A extrema-direita se prepara para as eleições pelo “combate” ao crime
O narcoterrorismo como uma das chaves para as eleições no Rio
Nos últimos dias, as notícias do cenário político fluminense têm se concentrado nas “despedidas” de Eduardo Paes e Cláudio Castro de seus respectivos cargos. A movimentação não é nova, era esperada. Neste texto, quero chamar a atenção para outro movimento que talvez não esteja em tanto destaque, ao menos pela esquerda.
Com a “megaoperação” nos complexos da Penha e do Alemão, Cláudio Castro e a extrema-direita conseguiram se fortalecer. Pesquisas demonstraram que o cenário lhes era favorável, com grande apoio popular, inclusive nas favelas. O combate ao “narcoterrorismo” foi cavado como um caminho para a reconstrução do apoio popular ao fascismo diante da prisão de Bolsonaro e seus cúmplices.
Em resumo, o narcoterrorismo é a ideia de que os traficantes, em especial os do Comando Vermelho, desafiam a soberania estatal e precisam ser combatidos como terroristas. O problema sai do campo da “segurança pública” e entra na esfera da “segurança” ou “defesa nacional”. É a partir daí que figuras como Trump têm tentado classificar organizações como o CV e o PCC nessa categoria, de forma a exercer “medidas excepcionais”, típicas do combate ao terrorismo. Essas medidas seriam, basicamente, a autorização para violar direitos normalmente garantidos, ao menos no aspecto formal, pelo Estado burguês. Ações excepcionais para um problema excepcional.
Assim como Cláudio Castro, outras figuras se fortaleceram, em especial os secretários das Polícias Civil e Militar. O Coronel Menezes (PMERJ) e o Delegado Felipe Curi (PCERJ) são nomes que ganharam projeção com a megaoperação. Poucas semanas depois, seus nomes já eram ventilados como possíveis candidatos. Agora, isso é um fato. Menezes, com 300 mil seguidores no Instagram, será candidato a deputado estadual. Curi, com quase 500 mil, disputará uma vaga na Câmara Federal, havendo inclusive apelos em suas redes para que dispute o Governo do Estado.
A relação entre polícia e política não é nova. José Cláudio Souza Alves, professor da UFRRJ, desenvolveu esse tema em sua tese de doutorado (Dos barões ao extermínio). Mas há uma mudança em curso. Se antes a ligação se dava por serem “aqueles que resolviam problemas”, como no processo de constituição dos grupos de extermínio e, posteriormente, com as milícias (inicialmente identificadas como uma auto-organização de policiais contra o tráfico), hoje há um perfil mais ideológico.
A “bancada da bala” existe há muito tempo, com componentes que se elegem por diferentes razões: alguns representam corporações, outros exercem influência sobre territórios específicos. Nos últimos anos, porém, surgiram figuras que se tornam conhecidas pela disputa das ideias, sem necessariamente serem vistas apenas como representantes de um grupo de servidores ou de moradores de uma região.
Menezes e Curi são expressões desse fenômeno. Apresentam-se como nomes técnicos que demandam o combate ao narcoterrorismo. Suas redes sociais são recheadas de vídeos comentando crimes e operações, inclusive de outros países, propagando um ponto de vista específico. É uma verdadeira disputa de hegemonia, como diria Gramsci. São intelectuais orgânicos de uma fração da extrema-direita que querem defender sua visão de mundo, para que tenha força material e possa ser realizada..
Suas ideias encontram eco porque a “violência urbana” é um dos temas centrais em qualquer eleição. Até mesmo nas municipais, onde prefeitos e vereadores, em tese, não teriam competência jurídica para solucionar o problema. Mas até essa barreira ficou para trás com o armamento das guardas municipais, sendo a Força Municipal de Eduardo Paes um exemplo claro. Desde 1990, as eleições fluminenses são pautadas pela segurança. Aquela década, inclusive, ficou marcada pela oscilação entre o combate aberto e a defesa de um policiamento comunitário.
Esta última perspectiva, defendida por nomes como Alba Zaluar e Luiz Eduardo Soares, pregava ser possível ter uma polícia eficaz e garantidora de direitos humanos mediante uma “reforma institucional”. Como vimos, essa tese oriunda de uma esquerda liberal, que acredita nos marcos do Estado democrático, falhou. Quando dizemos que a extrema-direita cresceu porque a esquerda não “soube” apresentar uma alternativa, a disputa na segurança pública é um dos elementos centrais. No Rio, talvez seja o principal.
Moradores do asfalto e da favela clamam por uma saída urgente. É esse clamor que foi expresso nas pesquisas que surgiram após a “megaoperação”. Hoje, os únicos que agitam e propagam com alcance uma alternativa são nomes da extrema-direita. Ontem, Menezes e Curi sequer eram conhecidos. Agora, crescem exponencialmente. Há um salto em curso. A tragédia se repete como farsa: como aponta José Cláudio, muitas vezes se aceita o “ruim” porque isso é melhor do que o “nada”. O que vamos defender como uma saída concreta? Se tivermos medo da disputa, haverá uma avenida aberta contra nós.
Em um texto anterior, já refletimos sobre o tema, mas ele precisa ser aprofundado de forma coletiva. Como superar a associação entre crime-estado-capital é uma das tarefas para o enfrentamento ao fascismo no Brasil.