alguns critérios: nascimento, descendência ou residência contínua. A verdade é que quase todos os elencos nacionais são compostos por jogadores que nasceram em outros países, apenas oito elencos são compostos apenas por jogadores nascidos no respectivo país.
Alguns dados são importantes para que se compreenda a diáspora futebolística. Dentre as 48 seleções, são 22 com pelo menos 5 atletas nascidos em outro país. Curaçao, República Democrática do Congo (RDC), Marrocos, Bósnia, Argélia, Haiti, Tunísia, Cabo Verde, Qatar, Senegal, Turquia, Costa do Marfim e Iraque são as seleções com mais atletas registrados nascidos em outro país. Nos casos de Senegal, Argélia, Tunísia, Haiti, Costa do Marfim, RDC e Marrocos, chama a atenção a quantidade de jogadores nascidos na França.
Em vários dos casos, as nações contam com atletas que representam a terra de seus pais ou avós. Em alguns casos, o futebol funciona como reencontro com uma identidade familiar. Em outros, como afirmação política diante de um mundo que insiste em erguer fronteiras.
Por outro lado, as próprias potências do futebol europeu são produto de processos históricos ligados ao colonialismo. França e Portugal, por exemplo, receberam ao longo do século XX sucessivas levas de migrantes vindos de países que colonizaram. Hoje, os grandes talentos do futebol europeu são descendentes desse processo histórico. Os gramados revelam aquilo que a elite tenta esconder: o imperialismo nunca desapareceu, continua atuante e atualizado. Suas marcas permanecem inscritas nas línguas, nas culturas, nas migrações e até nas escalações das seleções nacionais.
Enquanto isso, cresce na Europa uma retórica anti-imigração impulsionada pela extrema direita e normalizada por setores das elites econômicas. Comentários hostis contra imigrantes, antes restritos a grupos marginais, tornaram-se frequentes em parlamentos, programas de televisão e até entre dirigentes esportivos e empresários influentes. A migração é apresentada como ameaça justamente por sociedades que enriqueceram durante séculos explorando territórios e populações de outras partes do mundo.
O dono do Manchester United, Sir Jim Ratcliffe, ecoou discursos neofascistas ao afirmar que o Reino Unido foi “colonizado por imigrantes”, uma retórica que busca criminalizar o fluxo humano que, historicamente, sustenta o futebol e a sociedade europeia. É o imperialismo que agora tenta fechar as fronteiras para os mesmos povos que explorou.
A Copa surge como uma espécie de paradoxo.
Há, evidentemente, um lado contraditório na competição. A ampliação para 48 seleções atende antes de tudo aos interesses econômicos da FIFA. Mais jogos significam mais contratos, mais publicidade e mais dinheiro. Mas a expansão também abre uma brecha inesperada: países historicamente marginalizados e explorados pelo colonialismo terão mais oportunidades de disputar o maior palco do futebol mundial.
Enquanto Trump promete muros, deportações e restrições migratórias, os gramados estarão ocupados justamente pelos filhos daqueles que atravessaram fronteiras. Enquanto setores da extrema direita tentam definir identidades de forma rígida e excludente, milhões de pessoas estarão torcendo por equipes construídas a partir do encontro entre povos diferentes.
Durante noventa minutos, fronteiras aparentemente rígidas tornam-se mais flexíveis. Estádios transformam-se em um espaço onde culturas, idiomas, religiões e histórias se encontram. O futebol não elimina preconceitos, mas frequentemente os expõe.
Veremos, em campo, a Copa dos filhos da diáspora.